Episódio 1: Uma Oferta de Vingança

O sol se pôs sobre Porto do Agouro. Clarões de luz âmbar escapavam pelos telhados triangulares, projetando sombras pontiagudas sobre a grama áspera do deserto que corria pelo meio da cidade. Agrupamentos de cactos estavam espalhados ao redor dos edifícios de madeira, e uma única fonte repousava no meio da praça, com a água borbulhando com magia para mantê-la permanentemente fresca. Os sinos da missão tocaram como faziam todas as noites ao pôr do sol e, ainda assim, Archie Dixon consultava seu relógio de bolso, repetidas vezes.

Dois guardas da Companhia Sterling estavam ao lado de uma carruagem próxima. Um deles mastigava preguiçosamente um pedaço de cana-de-açúcar preso entre os dentes. O outro mantinha os olhos fixos no Caminho do Agouro, vigiando o portal em busca de movimento.

Archie guardou o relógio no bolso do colete e soltou um suspiro exagerado. Não era a primeira vez que ele fora contratado pela Companhia Sterling para transportar mercadorias por Encruzilhada do Trovão, mas a maioria dos mensageiros acreditava que a pontualidade era de extrema importância — e Archie estava esperando junto à fonte há mais de uma hora.

Se fosse outro trabalho com outro empregador, ele talvez já tivesse partido. Mas a Companhia Sterling pagava bem. Eles também forneceram dois guardas armados para escoltá-lo pelo deserto, e ofereceram uma taxa adicional em troca do silêncio de Archie. Ele não podia fazer perguntas sobre quem estava encontrando ou o que estava transportando, mas dinheiro era dinheiro, e fofoca não punha comida na mesa.

Ainda assim, ele odiava quando as pessoas se atrasavam.

Archie estava pegando seu relógio novamente quando o Caminho do Agouro ondulou e ganhou vida, fazendo-o enrijecer no lugar. Tons de azul fluorescente estalaram como relâmpagos, e uma figura brilhante apareceu.

Um homem cruzou o limiar, com as feições escondidas por uma bandana preta. Não que isso importasse; Archie não reconhecia o homem, assim como não reconhecia o estilo de roupa que ele usava.

O estranho era de um plano inteiramente diferente.

O olhar do homem vagou pela praça mal pavimentada antes de pousar nos guardas da Sterling. Ele marchou pelo caminho largo em silêncio, parando a vários metros de distância. Em seu punho estendido estava um saco de juta.

Archie pegou a bolsa sem olhar duas vezes e apressou-se para dentro da carruagem.

Os guardas da Sterling subiram rapidamente para o assento elevado do condutor. Um deles jogou seu pedaço de cana na areia e agarrou as rédeas, onde dois cavalos castanhos viraram as orelhas para trás em antecipação. Archie mal bateu os nós dos dedos no teto quando a carruagem partiu, deixando o homem mascarado e o portal para trás.

Os cavalos os arrastaram pela paisagem empoeirada por quilômetros, com uma única lanterna pendurada na frente da carruagem para iluminar o caminho. Ela lutava contra a escuridão crescente até que era tudo o que Archie conseguia ver pela janela.

Ele apertou a bolsa contra o peito, tentando encontrar o horizonte onde as montanhas do deserto encontravam o céu estrelado. Ele esperava que o silêncio fosse um bom sinal, mas, no fundo, sabia que não. Seu empregador nunca teria fornecido dois guardas da Companhia Sterling a menos que o trabalho envolvesse riscos.

Ele antecipava bandidos — mas o que o encontrou no deserto foi muito pior.

Uma parede de fogo irrompeu em uma labareda veloz, criando um círculo impenetrável ao redor da carruagem. Os cavalos empinaram em alarme, e o veículo parou bruscamente, fazendo a cabeça de Archie bater contra a moldura da janela. Ele fez uma careta, com os olhos oscilando, e assistiu horrorizado enquanto os dois guardas saltavam para a areia e sacavam suas armas.

"O que é isso?" Archie perguntou apressadamente, com o estômago se enchendo de pavor.

"Esporas Infernais", murmurou um dos guardas.

O outro apertou o punho em torno de seu rifle de trovão em resposta.

Várias figuras apareceram através da parede de fogo, sem serem afetadas pelas chamas que sibilavam e estalavam ao redor delas. Eles dispararam suas armas contra os guardas sem aviso, enviando rajadas de energia espalhando-se pela areia. Quase uma dúzia de buracos apareceu na lateral da carruagem, e os guardas da Sterling caíram imediatamente.

Quando o único som restante no deserto era o estalar do fogo, os estranhos baixaram suas armas.

O grupo abriu-se ao meio, abrindo caminho para uma figura grande que avançava, com as garras esporeadas tilintando sob ele. A luz do fogo caía sobre a estrutura imponente do dragão, fazendo as escamas em seu corpo parecerem tremeluzir. Não havia como confundir o líder das Esporas Infernais. Não no deserto, onde seu nome carregava tanto medo.

Akul.

Arte por: Kekai Kotaki

O dragão estalou suas estranhas mandíbulas, puxou a cauda para trás e a chicoteou contra a carruagem, partindo o que restava do veículo em dois.

Archie sentou-se em uma poça de sangue, ainda segurando a bolsa. Sua mortalidade estava se esvaindo a cada respiração vacilante, os olhos arregalados de pânico.

Akul mal parecia notá-lo.

O dragão arrancou o saco de juta das mãos moribundas de Archie e estufou o peito em triunfo. "Finalmente. A última chave é minha."

Com uma única garra, ele rasgou o saco. Alguns pedaços de carvão caíram em sua palma aberta, e ele sibilou, os olhos dourados brilhando de fúria.

Akul rosnou, esmagando o punho em torno do carvão até que o pó preto e fino escorresse por suas garras. Ele girou, a cauda chicoteando, e rugiu para o vasto deserto.

Dentro da carruagem destroçada, Archie Dixon observou as Esporas Infernais recuarem alguns passos enquanto Akul ateava fogo à areia ao seu redor. Archie sentiu as chamas se aproximarem, mas sua mente já estava se esvaindo. Ao dar seu último suspiro, ele teve o estranho e súbito impulso de consultar seu relógio de bolso.

Por mais que se importasse com a pontualidade, ele nunca esperou chegar tão cedo à própria morte.

Archie piscou pela última vez — e em algum lugar à distância, muito além das chamas do deserto, a verdadeira chave estava se distanciando do alcance de Akul.

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Annie Flash ajustou seu chapéu de abas largas e apertou os olhos para observar o terreno castigado pelo sol, sua testa franzindo-se em rugas profundas. Ela vinha seguindo a fumaça desde o amanhecer e finalmente conseguia ver a fonte carbonizada à distância a olho nu.

Abaixo dela, Fortuna soltou um resfolego impaciente.

Ela pressionou uma mão enluvada no pescoço do animal e inclinou-se sobre a sela. "Não se preocupe. Vou compensar você com todas as maçãs e grãos doces que puder comer assim que chegarmos em casa — mas aquelas ruínas ali provavelmente são como vamos pagar por isso."

Fortuna balançou seus chifres curvados em resposta, claramente desimpressionado. Annie abriu um sorriso. Não era algo que ela fizesse com frequência, mas havia algo em longas cavalgadas que a tornava mais disposta a baixar a guarda.

Annie tocou Mister com o calcanhar, e eles cavalgaram em direção à fumaça. Ela vira muitos incêndios de carruagens durante seus primeiros dias com os Passolivres. Ela sabia a diferença entre um acidente e uma emboscada — e aquilo certamente não fora um acidente.

Mas um olhar para o corte na carruagem disse a ela exatamente de quem era aquele trabalho, também.

Akul estivera ali.

Fazendo uma careta, Annie lançou seu olho dourado pela paisagem queimada, verificando se havia ilusões. Confiante de que estava sozinha, ela desmontou e moveu-se para os restos da carruagem. Ela chutou a grande pilha de cinzas, e vários ossos espalharam-se para o lado.

Ela tentou não se perguntar a quem pertenciam. A curiosidade nunca fizera nada além de torná-la um alvo maior.

Alcançando o que restava do assento, Annie deu um puxão e revelou um compartimento escondido. Uma caixa de segurança estava lá dentro, intacta. Com um canivete de seu cinto, ela forçou a tampa e encontrou vários maços de dinheiro.

Ataques como esses só pareciam acontecer por um de dois motivos: dinheiro ou vingança. Mas algo não parecia certo no fundo de seu estômago.

Embora soubesse que não devia se perguntar, ela o fez de qualquer maneira.

No que dizia respeito às Esporas Infernais, um incêndio de carruagem como ato de vingança era manso demais; Akul preferia fazer um espetáculo das coisas, muitas vezes em público. Mas eles deixaram o dinheiro para trás — o que significava que estavam atrás de outra coisa. Algo maior do que uma caixa de dinheiro que poderia alimentar uma família inteira por um mês.

O que ele está procurando? Os pensamentos de Annie martelavam. E quantas carruagens ele queimou para encontrar?

Uma pontada de pavor percorreu-a. Ela odiava que um monstro como Akul estivesse semeando o caos no plano, ferindo inocentes pelo caminho e ainda saindo vitorioso. Mas ela também decidira há muito tempo ficar o mais longe possível dele. Porque contanto que aqueles inocentes não fossem as pessoas que ela passara a chamar de família, ela não se importava. Não podia se importar.

Akul não era alguém com quem ela cruzaria o caminho novamente. Mas ela estava feliz em pegar o dinheiro que ele deixara para trás.

Arte por: Kieran Yanner

Annie pegou a caixa de segurança, guardou-a com segurança em um dos alforjes e afastou uma mecha brilhante da crina dos olhos de Fortuna.

"Acha que consegue nos levar de volta a Saddlebrush antes do meio-dia?" ela perguntou, observando Fortuna baixar a cabeça em resposta. Ela subiu de volta na sela e pegou as rédeas com uma mão. "Tudo bem, então. O jantar é por minha conta."

Annie fixou o olhar muito além do próximo vale, a íris esquerda brilhando com magia. Mesmo estando a quilômetros de distância, ela conseguia ver o contorno da pequena cidade nos ermos que chamava de lar. Saddlebrush estava longe de ser a cidade mais bonita de Encruzilhada do Trovão, mas Annie achava que ela tinha outros encantos — principalmente o quão longe estava do radar. Ela passara a apreciar o silêncio e o anonimato que vinham com isso.

Annie conduzuiu Fortuna até um bebedouro em frente ao armazém geral da cidade. Assim que voltou a ficar sobre os próprios pés, ela jogou o alforje sobre o ombro e subiu os degraus tortos e gastos pela poeira.

"Boa tarde, Sr. Towning", disse Annie, apertando a ponta do chapéu em respeito e deixando as portas de madeira se fecharem atrás dela.

Um homem com cabelos grisalhos levantou-se de trás do balcão, com as mãos apertadas em torno de um caixote de vegetais. "Não esperava ver você hoje! Tenho uma entrega indo para o seu rancho de manhã — a menos, é claro, que você esteja aqui para fazer mudanças." Com um grunhido, ele colocou o caixote em uma prateleira próxima, afastou-se e imediatamente pressionou uma mão nas costas. "As coisas não se movem da mesma forma quando você envelhece", disse ele, fazendo uma careta. "Mas suponho que seja melhor do que a alternativa."

Annie colocou a caixa de segurança no balcão empenado com um baque . "Não posso fazer muito por esses seus ossos velhos, mas isso aqui deve alegrar você."

Sr. Towning levantou a tampa e imediatamente iluminou-se. "Você é boa demais para mim."

Annie observou-o dividir o dinheiro em duas partes iguais. Ele colocou sua parte em um cofre atrás do balcão, e Annie guardou a dela em uma bolsa em seu quadril.

"Tem certeza de que ninguém virá procurar esse tipo de dinheiro?" perguntou ele, girando o mostrador do cofre.

A imagem da carruagem queimada passou pela mente de Annie, mas ela tinha uma regra quando se tratava de discutir onde e como encontrava seu saque.

"Ninguém vai desperdiçar boas horas caminhando pelos ermos para procurar uma caixa que nem perceberam que sumiu", apontou ela. "Além disso, eu e Fortuna não vimos uma alma naquele deserto. Quem quer que tenha deixado esse dinheiro já se foi há muito tempo."

Ele assentiu, com o rosto suavizando. "Não tenho certeza se nossa pequena cidade teria sobrevivido tanto tempo se não fosse por você. Somos muito gratos a você. Sempre fomos, sempre seremos."

"E eu aqui pensando que estava pagando para evitar que vocês me vendessem para quem pagasse mais." Annie ergueu uma sobrancelha. "Se sou a heroína da cidade, provavelmente deveríamos renegociar essa divisão de cinquenta por cento."

A risada do Sr. Towning ecoou pela pequena loja. "Bem, agora, você sabe o que dizem; se não está quebrado…"

Annie gesticulou através do balcão para a cesta de produtos ao longo da parede. "Que tal algumas daquelas maçãs, então? Prometi a Fortuna que pegaria grãos doces enquanto estivesse aqui também."

Ele pegou a maçã vermelha mais brilhante do monte e a jogou pelo balcão. Annie a agarrou no ar com as mãos em concha.

"Diga a Fortuna que é por conta da casa", disse ele. "Vou mandar entregar o resto amanhã de manhã."

Annie inclinou o chapéu e virou-se para a porta. "Sempre um prazer."

Ela cavalgou até a periferia de Saddlebrush e chegou ao seu pequeno rancho pouco antes do pôr do sol. Ela parou perto dos campos no caminho para a casa, onde Fortuna juntou-se aos outros animais para pastar. Às vezes, ele desaparecia junto com os últimos raios de sol — aqui em um momento, ido no próximo. Embora Annie nunca soubesse para onde ele ia ou que negócios ele fazia, ele sempre voltava. Havia um entendimento silencioso entre os dois.

Annie observou-o por um momento. Suas marcas eram como as de seus outros cavalos palominos, mas Fortuna não era uma criatura para a qual Annie tivesse um nome. Sua inteligência igualava a de qualquer humano que ela já conhecera — embora o senso de direção de Fortuna fosse outra coisa inteiramente. Eles eram bem adequados um ao outro dessa forma; Annie ajudava Fortuna a navegar pelo deserto, e Fortuna oferecia a ela uma confiabilidade que ela não tinha há algum tempo.

Annie afastou-se do portão, segurando firme a alça de sua bolsa, e caminhou de volta pela estrada de terra em direção à sua casa. Ela estivera tão fixada em Fortuna e nas memórias de seu passado que quase chegou à varanda antes de perceber que alguém estava parado ao pé da escada.

Sua mão moveu-se imediatamente para a faca guardada em seu quadril, os dedos tremendo. O homem à sua frente estava vestido como alguém da cidade, com um terno impecável e sob medida e botas excessivamente polidas. Seu cabelo loiro ondulado estava penteado para cima e para o lado, e havia uma presunção em sua testa de que Annie desgostou imediatamente.

"O que você está fazendo na minha propriedade?" ela exigiu, a voz afiada.

O estranho mostrou os dentes. "Você é a notória ex-fora da lei que atende pelo nome de Annie Flash?"

Ela estremeceu com a referência, preferindo não pensar em seus dias trabalhando com criminosos. Não depois do que aconteceu com seu sobrinho. "Quem está perguntando?"

O sorriso do homem persistiu. "Vim de todo o caminho da cidade para conhecê-la pessoalmente. Suponho que se possa dizer que sou um grande fã."

"Isso é apenas metade de uma resposta", disse ela friamente. Seu olho esquerdo brilhou com um toque de laranja, e ela viu o homem como ele realmente era sob a ilusão. Ela franziu as sobrancelhas. "Que negócios uma fada tem por aqui nos ermos?"

O sorriso do homem curvou-se com travessura, e ele mudou de forma de volta à sua forma natural — cabelos negros como tinta, orelhas pontudas e um rosto pálido que parecia estar polvilhado de prata. Ele fez uma reverência fingida. "Prazer em conhecê-la, Annie Flash. Meu nome é Oko — e sua habilidade de ver através de ilusões é exatamente por que eu estava procurando por você." Ele inclinou a cabeça como se estivesse admirando uma pintura. "Disseram-me que um anjo lhe deu esse olho. Um presente raro, de fato."

"Não foi a ilusão que denunciou você." Ela cruzou os braços. "É o fato de seus sapatos não terem um grão de terra, apesar de sua afirmação de viajar pelo deserto para me encontrar."

Oko riu. "Quando confrontado com uma escolha entre precisão e aparências, prefiro a última."

"Seja qual for o jogo que você está jogando, não me interessa. Estou aposentada. Agora saia da minha varanda." Ela começou a passar por ele, mas Oko fixou os olhos na bolsa dela, fazendo-a parar.

"Se dinheiro não lhe interessa, talvez vingança interesse", ofereceu ele, com a voz muito parecida com um ronronar perigoso. "Estive montando uma equipe para roubar algo importante de um fora da lei que você deve conhecer como Akul."

Annie ficou tensa, incapaz de esconder a reação visceral ao som do nome dele.

Oko pareceu satisfeito. "Ouvi um boato de que pode haver alguns negócios inacabados entre vocês dois."

"Ouviu errado", cuspiu Annie. Ela virou-se então — para os campos e o rancho e tudo o que construíra para si mesma desde o dia em que Akul quase matou seu sobrinho — e cerrou os punhos. "Não vou retroceder. Não preciso de vingança para encontrar paz."

Oko a estudou com o tipo de cálculo que sempre parecia seguir a ambição. Após um momento, ele enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno livreto de fósforos com o nome de um saloon impresso na lateral. "Aqui — caso mude de ideia."

Annie pegou-o apenas porque esperava que isso o fizesse ir embora mais rápido.

"Se foi tão fácil para mim encontrar você, imagine o quão fácil será se as Esporas Infernais decidirem vir procurar", disse Oko. "Você deve amar muito esta cidade para fazer tanto esforço para protegê-la."

Annie empertigou os ombros. "Isso é uma ameaça?"

Oko pressionou uma mão ao coração; um gesto de sinceridade. "Claro que não. Estou apenas apontando o óbvio." Quando ele baixou a mão, seu sorriso retornou. "Se mudar de ideia, venha me encontrar no saloon. Prometo que farei valer a pena."

Annie observou Oko desaparecer pelo caminho, o aperto fechando-se em torno do livreto de fósforos em sua palma.

Fora um erro ficar em um lugar por tanto tempo. Ela criara raízes sem nem querer.

Nada ficava enterrado no passado para sempre — e agora seus velhos fantasmas a haviam seguido até o único lugar que restava no mundo que ela realmente amava.

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Kellan levantou o último dos postes de metal para o poço do elevador e deu um passo para trás. Ele observou a máquina elevar o equipamento para o próximo nível da torre de retransmissão parcialmente construída.

Lanternas pontiagudas pendiam ao redor dele, seguindo por fios e cordas como uma cascata de luz estelar, brilhando em desafio ao céu que escurecia. Não fazia muito tempo que o sol desaparecera atrás do cânion, mas o ar ainda estava pesado de calor.

Kellan limpou o suor da testa com as costas da mão e olhou por cima do ombro para o que estava rapidamente se tornando sua nova vista favorita. O Caminho do Agouro estava encravado entre a enorme face rochosa, crepitando com energia azul. Era difícil acreditar que faziam apenas algumas semanas desde que ele cruzara o portal.

Arte por: Magali Villeneuve

Mesmo à luz do dia, Porto do Agouro não se parecia em nada com Eldraine. Mas Kellan não olhava para a paisagem laranja e amarela e sentia saudades de casa. Ele sentia esperança .

"Ei — garoto novo!" uma voz bradou do fosso. Kellan olhou para baixo e viu uma das supervisoras acenando com a mão no ar. "Esses paletes não vão se mover sozinhos!"

Kellan desculpou-se, encabulado, e desceu apressadamente a escada para ajudar com a próxima carga de peças. Ele levantou uma após a outra, a mente voltando a divagar com pensamentos de viajar para outras cidades, quando um alto estouro o tirou de seu transe.

Na base da torre, um técnico puxava horrorizado uma peça de hardware desalinhada, tentando removê-la do enorme conector. Houve outro estouro , e um relâmpago irrompeu do metal. Faíscas voaram da unidade de controle, mas a maior parte da energia disparou para o alto, seguindo pela estrutura inacabada da torre de retransmissão até se espalhar pelo céu em pelo menos uma dúzia de direções diferentes.

No alto do andaime, uma das faíscas maiores atingiu uma lanterna, fazendo o vidro explodir. Um trabalhador próximo levantou as mãos para proteger o rosto, cambaleando para trás em direção à borda da plataforma. Ele oscilou, lutando para recuperar o equilíbrio, antes de soltar um grito agudo.

Do alto da torre, o homem caiu.

Alguns dos trabalhadores no fosso gritaram. Outros apontaram em choque.

Kellan não hesitou. Poeira dourada brotou de seus pés enquanto ele voava em direção ao homem e o envolvia com os braços no ar, colhendo-o do céu como um pedaço de fruta antes de baixá-lo suavemente ao chão.

Arte por: Raymond Bonilla

O trabalhador balbuciou algumas palavras de gratidão, com os dentes batendo de medo, quando Ral apareceu. Seus olhos saltaram da torre para o homem e voltaram novamente.

Ral gesticulou em direção ao mercenário com irritação. "Acidentes como este podem atrasar nosso progresso em dias. É pedir demais esperar competência em um projeto como este?" Ele apertou a ponte do nariz, inspirando profundamente. "Esqueça. Como eu estava dizendo antes, gostaria de um relatório completo sobre a conversão elétrica antes da instalação…" Ele afastou-se sem outro olhar para o trabalhador caído.

Um grupo de técnicos apressou-se para a unidade de controle para consertar a falha antes que outra descarga de energia fosse liberada. Passando o braço em volta do homem, Kellan ajudou-o a encontrar um assento contra uma pilha de caixotes de metal para que ele pudesse recuperar o fôlego longe da confusão.

Kellan puxou um cantil de couro cheio de água de seu quadril. "Aqui — beba isso."

"Você tem o coração mole demais para trabalhar em um emprego como este", apontou o homem antes de dar um gole.

"Porque eu não deixei você cair?"

"Não — porque você ainda está parado aqui cuidando de mim quando sabe muito bem que o chefe vai descontar do seu salário por isso."

Kellan olhou através do fosso, onde a supervisora estava em uma conversa profunda com Ral. "Não aceitei este trabalho pelo dinheiro."

"Você é estranho. Mesmo para uma fada." O homem ergueu o queixo. "Por que você aceitou este trabalho?"

Kellan hesitou antes de sentar-se no caixote ao lado dele. "Meu último chefe, Ezrim — ele me disse que meu pai estava neste plano. Eu — estou tentando encontrá-lo."

O homem franziu a testa. "Seu pai está trabalhando na torre de retransmissão?"

Kellan passou a mão pelo cabelo espesso, rindo nervosamente. "Não. Mas Ral ofereceu me contratar, e ele conhece muita gente em Porto do Agouro. Era uma oportunidade boa demais para perder."

O trabalhador fez uma careta e virou o resto da água em um movimento apressado. Quando terminou, soltou um assobio entre os dentes. "Sabe, a maioria das pessoas vem para este lugar para escapar de algo. Talvez, se você ainda não encontrou seu pai, seja porque ele não quer ser encontrado."

"Não acho que ele esteja se escondendo de nada. Acho que ele está procurando por algo", admitiu Kellan.

"Bem, se for esse o caso, tenho certeza de que ele ficará feliz em ver um rosto familiar quando descobrir que você está aqui."

Kellan forçou um sorriso e assentiu, com as orelhas queimando enquanto guardava uma informação vital para si: seu pai não tinha ideia de como Kellan era, porque eles nunca haviam se conhecido .

O homem devolveu o cantil. "É melhor eu voltar lá para cima. O dia de trabalho está quase no fim. E não que eu não aprecie sua ajuda, mas se for o mesmo para você? Vou pelas escadas desta vez."

Kellan observou-o desaparecer na esquina e pensou na última vez que se despedira de um amigo. Isso trouxe um aperto familiar de volta ao seu peito. Ele tentou afastá-lo, decidindo que era melhor terminar de empilhar os postes de metal do que pensar em como era solitário estar em um novo plano sem uma única pessoa que conhecesse. Até seu pai era, tecnicamente, um estranho.

Apenas por mais um pouco , Kellan assegurou a si mesmo.

Ele levantou-se e virou-se para o poste que deixara momentos antes quando encontrou uma figura alta bloqueando seu caminho.

A supervisora acenou com a mão para a bagunça de equipamentos parcialmente empilhados. "Termine aqui. Seu novo turno começa de manhã."

Kellan franziu a testa. "Novo turno?"

"O Sr. Zarek acha que alguém com seu conjunto de habilidades deveria estar em sua equipe de segurança em vez de trabalhar aqui no calor. Ele vai visitar a sede da Companhia Sterling em alguns dias — e você vai com ele."

"Para Prosperidade?" Kellan perguntou, o coração batendo forte.

A supervisora franziu o cenho. "Isto não é uma excursão, garoto. Você vai cuidar do chefe."

Kellan assentiu rapidamente. "Eu entendo", disse ele, embora a esperança estivesse crescendo dentro de seu peito como um balão.

Ela virou-se bruscamente para o elevador. "É melhor se apressar. Quero esta bagunça limpa antes que a equipe da noite chegue."

A empolgação de Kellan era impossível de conter. Prosperidade era, de longe, a cidade mais rica de Encruzilhada do Trovão — e lugares com dinheiro costumavam ser um reduto de fofocas. As chances de pelo menos alguém na cidade ter informações sobre Oko certamente seriam altas. Especialmente se Ral estivesse disposto a ajudar a perguntar por aí.

Ral Zarek era uma pessoa importante em Porto do Agouro. Talvez fosse importante em Prosperidade também. Planeswalkers, na experiência de Kellan, tendiam a ser muito importantes em todos os lugares para onde iam.

Havia tantas perguntas que Kellan queria fazer ao pai — sobre sua herança feérica, seus poderes e se Oko alguma vez se sentira puxado em duas direções da maneira que ele se sentia. Havia tantos anos perdidos entre eles. Tantas memórias que deveriam ter compartilhado, mas não o fizeram. Kellan sabia que havia uma chance de seu pai não sentir o mesmo. Talvez ele o rejeitasse, ou se recusasse a vê-lo. Ele ouvira as histórias sobre Oko ser um trapaceiro notório e ter reputação de não ser confiável.

Mas Kellan nunca fora de acreditar em boatos, e preferia confiar no potencial de alguém a evitá-lo por seus erros passados. Além disso, ele era filho de Oko, e isso significava algo.

Tinha que significar.

Kellan estava pronto para conhecer seu pai.

E Ral Zarek ia ajudar a fazer isso acontecer.

Sem Pistas

Novos começos, hein. Coisa brutal — você tem meus pêsames. Nunca vi um novo começo que não envolvesse queimar algo, e se essa metáfora soa fofinha para você, convido-o a sentir o cheiro das cinzas úmidas de um incêndio de um dia atrás, e saber que isso mudou tudo o que você amava, melhor do que a magia jamais poderia. Este novo começo em particular, este nascer do sol brilhante e reluzente em particular, envolveu uma dama entrando no meu bar com fogo literal nas mãos. Você pode imaginar como foi a partir daí, e o lugar nem estava aberto ainda.

Eu a conhecia, é claro. Fomos amigos uma vez, Elnor e eu. Mas era complicado, e eu não estava a fim de pensar em complicações quando ela apareceu naquele deslumbrante terno cor de vinho feito sob medida em Nova Capenna, com um demônio serpente grosso como a corda de um marinheiro enrolado em seu braço, e apontou a mão para mim. A serpente era linda, de um verde brilhante, como se tivesse acabado de trocar de pele. Realçava o terno maravilhosamente. A coisa disparou um jato de chama pela boca, quente como uma cremação no inverno. Comigo pego desprevenido, ela não poderia errar — foi um tiro de aviso.

"Madame!", eu disse. Eu falo melhor quando estou contando uma história. O melhor que posso dizer sobre aquela frase é que a identifiquei com precisão como uma dama. A chama não pegou fogo, apenas atingiu alguns copos pendurados atrás do balcão e os derreteu. Eu tinha meu arco de trovão na minha frente, mas estive mexendo nele. Não estava em condições de ser sacado contra nada.

Felizmente, Elnor queria conversar, embora a única lembrança doce que ela quisesse remoer fosse: "Onde foi parar o dinheiro, Yuma?"

"Foi para onde o dinheiro vai", retruquei para ela. "Onde está o dinheiro? Onde estão os antigos reis e os deuses mortos? O que você está fazendo aqui?"

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Elnor e eu estávamos falidos quando nos conhecemos. Nós dois nos juntamos a alguns amigos — a namorada dela, Shadress, e algumas outras pessoas legais agora mortas ou na prisão — porque tínhamos sonhos, que os deuses nos ajudem. Sete sonhos diferentes, talvez, mas nós os reunimos e tiramos a média, e o que surgiu foi isto. Sairíamos dos Riveteiros, onde todos passamos nossa juventude. Então, iríamos construir algo. Os Riveteiros deveriam ser construtores, ferreiros, carpinteiros, certo? Isso costumava significar algo, antes que essa gangue de trabalhadores que se uniu contra os patrões se tornasse apenas mais um grupo de patrões. Então eu e meus amigos começaríamos de novo, faríamos do jeito certo. Encontramos um armazém vazio para ocupar e escrevemos um manifesto. Tínhamos todas as habilidades de que precisávamos. Eu era um armeiro, Shadress era uma alfaiate, Elnor era o rosto bonito. O dinheiro que ganhássemos seria compartilhado. Recrutaríamos outras pessoas e assim por diante, e assim por diante, e assim por diante até a utopia.

Mas toda família tem drama, e esta também tinha aluguel. O dono da ocupação apareceu com capangas e confiscou todo o nosso equipamento, então não podíamos ganhar a vida. Ele disse que o devolveria se pagássemos o aluguel atrasado, mas não tínhamos esse tipo de dinheiro. Então, obviamente, teria que ser o crime, a principal indústria de Nova Capenna. Principal importação, principal exportação. Sabíamos como roubar também, e o equipamento para isso era mais barato. Se você fizer direito, nem precisa de armas, embora eu vá ser honesto: nós fizemos errado.

Elnor era incrível naquela época. Foi mesquinho da minha parte dizer que ela era apenas o rosto bonito. Ela tinha charme, e se você acha que isso não é nada, nunca foi alguém sem charme. Eu mesmo não tenho charme nenhum. Eles gostam de mim aqui na Encruzilhada do Trovão porque introduzi coquetéis no deserto. Não gostam de mim pela minha classe.

Ela sabia beber. Sabia jogar. Sabia flertar. Ela era a distração perfeita e, como sabia se maquiar e se vestir com estilo, era boa em se disfarçar também. Você não precisa se embelezar com magia, ou mesmo usar os truques chatos e normais de disfarce — algodão nas bochechas, trocar os óculos, roupas mal ajustadas. Você pode fazer tudo com atuação e maquiagem. Eles esperam um tipo de garota, mas aqui vem outra.

Acredite em mim, eu me esforcei muito para ser uma garota por um certo número de anos. Requer habilidade. Você tem que funcionar sob a pressão de ser constantemente olhada — a maneira como as pessoas olham para as mulheres, avaliando, selecionando, tudo sem considerar se você está selecionando de volta. Não é por isso que tive que me refazer como homem, mas tenho que admitir que também era ruim nisso. Elnor era um gênio, um talento natural. Funcionar sob os olhares? Coloque-a em uma sala cheia de chefes do crime e ela poderia ganhar um jogo de pôquer nua.

Então, enquanto Elnor conversava com guardas, crupiês e bancários, nós explodíamos cofres e abríamos caixas-fortes, abríamos caminho à força através de trens em pontes precárias. Aqueles eram os dias! Eu me lembro deles em luzes e visões. A serragem no chão da nossa oficina, como a luz do sol a fazia brilhar. Os veludos manchados em um salão escurecido de um maestro, enquanto minha mão aprendia o quão pesado o ouro é. Nova Capenna era uma cidade arruinada. Até as coisas novas já nasciam arruinadas lá. Eu sei disso porque éramos novos e estávamos arruinados.

Isso continuou por alguns anos. Ah, conseguimos o dinheiro do aluguel bem rápido, mas então decidimos que seria mais seguro e barato sermos donos de um prédio. Essa foi a ideia de Shadress — Shadress, que era o exato oposto de Elnor e o exato oposto de mim. Tente entender isso, se puder, mas você precisaria de matemática mais avançada do que os Riveteiros jamais me ensinaram. Ela só usava preto desbotado, com dois alfinetes cruzados no colarinho. Ela tinha aquele truque de alfaiate de falar com a boca fechada, porque eles mantêm alfinetes lá dentro também, e quando ela falava, nunca era direto. Não era: "Seremos mais fortes se ficarmos juntos". Era: "Os dois lados de um arco estão sempre caindo um em direção ao outro. É por isso que ele é forte. Se pudermos ser assim, ficaremos bem". Entende o que quero dizer? Éramos todos desastres; não conseguiríamos ter ficado juntos nem se tentássemos. Mas podíamos tentar cair um em direção ao outro, e tentamos. Por um tempo.

De qualquer forma, aquele prédio foi a pior decisão que Shadress já tomou. Pegamos o dinheiro emprestado para comprá-lo. Você pode imaginar o que aconteceu depois. A dívida cai sobre você em camadas. E financiando suas dívidas com roubo, você faz o dobro de inimigos. Não vou aborrecê-lo com a história inteira e chata, exceto que acabei indo embora. Simplesmente fugi pelos Caminhos de Augúrio, sem saber para onde estava indo. Todos os que ficaram iam morrer, ir para a cadeia ou voltar a ser soldados rasos em uma das gangues. Voltar a ser o mais baixo mastigador de ferro dos Riveteiros? Não. Eu queria uma nova vida.

Justificando-me? É claro que estou me justificando. Mas também estou certo. Eu poderia morrer com meus amigos ou viver sozinho. O que levei não teria pago um mês de juros, e eu o mantive fora das mãos de nossos inimigos, não mantive?

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Eu joguei uma garrafa. Minha virtude em uma briga é que sou rápido. E eu tinha outra preocupação também, além de Elnor e da besta desmontada. Kirri estava lá no balcão, no cesto onde ele gosta de se enrolar. Ele consegue ficar tão imóvel quanto uma rocha, então parecia apenas que eu tinha um cacto comum em um vaso, um pouco de decoração — mas ela estava apontando aquela serpente desconfortavelmente perto dele e, mesmo que eu não saísse daqui, eu tinha que dar a ele uma chance de escapar. Aquele carinha salvou minha vida duas vezes. Você ouvirá sobre ambas, em cinco e dez minutos.

Sou rápido, como eu disse. E embora Elnor também seja rápida, puxa, eu posso surpreender você. É sobre manter seus músculos relaxados até o último momento possível. Sem espasmos, sem pistas. Ela não tinha me dito para manter minhas mãos onde ela pudesse vê-las, mas eu as mantive lá de qualquer maneira, bem no topo de pedra fria do balcão. Eu podia sentir as partes rasas na pedra onde o pedreiro não raspou tudo até ficar limpo. Então eu me joguei para o lado, peguei a garrafa, arremessei-a girando. Ela atirou e se esquivou ao mesmo tempo, mas eu tinha antecipado isso, e a garrafa se estilhaçou contra a criatura, fazendo seu jato de fogo ficar azul por um segundo. Derreteu um buraco na parede de pedra atrás do bar, e o braço de veludo dela estava brilhando com fragmentos de vidro. Agora a serpente estava atordoada — odeio fazer isso com um demônio que não pediu para ser invocado, mas melhor isso do que Kirri. Ele ainda estava em seu cesto, ainda sem se mexer. Nunca sei o que ele está pensando. Ele é inteligente, mas não é o que se chamaria de emotivo.

Eu tive alguns segundos. Usei-os para montar meu arco de trovão de volta e colocá-lo na minha mão. É uma besta pesada e bem balanceada, com a coronha polida e brilhante, e pode canalizar relâmpagos, virotes pesados e estalantes. Além de caçar, eu o uso principalmente para expulsar pessoas do bar, por isso é maior e mais complicado do que precisaria ser.

"Eu não entendo, Yuma", disse Elnor. Ela estava calma para uma mulher com um trovão apontado para ela; eu podia sentir o cheiro do poder, como o cheiro da chuva chegando ao deserto. "Nós não fomos bons para você? Não aceitamos você quando ninguém mais aceitou? Não apresentamos você ao melhor modificador de corpos da cidade para mudar seus humores, para fazer de você um cara?"

Eu disse: "Não pensei que tivesse que pagar pela aceitação de vocês."

"Você não acha que tem que pagar por nada que seja meu."

"Entendo seu ponto. Eu —"

"Acabei de dizer, você já levou o suficiente."

"Caí nessa", eu disse a ela. "Escute. O dinheiro acabou. Eu o gastei. Não há nada aqui para recuperar, e não acredito que você sequer queira isso. Há quanto tempo você está me procurando? Um ano? É tempo suficiente para esquecer por que você está fazendo algo."

A mão dela se contraiu. A serpente estava parecendo melhor; enquanto eu observava, ela se enrolou mais apertado no braço dela, enterrando-se no tecido, e sua cabeça se ergueu mais alto. Ela respirou uma chama vermelha, não para mim, mas apenas no ar, aquecendo-o. Faz frio no deserto pela manhã, e esta criatura estava longe de casa.

"Não tente me ensinar", disse Elnor. "Não tente me acalmar. Você sempre achou que podia se livrar de problemas conversando, mas tudo o que sabe fazer é contar uma história. E essa não é uma história sobre mim."

"Certo. Bem, qual é a história, então?"

"Eu conheço uma história sobre mim", ela disse lentamente, "e é muito dolorosa, mas eu a contarei se você quiser. Em honra à nossa antiga amizade."

"É?"

"Chama-se Onde está o dinheiro?"

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Eu tinha todo o dinheiro costurado no forro do meu terno quando cheguei à Encruzilhada do Trovão, um ano atrás. Estava pesado, tudo em notas de dez e cinco, moedas de chumbo e bronze, e realmente estragava o caimento.

Porto de Augúrio é a primeira cidade que você vê aqui, um lugar amigável, todo feito de torres de madeira e penhascos protetores, mas era o primeiro lugar que qualquer um que viesse atrás de mim veria. Eu sabia que precisava sumir dali. O que eu não sabia era como sumir, se é que me entende. Nenhuma ideia de como sobreviver no deserto. O que passa por selva em Nova Capenna são apenas subúrbios arruinados. E teria que ser a pé. Eu não confiava nos trens — criação óbvia de Nova Capenna, as pessoas da minha terra os usariam. E o que eu sabia sobre cavalgar? Sou um garoto da cidade. Eu nunca tinha nem andado de bicicleta. Então, saí caminhando pela estrada da Encruzilhada do Trovão.

O terno era novo. Roupas importam lá em Nova Capenna, ainda mais do que aqui, e eu o fiz todo sob medida com a Shadress. Lã preta, veludo preto, riscas de giz escorrendo do quadril até a bainha, e eu devia parecer um milionário enquanto estava morrendo. A exaustão pelo calor chega até você sem aviso, foi o que aprendi desde então. O primeiro sinal: você não pensa com clareza. Chame-me do que quiser, talvez eu devesse saber, mas cresci em uma cidade onde todos sempre parecem fantásticos — não apenas por causa da alfaiataria, mas porque as nuvens e a fumaça e as sombras dos prédios tornam tudo escuro e glamoroso. Eu não estava acostumado com aquele sol grande e pleno. Enfim, lá estava eu, sentado em uma rocha com as mangas arregaçadas e o paletó pendurado no braço, deixando-o ensopado de suor, e lá estava esse pequeno... quero dizer... lá estava esse pequeno cara.

Um cacto pequeno e robusto, com forma e tamanho de uma criança pequena, com seis braços curtos. Sem muito rosto, mas de alguma forma eu sabia que ele estava bem disposto a me ajudar. Coloquei meu paletó ao redor dele para evitar ser ferido pelos espinhos e o peguei no colo.

Arte de: Matt Stewart

Eu vi muitas coisas no meu tempo. Humanos, demônios, grandes máquinas, revoluções, tragédias. Um plano chegando ao fim, como Nova Capenna — tem muita coisa acontecendo. Como uma garrafa quebrada se estilhaça em pedacinhos. Quanto mais estilhaçada, mais pedaços há para captar a luz. Encruzilhada do Trovão é um plano novo, um que ainda está começando. Ainda está inteiro. Então, quando digo que não tinha visto nada parecido com um bebê do povo-cacto, estou falando sério. Não havia espaço para algo como ele lá em casa.

Ele não me levou até a água nem nada disso. Ele tinha acabado de despertar alguns minutos antes. Não sabia fazer nada. Mas ele simpatizou comigo, e ser olhado de uma forma amigável me fez ver a mim mesmo de fora, e me perguntou do que eu precisava. Imaginei que a água fluísse para baixo, então procurei por terrenos baixos. O terreno baixo acabou sendo o leito seco de um rio, água fresca sob a areia. E assim, eu vivi.

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"Eu te disse, o dinheiro acabou", eu disse. Kirri teve muitas oportunidades de fugir durante aquele primeiro pequeno embate, mas ele não fugiu, é claro; ele não faz o que não quer fazer, mesmo que estivesse me fazendo suar de nervosismo.

"Ainda não acredito em você."

"Certo. Eu menti. Não acabou. Você está pisando nele."

"Este é o seu bar?"

"É o nosso bar", eu disse. "Meu e dos outros barmen, do pianista e dos dançarinos. Da faxineira, do cozinheiro. Nós o administramos juntos. Dividimos os lucros. É exatamente como sonhávamos lá em casa."

"Mas você é o dono."

"Claro que sou."

"Então você não é apenas um ladrão. Você é um patrão."

"Se você quiser colocar dessa forma, sim, eu sou."

Ela deu de ombros. "Não sei qual dos dois eu odeio mais."

"Eu apostaria em ladrão, mas você também é uma ladra."

Ela estalou os dedos; a serpente ficou em atenção. Eu mergulhei atrás do balcão, ouvindo-a correr em minha direção. Cobertura é uma armadilha se você não for ágil. Eu pulei, lancei um relâmpago borrado nela, e ela encharcou o ar com chamas de volta para mim: ambos erraram. Ela atingiu mais algumas garrafas atrás do balcão, no entanto, vaporizando o que estava dentro. Eu estava mergulhando para sair do caminho em um chão coberto de vidro e escória, gritando: "Você tem alguma ideia do quanto essas garrafas custam?"

Ela havia se protegido atrás de algumas das mesas de jogo. Meu bar tem dois níveis, térreo e mezanino. Há alguns quartos lá em cima, vazios agora. Mesas de cartas e dados nos fundos. Eu introduzi isso na Encruzilhada do Trovão também, ganhei uma fortuna com elas. Eu estremeci com a ideia de buracos queimados naqueles hectares de feltro, então fiquei abaixado, não atirei até ouvi-la se mover.

Trocamos tiros. Todos os meus foram altos por causa das malditas mesas. Ela estava rastejando rápido e silenciosa, tentando vir de lugares inesperados, na maioria das vezes conseguindo. Eu sabia que quanto mais isso durasse, piores seriam minhas chances — ela tinha a sala inteira para manobrar e não se importava com o estado em que a deixaria — então me arrastei por toda a extensão do balcão e pulei de repente, sentindo a liberdade da sala se abrindo, correndo para a escada — e para longe de Kirri, que ainda não estava se movendo. Longe, longe, para cima, para cima! Lá vai Yuma, gênio certificado, indo para o terreno alto. Vi o rosto atônito dela, apontei meu arco enquanto corria e então, bem quando cheguei ao degrau superior, ela mirou calmamente e ateou fogo às escadas atrás de mim.

Eu tinha tapete nas escadas, outra das minhas ideias elegantes, e agora mais uma que se voltou contra mim porque o fogo se alimentou dele como uma fera faminta. Estava azul de tão quente, rápido e perigoso, subindo em direção ao mezanino e cortando minha fuga. Eu vi tudo de cima: o bar com as garrafas derretidas, o buraco deixando entrar um feixe redondo do sol da manhã, Kirri em seu cesto, seu pequeno movimento rápido ao olhar para mim; Elnor, pálida, parada com a serpente se enrolando repetidamente em seu braço.

Percebi então que ela provavelmente não queria realmente me matar. A mira dela não é tão ruim. Mas se eu estivesse agitando um maço de notas de papel macio em uma de nossas mesas de craps, não teria apostado nesse número, então corri para um dos quartos. Um rugido de fogo abriu um buraco bem no meio da porta, o ângulo enviando-o através do teto também.

"Pare de incendiar o meu bar!", gritei pelo buraco.

"Dê um passo em direção à luz e eu não terei que fazer isso!"

Então aqui está, novamente, Yuma, gênio certificado e celebrado, o homem na capa de todos os jornais. Os quartos no segundo andar são todos conectados, certo? Assim você pode transformá-los em suítes. Como estavam todos vagos, as portas estavam abertas para arejar, o que significava que eu podia correr silenciosamente para outro quarto e sair pela porta, conseguindo dar um bom tiro. Corri, escancarei a porta e lá estava ela, em cima do balcão com suas botas sujas, mirando direto para mim.

Levantei meu antebraço instintivamente contra o jato de chama, senti o fogo atingi-lo e gritei de dor. Foi uma queimadura feia, e deixou uma cicatriz feia, mas não foi nada como deveria ter sido. Deveria ter passado direto por mim. Ela ainda não queria me matar — mas certamente estava se preparando psicologicamente para isso.

Atrás dela, eu podia ver Kirri empoleirado no novo buraco na parede. Tentei sinalizar com os olhos, depois com o rosto, depois com a cabeça, que ele deveria ir, pular, fugir, mas ele não se movia, apenas ficava lá me observando. Como se estivesse tentando transmitir algo que eu não era cacto o suficiente para entender. Eu estava preocupado em atrair a atenção de Elnor para ele, mas ela estava apenas olhando para mim, intrigada. Chamas estavam por toda parte agora — os móveis estavam pegando fogo, as escadas eram carvão e o telhado de palha de erva-capeta estava metade destruído. Em mais alguns minutos, o lugar seria uma grande chaminé. E ainda estava lá Kirri, sentado naquele buraco na parede como se fosse um assento de janela que eu tivesse acabado de construir para ele.

"Não vou me virar", ela me disse pacientemente. "Sei que você está tentando me enganar. Se houver alguém lá atrás, eles não podem salvar você."

Lembra que eu te disse que é engraçado os pensamentos que vêm a você em uma briga? Com minha carne chamuscada, os pequenos pelos queimados, meu novo amigo esperando pacientemente que eu entendesse algo, minha velha amiga com o cabelo chamuscado e selvagem, a serpente recuando do braço dela — tudo o que eu conseguia pensar era naquele assalto ao trem, lá em casa em Nova Capenna.

Foi o começo do fim para nós, mas foi uma hora de orgulho enquanto durou. Estávamos cercados por todos os lados pelos capangas dos Corretores — eles estavam entrando aos montes pelo vagão da frente e pelo vagão de trás. Tudo o que tínhamos era velocidade e imprevisibilidade, mas esse era o forte da Elnor. Ela estava dançando ao redor deles, usando cada parte daquele vagão imundo de terceira classe. Os assentos serviam de cobertura; as barras dos bagageiros eram para se içar no ar; as luminárias eram para rebater feixes de magia como tacadas de mestre no bilhar. Ninguém sabia o que ela faria a seguir, e foi assim que vencemos as probabilidades por mais um dia.

Lutas reais são todas sobre ritmo. Você tenta antecipar o ritmo do seu oponente. Você tenta não cair em um você mesmo. É simples assim. O problema era que ela podia ler minha mente, porque eu tinha o mesmo ritmo de sempre. Ela me conhecia. Ah, nunca tínhamos sido tão próximos. No nosso antigo grupo, eu sempre fui melhor amigo de outras pessoas — Elnor era diversão demais para mim. Mas intimidade não exige amor, exige apenas prática.

Eu não estava mais familiarizado com ela, no entanto. Ela estava lutando como outra pessoa. Ela estava lutando como a Shadress. Calma, cuidadosa, esperando e pensando. E isso significava que Shadress estava morta, porque você não se acalma tanto, tão rápido, a menos que seja para honrar a memória de alguém.

Shadress era a melhor de nós. Nunca acreditei em autoridade moral até conhecê-la. Bem, nunca acreditei em nenhuma das duas — nem em moral, nem em autoridade. Ela ficou deprimida depois do trabalho no trem, e meio que desapareceu, e todos começamos a brigar então. Caímos em direções separadas. Acho que ela sabia que todos tínhamos perdido o objetivo de vista, quando o objetivo estava longe e o dinheiro estava bem ali. Mas ela realmente era a melhor pessoa que já conheci.

Tudo isso passou pela minha cabeça em trinta segundos, o que é muito tempo. Elnor estava apenas me observando entender tudo. Ela estava me dando tempo para isso, porque vingança não serve de nada se a pessoa não souber por que está acontecendo. Mas ela estava aqui por vingança, e eu sabia que ela não hesitaria no próximo tiro.

Então, fiz algo que ela não poderia prever. Disparei meu arco de trovão no espelho comprido atrás do bar. Ele se estilhaçou em uma chuva de dinheiro perdido, fazendo cair uma cortina de vidro quebrado. Kirri estava me observando através dele, e eu podia dizer que, do seu jeitinho quieto, ele aprovava o que quer que eu estivesse fazendo. Elnor realmente se virou e olhou para aquilo; ela não podia acreditar que eu destruiria meu próprio lugar, mesmo depois de ela mesma já tê-lo destruído tão minuciosamente. Então, entre o brilho e o barulho, e a fumaça espessa e sufocante do meu investimento, eu pulei e fui para cima dela no corpo a corpo, atacando não com trovão ou qualquer tipo de magia, mas com meu punho queimado e o ileso.

Rolamos pelo chão, agarrados. Com as duas mãos, arranquei o demônio serpente dela e o arremessei do outro lado da sala; era musculoso e forte, mas não mais do que qualquer outro animal. O mesmo truque da garrafa. Engraçado como essas criaturas mágicas às vezes só têm defesas contra magia. Elas ficam chocadas com a força simples, e Elnor estava da mesma forma.

Bem, sim, é claro que eu poderia simplesmente tê-la matado.

Eu não queria, só isso. E eu tinha certeza disso. É a única maneira de garantir que você perderá uma luta: entrar nela sem saber o que quer dela. Eu sabia o que queria, e Elnor não, e não é por isso que venci, mas é por isso que ela perdeu.

A sala ficou quase em silêncio de repente, sem mais movimentos dramáticos, apenas duas pessoas, cansadas, respirando pesado entre o estalo das faíscas. Elnor sabe lutar com as mãos também, mas era minha especialidade quando eu era criança. Quando outras crianças estavam treinando invocação e arrombamento e todos os diferentes tipos de magia, eu estava na rua com meus punhos. Uma pequena rebeldia contra meu pai. Então lá estávamos nós, lutando, eu vencendo lentamente, mas ambos prestes a sufocar com a fumaça, quando de repente a chuva caiu.

Na Encruzilhada do Trovão, a chuva do deserto é forte e repentina. Ela vem do nada em um céu azul; as nuvens correm sobre você como um trem e, então, você está encharcado até os poros, com florzinhas impossíveis surgindo por toda parte. Era inverno na época, temporada de tempestades, mas eu ainda não esperava por isso. Em um instante, os fogos se apagaram e todo o lugar ficou preto e acre como um pavio de vela que acabou de ser apagado. Com a água e todo aquele carvão, você poderia ter mergulhado uma caneta nas poças no chão e escrito um poema, se tivesse vontade de escrever um poema, o que, naquele momento, eu não tinha. Eu ainda estava tossindo a fumaça de um incêndio que não existia mais. Ela também estava tossindo. E então me ajoelhei sobre o esterno dela, agarrei seus pulsos e acabou.

Eu disse a ela o que estou dizendo a você agora, o que digo a todo estranho que entra no meu bar com roupas limpas e justas e botas novas. Você diz que está aqui para um novo começo? Ótimo — mas isso significa desistir do passado. De fingir que você ainda pode mudá-lo. "O passado está morto", eu disse. "Acabou. Você está em um lugar novo, e isso significa começar do nada."

"Você é tão sábio, Yuma." O rosto dela estava escorregadio de chuva; ela tinha que ficar piscando para tirá-la dos olhos, balançando a cabeça. "E com certeza é conveniente — como a sua sabedoria significa que eu tenho que te perdoar."

"Não espero que você me perdoe", eu disse. "Tenho vergonha do que fiz. Faria de novo e teria vergonha de novo. Mas esta é a Encruzilhada do Trovão — as pessoas são diferentes aqui. Elas estão aqui para se inventarem."

"Reinventar, você quer dizer."

"Inventar. Como uma peça de maquinário. Riveteiros são bons em consertos, mas são todas peças prontas, ideias que outra pessoa construiu e quebrou. Aqui, você pode se forjar em um novo fogo."

"Você já não teve fogo o suficiente?" Ela tossiu uma última vez. "Você quer que eu seja sua amiga? Que me junte a você? Talvez você me dê mais algumas lições de vida como esta?"

"Não. Essa porta está fechada. Não quero te ver de novo. Você não quer me ver. Mas você pode começar uma vida nova. Ou acho que posso te matar, se você insistir, ou você pode me matar — e o quê? Assumir o bar? Assumir a hipoteca? Pagar para consertar todo o estrago que acabamos de fazer? Olha, ou você vai estar no prejuízo ou eu estarei."

Ela sorriu um pouco e, por um momento, foi como nos velhos tempos, da mesma forma que o seu reflexo em um espelho é igual a você — você não pode ouvi-lo ou cheirá-lo, não tem calor, mas sente algo de qualquer maneira. Eu sabia que tinha conseguido chegar até ela, e não é porque eu estava com as falas decoradas, mas apenas porque ela voltou a me ver como uma pessoa. É fácil continuar zangado com um fantasma, ou fugir de um também, mas com uma pessoa é preciso acertar as contas.

E foi quando Kirri se manifestou. A chuva ao nosso redor desapareceu de repente e houve uma sensação diferente no ar. Nós dois notamos e eu finalmente soltei os pulsos dela — minha mão queimada estava em agonia, uma dor aguda, quente e suave — e olhamos ao redor para ver o que tinha acontecido.

Bem, você viu como o lugar está agora, mas imagine como foi ver isso acontecer. Todo o interior da sala estava vivo com trepadeiras. Elas subiam pelas paredes como a água desce — rápidas e fluidas, flores vermelhas maciças se abrindo como sinos, preenchendo os buracos enormes no teto. Tecendo-se juntas, padrões fantasiosos, nós, arabescos. E lá estava Kirri flutuando a uma polegada no ar acima do balcão, quase sem se mexer, apenas flutuando ali serenamente enquanto a sala se enchia de vida. Já tive todos os tipos de grandes mentes vindo aqui, tentando entender isso. Aparentemente, essas trepadeiras não se parecem com nenhuma espécie vista em lugar nenhum, em nenhum plano, ou em nenhum plano de onde as pessoas tenham voltado. Kirri simplesmente as inventou. Elas tornam o ar tão úmido, mesmo com o deserto lá fora, que as pessoas param na porta e o inalam como se fosse uma bebida gelada.

As trepadeiras finalmente pararam de se mover e Kirri caiu de volta na superfície do balcão, sentou-se nela e ficou imóvel como um cacto novamente.

Elnor não fez muita coisa. Ela apenas se levantou, sacudiu os braços, olhou para cima e ao redor. Finalmente, ela disse: "De onde ele veio?"

"Ele esteve aqui o tempo todo."

Ela meio que bufou. "Bem. Vamos encerrar por aqui. Porque você não está errado."

"Não."

"Eu ainda odeio que você tenha gasto nosso dinheiro neste lugar. Parabéns. Você transformou algo em nada."

"Todos nós transformamos muito de algo em nada, lá em Nova Capenna. O amor era real, no entanto."

"Tudo bem", disse ela e assobiou suavemente. A pequena serpente estava estendida sobre uma trepadeira próxima; deslizou até o chão — talvez um pouco relutante — ela a pegou e a colocou sobre os ombros. Ela saiu sem olhar para trás.

Episódio 2: A Fuga da Prisão

O vento sussurrava pela janela aberta, fazendo as cortinas ondularem no quarto de Annie. Ela observava as sombras se enroscarem pelas tábuas do assoalho, ouvia o zurro inquieto de um animal solitário no campo, e rolava de um lado para o outro em sua cama.

Nada disso era suficiente para manter a voz de Oko fora de sua cabeça.

Ele praticamente ameaçara sua cidade, simplesmente por encontrá-la. E se Akul algum dia viesse procurar …

Annie sentou-se abruptamente e passou os dedos por seu longo cabelo solto. As pessoas da cidade eram o que ela tinha de mais próximo de uma família. Se houvesse um alvo nela, haveria um alvo neles.

Talvez Oko estivesse blefando. Talvez ele tenha tido sorte ao encontrá-la aqui nos ermos. Talvez a história não estivesse condenada a se repetir.

Mas Annie simplesmente não podia arriscar.

Ela pegou suas roupas de montaria e botas de couro, trançou o cabelo e se vestiu o mais rápido que pôde. Seu casaco mal estava sobre os ombros quando ela abriu a porta dos fundos e marchou em direção ao campo, parando apenas para buscar uma pá em um dos galpões externos desgastados.

Ela contou cem passos a partir da cerca, direto pela grama amarela que parecia cinza na escuridão. Após dar seu último passo, ela olhou para a pequena lápide sem marca à sua frente. Ela cerrou a mandíbula e começou a cavar.

Por um tempo, ela não encontrou nada além de terra. Mas quando sua pá atingiu o chão com um baque, ela congelou.

Ainda estava lá, exatamente onde ela o enterrara todos aqueles meses atrás.

Annie cavou a terra ao redor até que o topo de uma caixa de madeira ficasse visível. Ela se ajoelhou, desafivelou as laterais e puxou a tampa para trás para revelar seu rifle de trovão.

A nostalgia a percorreu, tirando-lhe o fôlego.

Annie pegou a arma, passando os dedos pela estrutura metálica familiar, e pendurou a alça no ombro. Com dois dedos, ela assobiou pelos campos planos. O vento levaria o som para longe — mas era a magia que garantiria que ele chegasse ao seu amigo.

Arte de: Caroline Gariba

Fortune deslizou pelo ar, convocado pelo elo entre eles. Ele soltou um relincho jovial, os olhos escuros brilhando quando avistou o rifle de Annie.

"Eu sei", disse ela, dando tapinhas no pescoço dele. "Mas esta cidade nos deu mais do que jamais poderemos retribuir. Devemos a eles a sua segurança."

Fortune baixou a cabeça enquanto Annie subia na sela. Ela pegou as rédeas e estalou a língua no céu da boca, incentivando Fortune em direção ao deserto aberto.

Eles galoparam por quilômetros pelos ermos e além do cânion. Quando o sol se fragmentou no horizonte, Annie tirou o livreto de fósforos de Oko do bolso e olhou para as letras pretas mais uma vez.

O Saloon Curinga,

Rustwood

Ela nunca havia visitado a cidade antes, mas estava familiarizada com o nome. Era uma das muitas cidades de pecuária fracassadas que colapsaram da mesma forma que a maioria das comunidades periféricas — pouca gente e pouco dinheiro.

Rustwood apareceu ao longe, e Fortune diminuiu para um passo cauteloso. O sol subiu e o vento aumentou, espalhando poeira e arbustos secos pelo caminho desbotado.

A cidade parecia abandonada. Por um momento, ela se perguntou se tudo aquilo teria sido algum plano elaborado para atraí-la para longe de sua casa.

O pânico se instalou. Annie estava começando a puxar as rédeas quando uma série de passos apressados a fez parar. Franzindo a testa, ela pegou seu rifle, desmontou de Fortune, subiu os degraus do saloon e abriu as portas.

Um grito veio de trás do bar. Annie virou seu rifle em direção ao som, avistando uma pequena criatura esquelética, seus ossos balançando em direções estranhas e sua mandíbula retorcida com uma alegria selvagem. Alguns passos atrás dele estava um goblin azul peludo, com o peito estufado e os olhos cheios de fúria.

"PARE!" o goblin gritou, mas seu aviso apenas fez o esqueleto tremer de empolgação.

A pequena criatura disparou para longe do alcance do goblin, tagarelando em uma língua que Annie não entendia. Quando o esqueleto avistou Annie, ele inclinou a cabeça e correu direto para o vão entre os pés dela. Annie perdeu o equilíbrio e tropeçou para o lado, atingindo o chão com força. Seu dedo permaneceu próximo ao gatilho, o cano apontado entre os dois estranhos.

Um ser alado com longas penas brotando de seus braços apareceu e segurou o colarinho do goblin com o punho, puxando-o de volta. Próximo dali, o esqueleto girava a cabeça no lugar, provocando.

"Já chega, Breeches", instou o homem alado, pressionando a outra mão contra o peito do goblin. "Você sabe que ele só está fazendo isso para te irritar."

"PEQUENO LADRÃO!" o goblin rugiu.

O esqueleto ergueu um colar de ouro e imediatamente o enfiou na cavidade de seu peito. O goblin — Breeches — gritou uma variedade de insultos de uma única palavra, e o esqueleto saltitou alegremente para a sala seguinte.

"Aceita uma bebida?" a voz de Oko soou de trás do bar. Quando Annie se virou para olhá-lo, seus olhos estavam franzidos com travessura.

Annie baixou seu rifle de trovão e pendurou a arma de volta no ombro. "Você sabe muito bem que esta não é uma visita social", disse ela, limpando as mãos no casaco. Ela apontou o queixo para os estranhos que ainda discutiam no meio do saloon. "Amigos seus?"

Oko inclinou-se sobre o balcão como se estivesse compartilhando um segredo. "Eles fazem parte da equipe que eu estava te contando. Breeches — o goblin — é especialista em explosivos, e Malcolm é um sireia que faz vigilância. O pequeno nós chamamos de Ossinhos."

Annie's expressão endureceu. "Você ameaçou as casas deles da mesma forma que ameaçou a minha, ou eles estão aqui apenas para se divertir?"

"O que eu disse no rancho foi uma observação, não uma ameaça. Ainda assim — eu sabia que você viria."

"Eu acho que você pensa que sabe mais do que realmente sabe."

"I sei o que Akul fez com o seu sobrinho." O brilho em seus olhos era impossível de ignorar. "Apenas um certo tipo de pessoa poderia perdoar algo assim."

"Não estou aqui por retribuição", respondeu ela, ríspida.

Oko deu de ombros, claramente desinteressado em investigar mais. "Venha — vou apresentá-la ao resto da tripulação."

Annie seguiu Oko por uma das portas dos fundos, onde um mezanino no segundo andar dava para um grande salão. Mesas de cartas vazias estavam espalhadas pelo espaço, junto com um velho piano ao qual faltavam mais do que algumas teclas.

Ossinhos equilibrava-se na borda do corrimão, mexendo na corrente de ouro que balançava através de sua caixa torácica. No momento em que Breeches apareceu na sala abaixo, ele subiu nas vigas e encontrou um assento na viga exposta mais alta.

"ESPREITANDO E ROUBANDO E SE ESCONDENDO!" Breeches gritou para o teto.

Ossinhos balançou as pernas e chocalhou com deleite.

Um homem e uma mulher estavam sentados em lados opostos de uma mesa, seus olhos de um tom idêntico de cinza pálido, com o primeiro usando um tapa-olho de couro e vidro no lado esquerdo do rosto. Sentada em um banco de piano estava uma mulher com impressionantes cabelos brancos e uma elegância que era em partes iguais bela e aterrorizante. E empoleirada em um dos bancos de bar desparelhados estava uma górgona coberta de escamas verdes, com uma confusão de longas gavinhas semelhantes a serpentes no lugar do cabelo.

Oko apontou para a mesa primeiro. "Esses são Gisa e Geralf, os irmãos necromantes. Geralf é o nosso médico, e Gisa é … bem, digamos que é melhor deixar a cura para o irmão dela. Ao piano está Eriette, uma bruxa especialista em encantos. E Vraska — uma assassina de Ravnica — é minha segunda no comando." Ele mudou sua atenção para toda a sala. "Pessoal, esta é Annie Flash. Ela pode ver através de qualquer ilusão e é uma das melhores atiradoras de elite de Encruzilhada do Trovão."

Uma coleção de murmúrios e grunhidos soou em ondas. Annie não se deu ao trabalho com as cortesias habituais. Algo lhe dizia que esse não era o tipo de grupo que as apreciaria.

Oko empertigou-se, a voz subitamente séria. "Vou dar a você a mesma oportunidade que dei a todos os outros aqui: a chance de ir embora. Porque uma vez que eu explicar o plano, você estará dentro até que esteja concluído."

"Parece que você está me pedindo para jogar um jogo sem saber as regras", observou Annie.

O sorriso de Oko era inabalável. "É mais um gesto simbólico. Nós dois sabemos que você decidiu se juntar à equipe antes mesmo de passar por aquelas portas."

Annie cerrou os lábios em uma linha firme. Ele não estava errado. Ela ergueu uma mão. "Estou dentro — mas apenas para deter Akul. Qualquer coisa além disso não tem nada a ver comigo ou minha cidade, ouviu?"

Oko radiou. "Aceito suas condições. Agora, gostaria de ouvir qual é o trabalho?"

Annie fez uma careta, esperando.

"Vamos roubar Maag Taranau", disse ele finalmente.

Annie piscou. Ah, ela já tinha ouvido falar, com certeza — a única estrutura em Encruzilhada do Trovão que supostamente antecedia os Caminhos das Árvores. "Você me arrastou até aqui por um conto de fadas?"

O cabelo de gavinhas de Vraska se ergueu em resposta. Eriette franziu os lábios.

"Muitas pessoas passaram pelo Porto das Árvores em busca do cofre, apenas para voltarem de mãos vazias." Annie balançou a cabeça. "Não passa de um mito."

"Garanto a você, Maag Taranau é muito real", ecoou uma voz vinda de cima.

Annie olhou para cima alarmada. Alguém os observava do mezanino. Alguém que não parecia inteiramente humano.

Sua cabeça era emoldurada por dois chifres que se curvavam para dentro, mas enquanto a metade inferior de seu rosto era visível, tudo acima de sua boca era feito de fumaça e sombra. Eles flutuaram da varanda como um fantasma, ondulando escuridão atrás de si, e pousaram suavemente ao lado de Oko.

"Este é Ashiok", disse Oko. "Eles lidam com pesadelos e podem extrair informações da mente de uma pessoa. Eles nos contrataram para invadir o cofre."

Annie tentou lutar contra o frio no peito, mas as sombras ao redor de Ashiok a faziam querer se encolher. "O que nada disso tem a ver com Akul?", pressionou ela.

Ashiok foi estoico. "Akul e as Esporas Infernais construíram uma cidade inteira ao redor do cofre na esperança de controlá-lo. Eles a chamam de Tarnation."

Annie franziu a testa. "Se Akul já sabe onde o cofre está, então por que ele não pegou o que quer que esteja lá dentro?"

"Porque ele não tem a chave, apesar de seus melhores esforços", disse Oko simplesmente. "Um homem chamado Bertram Graywater só recentemente entrou em posse dela."

"Graywater?" Annie repetiu. "O fundador da Companhia Sterling?"

"O próprio", respondeu Oko. "De acordo com nossas informações, ele fez Akul perseguir um mensageiro chamariz por metade do deserto apenas para garantir que a chave não caísse nas mãos de um concorrente. Felizmente para nós, ele não faz ideia de que nós também estamos atrás dela."

A memória do acidente da carruagem se encaixou na cabeça de Annie. Então era isso que Akul estava procurando.

"O cofre …" a voz de Annie sumiu, e ela encontrou o olhar de Oko. "O que tem lá dentro?"

"PODER BRUTO!" Breeches gritou, fazendo alguns dos outros pularem.

"O que está dentro de Maag Taranau não diz respeito à equipe", rebateu Ashiok. "Eles estão agindo em meu nome para invadir o cofre e serão bem pagos por isso, assim como você. O tesouro é apenas meu."

Annie não tinha certeza se poder mágico bruto era algo que uma única pessoa deveria ter — se é que isso era verdade — mas contanto que Akul não colocasse as mãos nele, ela supunha que não era da sua conta questionar a logística.

Annie cruzou os braços sobre o peito. "Por onde começamos?"

"Nossa primeira parada é a sede da Companhia Sterling", disse Oko. "Alguns membros da nossa equipe estão sendo mantidos na prisão após um incidente não relacionado — mas também acontece de ser onde a chave está."

O chão tremeu, e as paredes rangeram e gemeram, fazendo poeira cair das vigas do teto. Annie agarrou o pilar mais próximo para se equilibrar, franzindo a testa diante da falta de preocupação do resto do grupo.

A porta dos fundos se abriu, e o rosto gigante de um demônio com quatro chifres e pele vermelha coriácea espiou para dentro. Ele abriu a boca em um rosnado, exibindo duas fileiras de dentes afiados como navalhas.

"Senhor Rakdos!" exclamou Oko. "Peço desculpas por começar a reunião sem você. Mas, em nossa defesa, não é como se você coubesse em qualquer uma das portas."

Rakdos rosnou, e um par de asas de morcego se agitou em suas costas.

Um demônio, necromantes, assassinos e ladrões … Annie tinha a nítida sensação de que estava se metendo em algo maior do que podia lidar. Mas no momento em que desenterrou seu rifle de trovão, ela soube o que aconteceria. Ela faria o que fosse preciso para deter Akul — mesmo que isso significasse se aliar a um grupo como este.

Annie fizera sua escolha, e não havia como voltar atrás.

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A sede da Companhia Sterling ficava na borda da movimentada metrópole de Prosperidade. Grandes rochas cinzentas imitavam arranha-céus imponentes, e trens ornamentados moviam-se pelo coração da cidade, conectando Prosperidade a estações por toda Encruzilhada do Trovão. Duas longas estradas corriam ao lado dos trilhos elevados, pavimentadas com pedras brancas limpas e patrulhadas por quase uma dúzia de guardas.

Oko passeava pelo caminho, acenando educadamente para os poucos guardas que se davam ao trabalho de olhar para ele. A maioria não olhava — ele se transformara no rosto mais comum e esquecível que conseguira criar, por mais que isso o doesse.

Ele puxou o colarinho de seu uniforme de mensageiro, ajustando o peso da caixa debaixo do braço. O chocalho de ossos soou de dentro.

"Pare de se mexer", repreendeu Oko em voz baixa. "Estamos quase nas portas."

Oko observou a crista da colina à distância, onde Breeches, Malcolm, Vraska e Rakdos esperavam por seu sinal. Ele esperava não precisar dele. Se tudo corresse bem, Oko estaria dentro e fora antes que Bertram Graywater percebesse que fora roubado.

Uma cerca de metal cercava a sede, brilhando com energia azul brilhante. Oko aproximou-se de um dos pequenos anexos onde um guarda estava posto e ergueu a caixa.

"Você tem um passe de mensageiro?" perguntou o guarda do outro lado de uma janela de vidro.

Oko tirou um cartão de identificação roubado do bolso, cortesia dos dedos ágeis de Ossinhos e de uma noite em um dos muitos saloons de Prosperidade.

O guarda o estudou brevemente antes de apertar um botão. O portão deslizou, e a energia azul diminuiu ligeiramente. Oko seguiu em direção aos largos degraus de concreto e tamborilou os dedos contra o pacote.

No momento em que cruzou o limite, Oko examinou a sala. Enormes pilares brancos sustentavam o teto de vidro assustadoramente alto. O balcão da recepção era feito de mármore branco sólido e cercado por grandes vasos de cactos bem cuidados. Havia várias escadarias levando a vários níveis do edifício — algo que seria útil para se esconder, mas menos útil para uma fuga rápida.

Oko aproximou-se do homem no balcão. "Tenho uma entrega para Bertram Graywater. Disseram-me que era urgente."

"Sempre são", suspirou o homem, acenando com a mão para a caixa. "Eu a levarei para o escritório dele. Você não precisa ficar por aqui."

Oko deu um passo para trás, observando o homem se dirigir às escadas. Quando teve certeza de que ninguém estava olhando, ele deu a volta em um dos grandes pilares e se transformou em um dos guardas que passara na estrada.

Admirando os reluzentes botões prateados em seu uniforme, Oko endireitou os punhos e seguiu o homem que carregava a caixa, certificando-se de manter uma distância segura atrás dele.

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Annie e Eriette seguiram para os fundos da sede da Companhia Sterling, onde uma fileira de aberturas de ventilação levava aos níveis inferiores do edifício.

Encaixada entre as colunas de um portal e escondida da vista, Eriette tirou um frasco de sua bolsa e o estudou com desagrado. "Breeches me garantiu que isso não explodiria", disse ela, despejando o líquido cintilante sobre a grade. Ele chiou em resposta, cuspindo e sibilando enquanto o metal se dissolvia. A leve ruga entre suas sobrancelhas desapareceu. "Parece que a criatura peluda realmente consegue preparar uma poção."

"Você parece surpresa", observou Annie.

"Não tenho o hábito de confiar em piratas", disse Eriette secamente. "Mas, por enquanto, parece que estamos todos alinhados."

Elas desceram pelo túnel estreito, seguindo uma escadaria mal iluminada até chegarem a um corredor. Duas sentinelas da prisão patrulhavam o corredor, as botas batendo pesadamente no chão de pedra úmida.

Eriette deu um passo à frente e sussurrou um feitiço, e uma estranha euforia pareceu lavar os guardas. Eles balançaram no lugar, os olhos vítreos e as bocas curvadas em um par de sorrisos idênticos de apaixonados.

"Parece que errei o caminho algumas vezes", declarou Eriette inocentemente. "Talvez vocês pudessem me ajudar?"

Os guardas começaram a falar uns sobre os outros, embalados por seu encanto, cada um tentando ser o único salvador de Eriette. Annie aproveitou a oportunidade para passar apressada por eles, atravessando o portal de ferro e descendo outro lance largo de escadas.

O familiar calor do deserto não era encontrado em nenhum lugar tão abaixo da superfície. Annie estremeceu com o ar frio e parado, e lançou seu olho dourado sobre cada cela da prisão. A Companhia Sterling usava ilusões como medida de segurança, fazendo as celas parecerem vazias. Era uma das razões pelas quais Oko precisava da ajuda de Annie.

Levou apenas segundos para encontrá-los. Kaervek estava de um lado da sala; Satoru Umezawa estava do outro.

Do canto de sua cela, Umezawa olhou para cima. Uma mecha de cabelo preto caiu de seu coque desgrenhado, e ele a afastou. "Você não parece uma guarda, mas ainda consegue nos ver", observou ele, com a suspeita borbulhando em seu tom. "Poderia explicar por que isso acontece?"

"Oko me enviou", explicou Annie. "Ele me disse para lembrá-los sobre o acordo extraplanar que vocês fizeram e que ainda têm um trabalho a fazer."

Kaervek estufou o peito revestido de couro e apontou um dedo para o outro lado da sala. "Não quebrei nenhuma promessa. É culpa deste cretino que fomos subjugados de maneira tão humilhante!"

Umezawa agarrou as grades, os nós dos dedos ficando brancos. "Estamos aqui por causa da sua incompetência!"

"Você se diz um líder de ladrões, capaz de abrir qualquer fechadura", rosnou Kaervek. "Se você é realmente tão astuto quanto afirma ser, então por que ainda estamos confinados nestas jaulas de ferro?"

"Eu poderia lhe perguntar o mesmo. Você fala muito sobre ser um poderoso conquistador, mas me parece que tudo o que você sabe fazer é ser capturado", rebateu Umezawa. "Com todo o tempo que você passou em prisões, pensaria-se que você seria um especialista em fugas a esta altura!"

Eriette apareceu ao pé da escada com uma chave de prata balançando em seu dedo. "Achei que pudessem precisar disto. Os guardas foram muito prestatovos." Seu olhar percorreu as celas aparentemente vazias. "Você os encontrou?"

Annie apontou para as respectivas jaulas. "Você não mencionou que eles eram tão amigos."

Eriette apertou a chave contra o peito e riu. "Ah, eles se detestam. É uma história bastante divertida, agora que parei para pensar." Ela suspirou e moveu-se para a fechadura da cela de Kaervek. "Outra hora, talvez."

A chave girou no lugar, e Kaervek emergiu da ilusão, as mãos atadas em restrições brilhantes.

Eriette estalou a língua. "Ah, pobrezinho, ter sua magia subjugada dessa maneira."

"Poupe-me de sua falsa piedade, bruxa", disse Kaervek.

Os olhos de Eriette brilharam maliciosamente. Ela soltou as algemas e as jogou no chão, antes de libertar Umezawa de sua cela também.

"Obrigado", disse Umezawa com um aceno curto.

"Que bons modos, e que rosto bonito", ronronou Eriette.

Annie não podia ter certeza, mas achou que as bochechas de Umezawa ficaram de um tom de rosa quase imperceptível.

Kaervek rolou uma chama laranja brilhante em sua palma, os olhos começando a brilhar. "Estou pronto para me libertar desta masmorra. Que caos desencadearemos sobre nossos captores enquanto transformamos seu castelo em um ermo de cinzas e ossos?"

"Não há tempo para nada disso, temo", disse Eriette. "Sairemos pelo mesmo caminho que entramos, sem chamar atenção desnecessária. Exceto por Umezawa." Os cantos de sua boca tremeram. "Acredito que Oko precise da sua assistência. Ele está em algum lugar no prédio, embora eu não tenha certeza exata de onde ."

As tatuagens perto do pescoço de Umezawa começaram a se mover por sua pele. "Eu o encontrarei", disse ele e seguiu para as sombras sem dizer mais nada.

Annie deu uma última olhada na prisão e seguiu Eriette e Kaervek de volta pelo túnel. Ocorreu-lhe que a única coisa que impedia a tripulação de Oko de se despedaçar era um objetivo comum.

Ela detestava pensar no que eles fariam uns aos outros como inimigos — e, com sorte, ela nunca teria que descobrir.

Arte de: Cristi Balanescu

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Oko esperou perto de um nicho, observando o homem que carregava a caixa seguir adiante pelo corredor. Ele parou em uma das portas, tirou uma chave do bolso e entrou. Alguns momentos depois, reemergiu de mãos vazias.

Quando o som dos passos sumiu, Oko correu para a porta do escritório e olhou pela janela redonda de vidro. A caixa estava apoiada na mesa de Graywater, cercada por uma bagunça organizada de papelada e arquivos.

Com um nó do dedo, Oko bateu um padrão lento no vidro. Houve um ruído dentro da caixa, e o papelão se moveu no lugar, inclinando-se de um lado para o outro. Ossinhos saltou da tampa, parcialmente desmontado. Seus ossos voltaram ao lugar um por um, e ele ajeitou um chapéu gasto sobre o crânio. Com um rápido sacudir de teste em seus braços, ele saltou da mesa e destrancou a porta.

Oko observou-o com leve fascinação. "Existem poucas coisas na vida que me impressionam — mas você é realmente algo especial."

Ossinhos bateu os dentes em resposta.

Oko passou os dedos por várias superfícies, procurando por espaços escondidos e armários trancados enquanto Ossinhos vasculhava a mesa. Eles não ouviram ninguém entrar na sala. Não até que a pessoa falou.

"Eu reconheço o esqueleto. Mas eu conheço você?"

Oko virou-se rapidamente. A cabeça de Ossinhos girou no lugar.

Umezawa estava parado na frente de ambos, silencioso como um espectro.

A boca de Oko curvou-se em um sorriso, e ele deixou suas orelhas pontudas aparecerem através de sua ilusão. "Alguém realmente conhece?"

Umezawa mal se moveu. "Você claramente não teve muitos problemas para invadir a sede. Poderia ter libertado a mim e ao bruxo dias atrás, se quisesse."

"O momento não era o certo", respondeu Oko tranquilamente e acenou com a mão pela sala. "Tudo isso são águas passadas agora, de qualquer forma. Precisamos encontrar a chave. Duvido que Graywater a deixaria ao ar livre, mas —"

"O retrato", interrompeu Umezawa. Ele apontou para a parede atrás da mesa, claramente não impressionado com a falta de originalidade de Graywater. "É sempre o retrato."

Oko estudou a moldura pensativamente antes de lhe dar um puxão. Ela saiu da parede com facilidade, revelando um cofre escondido. Ele deu espaço para Umezawa e retirou um pequeno dispositivo do bolso. "Tomei a liberdade de mexer nas suas coisas. Achei que pudesse precisar disto."

A mandíbula de Umezawa ficou tensa, e ele arrancou o objeto da mão de Oko. "Sempre dois passos à frente", resmungou, com as palavras pingando indignação.

Em sua palma aberta, o dispositivo contorceu-se na forma de uma aranha, com as pernas esticadas para fora. Ele saltou, prendendo-se ao mostrador do cofre, antes que uma série de números piscasse na tela do painel. O dispositivo girou, e as pernas de metal estalaram delicadamente no lugar cada vez que a fechadura se movia por dentro. Após vários momentos, houve um baque alto, e a porta se abriu.

Havia um pequeno saco de juta apoiado contra vários livros grossos.

Um sorriso se abriu no rosto de Oko. Ele estendeu a mão para dentro e puxou um pequeno artefato que parecia de outro mundo. Enquanto a maior parte do metal parecia escurecida pelo tempo, algumas partes dele brilhavam em tons fluorescentes.

A sexta chave.

Oko enfiou o artefato no bolso interno da camisa e pegou a caixa vazia da mesa, abaixando-a em direção ao chão. Ossinhos pulou para dentro, seus ossos dando um solavanco antes de se desmontarem em uma pilha.

"Vem com a gente?" perguntou Oko a Umezawa. "Posso disfarçá-lo como um guarda, se quiser."

"Eu não confiaria sua magia de trapaceiro em mim mais do que confio em você", respondeu Umezawa tranquilamente. "Encontrarei vocês dois lá fora." Ele desapareceu no corredor.

Erguendo os ombros em triunfo, Oko seguiu de volta para fora do edifício, cuidadoso para não atrair atenção. Ele se transformou de volta em um mensageiro logo antes da última esquina e, quando chegou ao portão, o guarda o abriu sem questionar.

No meio do caminho, Oko cruzou com um pequeno grupo que se dirigia à sede da Companhia Sterling. O homem no centro tinha cabelos pretos com grossas mechas prateadas nas laterais. Ele estava flanqueado por dois guarda-costas.

Eles nunca haviam se encontrado antes, mas Oko reconheceu o rosto do homem. Ele era bem conhecido em Encruzilhada do Trovão. Um Planeswalker — assim como Oko.

Ral Zarek.

Exceto que não foi Ral quem fez Oko parar, nem foi o guarda armado e corpulento que parecia faminto por uma briga.

Foi o garoto com cabelos pretos bagunçados e orelhas pontudas.

A magia feérica que corria em suas veias … Era fácil de sentir. A julgar pelo olhar no rosto do garoto, ele também reconhecera a magia de Oko.

Oko enrijeceu, e sua ilusão desapareceu sem aviso, incapaz de se manter na presença de um feérico que ele não esperava. Em um instante, ele era Oko novamente, sem máscara e sem disfarce.

"Quem —?" Ral começou alarmado quando seus olhos caíram para a caixa nos braços de Oko.

Ossinhos colocou a cabeça para fora. O guarda-costas de Ral avançou, mas Oko foi rápido. Ele se esquivou, ágil e preciso, e desferiu um golpe direto na garganta do guarda, forçando-o a cair de joelhos. Ossinhos removeu seu fêmur e pulou da caixa, batendo o osso com força contra a têmpora de Ral, que segurou a cabeça, atordoado.

O garoto feérico congelou, e Oko não esperou para descobrir o porquê. Ele se transformou em uma grande águia, estendendo as asas enquanto Ossinhos subia pelas costas de Oko e agarrava suas penas para salvar a vida. Oko decolou em direção às colinas assim que os guardas da Companhia Sterling começaram a reagir.

"Siga-o!" a voz de Ral ecoou pela encosta.

Trovões explodiram no céu, e Oko fez várias curvas fechadas para evitar ser atingido. O chapéu de Ossinhos caiu no chão, e ele soltou um chocalho irritado enquanto agarrava o pescoço de Oko. A crista da colina estava próxima, mas havia pouca cobertura além das rochas imponentes, e todos os guardas Sterling estavam armados. Se Oko se movesse para o campo aberto, estaria em desvantagem.

Ele mergulhou baixo e imediatamente se transformou de volta em sua forma verdadeira a centímetros do chão. Ossinhos saltou de seu ombro, estremecendo com o voo não planejado. A dupla se escondeu atrás de uma das rochas altas e se preparou para uma luta. Tudo o que Oko tinha que fazer era segurá-los até que o resto da equipe chegasse.

O garoto feérico apareceu no céu, poeira dourada rastejando a seus pés. Ele pousou a alguns metros de distância, os olhos selvagens de urgência. Oko avançou, mas o garoto apenas ergueu as mãos, implorando.

Apesar de seus instintos, Oko hesitou.

"Eu — eu não quero lutar com você!" gaguejou o garoto.

"Disposição estranha para um guarda-costas."

O garoto baixou os braços. "Eu estive procurando por você. Não apenas neste plano, mas em outros também."

"Ah?" Oko ergueu uma sobrancelha. "E por que isso?"

"Eu tenho quase certeza — bem, veja bem — o negócio é o seguinte …"

"Estou com um pouco de pressa", disparou Oko.

As mãos do garoto tremiam ao lado do corpo. "Eu acho que você é meu pai."

Oko encarou, sem saber se o ouvira corretamente.

"Minha mãe é Alyse", disse o garoto. "Meu nome é Kellan."

Oko ouvira tantas mentiras quanto contara em sua vida — o suficiente para saber que o garoto estava dizendo a verdade. Ele se lembrava bem de Alyse. E Kellan …

Um tropel de passos aproximou-se. Quando Oko se virou para o garoto, era tarde demais. Sua hesitação lhe custara caro; Oko estava cercado.

A Companhia Sterling ergueu suas armas, prontas para disparar.

Oko olhou para Ossinhos, que estava firmemente apoiado em seu ombro. "Eu nunca pensei em perguntar — mas, como um esqueleto, quão indestrutível você é , precisamente?"

Ossinhos deu de ombros despreocupadamente enquanto Oko cerrava os punhos.

Uma confusão de gavinhas douradas em forma de vinhas apareceu, lançando a maioria dos guardas de volta morro abaixo em um aglomerado de poeira e magia. O resto foi pego um por um, enredado pelas vinhas douradas, e jogado de lado. A confusão girou na mente de Oko até que ele percebeu que a magia vinha de Kellan.

Ral atravessou a nuvem de poeira deixada para trás, estudando Kellan com uma mistura de choque e decepção. "Pode me explicar o que está fazendo, garoto?"

"Sinto muito", disse Kellan, com o rosto se contorcendo. "Eu — eu não planejei nada disso!"

Eletricidade azul girava em torno dos dedos de Ral, e o céu parecia escurecer acima dele. Por trás de seus olhos havia uma tempestade em formação. Ele ergueu as mãos, os dedos soltando faíscas de magia, quando a eletricidade subitamente falhou.

Ral abriu a boca e piscou. "Vraska? "

Oko olhou por cima do ombro e encontrou sua tripulação à espera. Vraska deu um passo à frente, as feições estreitas contraídas. As cicatrizes profundas estendidas por sua pele pareciam mais proeminentes sob a luz do sol.

"Eu sei", disse ela, lenta e intencional, como os piores tipos de veneno. "Você achou que eu estava morta."

Rakdos chocou-se contra a terra ao lado de Ral, as asas abertas e o sol do deserto brilhando atrás dele. O reconhecimento espalhou-se pelo rosto de Ral, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Rakdos desferiu um soco do tamanho de uma rocha no mago relâmpago e o enviou deslizando pela poeira.

Arte de: Victor Maury

Ossinhos aproveitou a oportunidade para vasculhar o relógio de bolso de um guarda, erguendo-o contra a luz em triunfo. Seu risinho satisfeito fez todos os seus ossos chocalharem.

"O LADRÃO-BOBO TOMA RECOMPENSA PELO SEU CHAPÉU!" observou Rakdos em uma voz estrondosa — mas surpreendentemente musical.

Ossinhos bateu os pés em gratidão e acomodou-se na curva do pescoço de Rakdos.

Malcolm cruzou os braços alados. "Devemos ir embora antes que enviem reforços. Não levará muito tempo para Graywater perceber o que você pegou."

"Concordo", disse Oko e observou Kellan por um momento. Ele se parecia tanto com a mãe, com seu cabelo escuro e olhos castanhos. Os de Alyse eram da mesma cor, uma mistura de musgo e mel. Eles lembravam Oko de sua floresta favorita e dos dias que passaram caminhando pelo bosque e conversando sobre suas infâncias. Tinha-o surpreendido naquela época — que ele pudesse ouvir os segredos de uma pessoa e não querer transformá-los em armas. Surpreendeu-o ainda mais que ela tivesse sentido o mesmo.

Oko afastou o pensamento e estampou um sorriso. "Parece que você vem com a gente", disse ele para Kellan, que começava a parecer doente.

"Tem certeza de que isso é uma boa ideia?" interveio Vraska, os olhos brilhando em um tom venenoso de amarelo. "Não sabemos nada sobre ele."

"Deixá-lo para responder à Companhia Sterling seria um risco." Oko curvou a boca em outro sorriso fácil. "Além disso, você não ouviu? Ele é meu filho."

O resto da equipe trocou olhares inquietos, mas sabia que era melhor não discutir.

"AVANTE!" grasnou Breeches.

A equipe recuou sobre a crista e sumiu de vista. Oko sentiu Kellan atrás dele, claramente não querendo perder Oko de vista, mas também não querendo chegar muito perto.

Oko nunca se imaginara como pai — mas o garoto acabara de ajudá-lo a escapar e se voltara contra o próprio chefe para fazê-lo. Kellan demonstrara lealdade sem ser coagido ou enganado. Ele a dera livremente .

No meio da jornada de volta ao saloon, Oko decidiu que ter um filho poderia acabar sendo muito útil, de fato.

O Sangue é Mais Espesso que o Veneno

Está escuro, o quarto com vista para Saddlebrush iluminado pela luz de velas e pelo brilho da lua, quando Annie Flash deixa a cama de um estranho. Tudo sobre o momento paira no meio-termo, onde a familiaridade não pode mais ser fingida. Parece apropriado para um momento como este estar abarrotado de sombras. Enquanto ela se veste novamente, outro se senta na cama.

"Você não precisa correr daqui."

Não precisa é um sentimento separado de não deveria. E embora Annie suponha que ela não tenha que sair, ela deveria, e ela está saindo.

"Desculpe, Jordan. Eu tenho minha própria cama para manter aquecida." A franja em suas botas, adornada com contas de osso e turquesa, chacoalha quando ela as calça.

A sombra inclina a cabeça. "Jody. Meu nome é Jody."

"Ah, certo. Desculpe."

Annie não sente muito, da mesma forma que não esqueceu o nome de Jody ou qualquer detalhe da triste história de fundo que ele havia esculpido para ela. Jody Carpenter, que deixara sua antiga vida para trás um ano antes, quando a única mulher que ele amara morreu lenta e dolorosamente em sua cama.

Annie se levanta, jogando sua trança sobre o ombro.

"Tudo bem." A sombra se inclina mais para perto. "Eu só estou dizendo — sua cama provavelmente sobreviveria sem você por uma noite."

Nem Jody nem sua sombra veem Annie estremecer, boa demais em manter a calma para revelar seu jogo. Mas a frase do convite dele faz seu estômago roncar. Ela precisa chegar em casa, e rápido.

"Espero que você não tenha tido a ideia errada," Annie lamenta. Ela se estica até a mesa de cabeceira para pegar seu detonador de trovão — uma coisinha insignificante comparada ao que ela costumava carregar, mas uma arma, no entanto. "Não estou procurando nada além do que já tenho."

Enfiando o detonador em seu coldre na coxa, ela olha para o rosto de Jody. Ele é bonito, com cachos prateados e olhos verdes escuros, lábios cheios e barba por fazer — mas nunca houve um homem bonito o suficiente para prender sua atenção. De todas as mentiras que Annie poderia contar, essa é uma verdade.

Jody ergue uma sobrancelha e se recosta, apoiando-se em seus travesseiros e cruzando as mãos sobre seu estômago nu. "Eu também não."

Ela lhe dá uma olhada de cima a baixo diante da inesperada rejeição. "Ah?"

"Eu tive meu grande amor. Só estou passando o tempo." Ele dá de ombros. "Não quer dizer que você não possa dormir com a cabeça no meu peito. Ainda somos pessoas."

Jody tem a audácia de piscar quando acrescenta: "Mesmo que eu não queira ser seu namorado."

"Hmm." Ela considera a oferta. Ela sabe que não pode ficar, e por mais de um motivo. Como o fato de ser necessária em outro lugar. Ou como ela teria que perder o juízo para adormecer vulnerável a um estranho.

Ainda assim. Não é a pior coisa do mundo imaginar como as coisas poderiam ser diferentes se ela pudesse dizer sim. Se sua vida fosse o tipo de vida que lhe permitiria passar a noite com viúvos gentis e bonitos com mãos quentes e ásperas.

Ah, que se dane. Não adianta fantasiar. É o que é.

"A gente se vê por aí, Joey." Ela inclina o chapéu para ele antes de ir embora. Atrás dela, ela jura que a sombra dá uma risadinha.

Escada abaixo e lá fora, no coração da praça principal de Saddlebrush, a luz da lua é mais brilhante do que no quarto empoeirado de Jody. O brilho lança uma névoa sobre a cidade adormecida, vazia exceto pela própria Annie. Por um momento, ela finge que é a única pessoa no mundo, apenas ela e a escuridão e a lua e as sombras que as três projetam.

O momento passa. Annie percebe um movimento à distância, uma sombra rastejante rastejando por sua periferia. Sua cabeça gira na direção das dunas estendidas nos arredores da cidade, e seus olhos desiguais se estreitam para distinguir a forma mais claramente.

Mas não há nada. O que quer que Annie achasse que tinha visto, ou se foi ou nunca existiu. As dunas estão tão paradas e vazias quanto o resto deste lugar.

A inquietação a faz ranger os dentes. Ela considera usar seu dom, a visão de seu olho direito dourado, para revistar as dunas mais de perto.

Frustrada consigo mesma por sequer considerar isso, ela se vira e sai apressada na direção de casa. Não há nada lá fora. Sua paranoia está piorando, sempre achando que há algum bicho-papão espreitando na esquina.

Claro, em sua defesa, geralmente há. Pelo menos tem havido, até agora. E mesmo que Saddlebrush pareça abandonada, não há como saber quem está se escondendo nas janelas e portas escurecidas. Ela precisa chegar em casa.

Jody pode ser uma pessoa, mas Annie é uma arma. Ela não pode perder o corte.

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Casa é uma caminhada longa o suficiente para que as coxas de Annie estejam queimando bem na hora em que ela aparece à vista. Sua perna esquerda — sempre dando problema — dá uma fisgada particularmente pontual enquanto ela segue em direção à sua porta da frente. A fazenda nas terras ermas não tem sido o lar por muito tempo, mas é alguma coisa. Talvez algum dia ela chame este lugar de lar e fale sério.

"Ei, você," ela diz arrastado ao se aproximar do celeiro.

Toda a sua vida, Annie esteve perto de animais, aprendendo a domar uma criatura ou outra, mas nenhum deles jamais a deixou tão intrigada quanto Fortune. Ela não tem certeza de onde ele veio ou o que ele é, mas ela sabe que ele é dela e ela é dele. Construído como um garanhão de dezoito palmos, com uma pelagem vermelha como argila e chifres curvados para cima de seu crânio, Fortune tem olhos escuros como cânions gêmeos.

"Você está segurando as pontas?" ela pergunta, unhas curtas arranhando uma saudação em seu pescoço.

A pergunta é retórica, e não é. Annie não espera que Fortune cuide da fazenda enquanto ela estiver fora. E no entanto. Ele relincha, batendo o pé e inclinando a cabeça para olhar em seus olhos mais de perto.

"Não comece. Eu não fiquei fora tanto tempo assim."

Ele resfunga, sacudindo a cabeça até que a mão dela se afaste.

"Além disso, eu posso cuidar de mim mesma. Não tenha um ataque. Você está ficando mais paranoico do que eu."

Fortune inclina lentamente a cabeça para trás, como se estivesse ofendido. Justo.

"Tudo bem, tudo bem. Desculpe." Annie suspira e olha para a casa da fazenda. Embora ela não tome a decisão consciente de verificar, seus olhos vão direto para uma janela em particular. Ela não se surpreende ao ver que há uma luz amarela brilhando lá dentro. Apesar do adiantado da hora, uma sombra se move na sala além das cortinas. "Ele esteve acordado todo esse tempo?"

Fortune balança a cabeça.

"Tudo bem. Eu assumo daqui. Vá dormir um pouco." Ela dá um tapinha no lado dele. "Temos que ir para a cidade novamente amanhã, e não preciso que você fique vagando sob mim. Já é fácil o suficiente para você se perder quando está no seu melhor estado."

Ofendido novamente, Fortune se vira e sai trotando para longe dela. Annie ri e murmura: "Eu também te amo", antes de entrar.

Há um tipo de silêncio excessivo na casa que faz os pelos na nuca de Annie se arrepiarem, embora ela saiba que isso não significa nada. A casa é sempre assim silenciosa. Não é como as próprias terras ermas, onde mesmo na hora mais tardia há bichos correndo fora de vista, trinado e gritando uns para os outros. Não é como Saddlebrush depois de escurecer, também, onde ainda há vida atrás de cada porta, mesmo que seja roncando.

Não, não resta muita vida na casa de Annie. O lugar parece uma tumba quando a hora se arrasta tarde o suficiente. O pensamento a faz querer chorar, mas ela não se permite. Sem tempo para isso, de qualquer maneira.

No fim do corredor, seus dedos se apertam em volta da maçaneta de uma porta, preparando-se para o que há lá dentro. Uma respiração profunda para dentro. Soltando-a lentamente por entre os dentes.

Tommy está na cama quando ela entra em seu quarto, acordado e olhando pela janela. Ele não se incomoda em olhar para ela quando ela entra. Isso não é nada novo, no entanto. Seu sobrinho faz muito de não olhar para ela nos dias de hoje. Annie não pode dizer que o culpa.

Rosto encovado, pele parda dois tons mais pálida do que deveria ser, cabelo preto oleoso e ralo nas laterais, Tommy não é nada parecido com o que era quando se mudou pela primeira vez para morar com ela. Quando Annie o envolveu pela primeira vez em sua vida e em todos os problemas que vieram com ela...

Agora, uma camada de suor cobre cada centímetro dele que ela consegue ver. Mesmo assim, ele está tremendo o suficiente para bater os dentes, os nós dos dedos brancos enquanto ele aperta as laterais de sua cama. Ela se pergunta se ele está tentando se manter parado ou ficar quieto. Nenhum dos dois está funcionando. Enquanto ele treme, um gemido baixo emana de seu peito, um ruído atrás de sua caixa torácica que a faz querer gritar e arrancar o próprio cabelo.

"A dor está ruim esta noite?" ela pergunta, tirando o chapéu e colocando-o na cadeira ao lado da cama dele. A cadeira na qual ela dorme mais noites do que em seu próprio quarto. Tommy estremece, como se o som da voz dela piorasse a dor, e assente.

Recusando-se a notar a maneira silenciosa como ele contorce sua energia para longe dela, Annie segue até o armário de pé no canto. Lá dentro, há uma prateleira de bandagens, antisséptico, remédios de ervas e — o que ela procura — uma garrafa de fumaça azul rodopiante, o analgésico mais forte deste lado do Multiverso.

Eles estão reduzidos a um quarto da garrafa. Ela suspira e fecha a mão em volta do gargalo, levando-a para a beira da cama de Tommy. É por isso que ela irá para a cidade de manhã. Um quarto de garrafa ainda deve durar uma semana ou algo assim, mas Annie nunca corre o risco de chegar tão perto do fim sem uma reserva. Ela tinha ido à cidade naquela manhã pelo mesmo motivo, mas o alquimista estava com o estoque esgotado — disse que a nova remessa chegaria ao amanhecer. Então, Annie também chegará.

"Aqui." Ela segura a garrafa sob o nariz dele e a destampa, observando enquanto Tommy inala profundamente, arrastando a fumaça azul para seus pulmões. Uma vez que ele tenha respirado fundo, ela empurra a rolha de volta com firmeza, cuidadosa para não deixar escapar nenhum extra.

Ele estremece, talvez de alívio, talvez de nojo por sua proximidade com ele, e seus olhos se fecham.

Annie assume seu posto ao lado da cama dele. Ela fica lá a noite toda.

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Quando o sol nasce, lançando o mundo além de sua janela em uma névoa azul clara, Annie desiste do fingimento de dormir. Com a cabeça excessivamente cheia e latejante, ela dá a Tommy uma última olhada — ele finalmente está em sono profundo após crises intermitentes de dor a noite toda — antes de caminhar silenciosamente pelo corredor em direção ao seu próprio quarto.

Annie dormiu ainda menos do que seu sobrinho, mas ela não tem o luxo de desmaiar ao amanhecer. Assim que o pensamento cruza sua mente, ela silenciosamente se amaldiçoa. Quão insensível, pensar no sofrimento dele como um luxo. Ela culpa a privação de sono.

O ar em seu quarto está quente e abafado, e Annie abre uma fresta na janela para deixar a manhã entrar. Ela não sabe a última vez que esteve aqui por mais tempo do que o necessário para se vestir. Apesar de toda a novidade da casa da fazenda, de todas as maneiras como ela ainda não se estabeleceu como um lar, não há lugar que seja tão crudamente claro quanto o quarto de Annie. Poderia muito bem pertencer a um fantasma. Ela olha para a cama perfeitamente arrumada, intocada por dias a fio, antes de deslizar para seu armário para se trocar.

Depois de se trocar, Annie toma o cuidado de desfazer sua longa trança, pentear suas mechas e trançá-las novamente com cuidado. Em cada seção, ela tece um fio de couro com contas, pontos de azul e branco aparecendo em seu cabelo escuro como flores brotando do solo. Ela se observa no espelho, inclinando a cabeça para seu próprio reflexo, estudando as linhas marcadas pelo sol esculpidas nos cantos de seus olhos desiguais. Com um suspiro, Annie se vira e sai.

Assim que abre a porta da frente, ela para de repente. Ela teria rolado degraus abaixo se fosse um pouco menos observadora. Há uma cesta esperando em seu degrau que com toda a certeza não estava lá na noite anterior, um caixote de vime bronzeado despretensioso, como se alguém estivesse a caminho de um piquenique e tivesse se perdido em sua porta. Annie olha ao redor do campo frontal da propriedade como se pudesse realmente avistá-los, algum estranho vagando pelo seu quintal, procurando por sua cesta.

Claro, não há ninguém lá. E quando Annie levanta a tampa do caixote para verificar seu conteúdo, ela encontra exatamente o tipo de coisa que poderia esperar para um piquenique — um pão ainda quente, um pote de mel, outro de geleia de frutas, um pouco de carne curada. Se isso não foi abandonado por um piqueniqueiro perdido, deve ter sido deixado como um presente. Talvez Jody tenha passado por aqui para tentar conquistá-la com lanches. (De todas as propostas malfeitas que ela recebeu em seu tempo, essa ideia não é de todo ruim.)

Ela leva a cesta para dentro, deixando-a escondida logo na entrada, e tenta se convencer a se sentir bem com tudo isso. Mas ela não consegue se livrar do emaranhado de nós em que seu estômago se tornou. Não é o fato de Jody ter aparecido e deixado algo para ela que é um problema — é que Annie ficou acordada a noite toda e ainda assim não ouviu ninguém rastejando até a casa.

Isso é descuido puro. E descuido é uma coisa que Annie não pode se dar ao luxo.

Não de novo.

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Com duas garrafas novas de fumaça azul adquiridas, Annie segue para a praça principal de Saddlebrush, com os olhos postos no estábulo onde deixara Fortune. Passou-se muito mais de uma hora desde que ela se levantou pela primeira vez no dia, mas o resto do plano está apenas começando a despertar, cortinas se abrindo e cães latindo e crianças sendo jogadas para fora para brigar antes do café da manhã. Uma espessa camada de orvalho se agarra a tudo, e os raios de sol se prendem em gotículas como mil pequenos prismas projetando sombras tingidas de arco-íris. Um sorriso, destinado apenas a si mesma, puxa o canto da boca de Annie.

"Ora, eu nem sabia que você conseguia fazer isso," cantarola uma voz familiar, detendo-a.

Ela ergue uma sobrancelha grossa e escura e vira a cabeça para Jody. Ele está sorrindo ironicamente para ela, braços cruzados sobre o peito — não mais nu, mas escondido atrás de uma camisa preta de botões.

"Fazer o quê?"

"Sorrir."

Annie gostaria de esganá-lo. "Não interprete demais. É só que o dia está bonito lá fora. Não foi você quem colocou o sorriso no meu rosto, Joey."

Imperturbável, o sorriso irônico de Jody fica ainda mais astuto. "Você estava bem feliz ontem à noite."

"Ontem à noite foi bom até você começar a ficar pegajoso." Annie dá de ombros. "E então, a cesta de piquenique? Sério? Se você acha que eu sou o tipo de mulher que voltaria para sua cama por um belo pedaço de pão..."

A confusão no rosto de Jody faz as palavras de Annie murcharem. Ela franze a testa. Ele poderia estar fingindo ignorância, mas que bem isso lhe traria? Um cortejo não vai funcionar se ninguém souber quem está fazendo a corte.

"Você não deixou comida na minha porta esta manhã?"

"Annie, eu apreciei muito a sua companhia. Mas aprecio ainda mais o meu sono." Jody ri, algo tão afetuoso em sua expressão que a deixa suspeita. "E eu definitivamente não asso pão. Provavelmente é apenas outra pessoa na cidade. Você tem sido o assunto de muita fofoca de árvore-dos-sussurros, sabia."

O nariz de Annie se franze. "Com certeza não fui."

E ela não gosta nem um pouco. Que tipo de coisas eles devem estar dizendo? Que história eles distorceram sobre de onde ela vem e as coisas que ela fez?

"As pessoas por aqui estão preocupadas com vocês, lá fora sozinhos. Eu diria que alguém decidiu que precisava oferecer um ramo de oliveira — por assim dizer."

Ah.

Bem... isso com certeza é diferente do que ela estava esperando. Annie engole em seco. Pela segunda vez naquela manhã, seu estômago se enrola em um ninho emaranhado. Mas desta vez, não parece exatamente com nervosismo. É outra coisa. Algo que ela não sentia há muito tempo e não sabe como encarar de frente.

Não que ela tenha uma chance, de qualquer maneira. Antes que Annie possa responder às palavras de Jody, a praça principal explode em um coro de gritos.

Sua cabeça gira para trás, olhos procurando a direção do caos, já agarrando seu detonador e puxando-o do coldre. Os habitantes da cidade estão correndo em sua direção, pais arrancando bebês da rua, casais empurrando-se uns aos outros para apressar o outro.

Atrás deles, algo enorme se aproxima furtivamente.

"A coisa está cada vez mais perto há dias."

"Pobre Mira."

"Pobre Bo."

Annie sabe que a conversa não é dela. Mesmo assim, ela olha para o garoto — Bo — e pergunta: "Por que ninguém simplesmente matou a coisa?"

Os lábios de Bo se abrem. Ela o observa lutar para encontrar uma resposta.

Quando nada surge, alguém sugere: "Como faríamos isso? É… é enorme."

"Tudo morre." Annie passa o polegar pelo cabo de seu detonador.

Mira solta outro guincho de dor. Annie mal sabe o que está fazendo antes de já estar fazendo, enfiando a mão no bolso da jaqueta e tirando os frascos novos de fumaça azul. Ela o destampa, dando um passo à frente para pressioná-lo sob o nariz de Mira.

"Respire," ela instrui.

A garota obedece, tremendo o tempo todo. Mesmo enquanto Annie a observa, não é apenas ela que está vendo. Isso nunca teria acontecido se ela tivesse ouvido seu instinto e cuidado do problema na noite anterior.

Seus molares rangem. Fortune bate a cabeça em seu ombro, mas ela não encara os olhos dele.

Quando ela tampa e guarda o frasco, Annie diz: "Eu farei isso."

"O quê?"

"Eu vou matar a coisa."

Outro sussurro varre a praça, desta vez mais frenético.

Bo segura Mira com mais força. "Eu irei com você. Quero ajudar. Ela é minha irmã — eu, eu tenho que ajudar."

Outros assentem, oferecendo-se como voluntários. Annie ignora a queimação em sua garganta.

Com a voz áspera, ela diz: "Certo. Partiremos das terras áridas exatamente ao amanhecer amanhã."

Consciente demais dos olhares agradecidos, Annie agarra as rédeas de Fortune e sai dali o mais rápido possível.

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Agora, essa foi uma decisão estúpida demais.

Quanto mais o dia se arrasta, mais Annie começa a se perguntar o que deu na cabeça dela. Aquela serpe de chocalho é um grande problema, mas não é dela. Ela consegue manter os seus seguros — na maioria das vezes — e não oferece seus serviços levianamente. No entanto, aqui está ela, na noite anterior, arrumando uma mochila para levar para as dunas na manhã seguinte. Ela joga as carnes curadas da cesta de piquenique misteriosa.

A verdade seja dita, ela sabe exatamente por que fez isso. Porque ela estava olhando para Mira, mas estava vendo Tommy. Ela estava encarando aquela garota, envenenada pela cobra, e pensando em seu sobrinho, e na dor crônica que ele carrega por causa do erro descuidado e estúpido dela mesma.

Não é como se matar essa coisa fosse consertar as coisas entre ela e Tommy. Mas há uma parte dela que vê o rosto de Akul, o cruel líder dos Hellspur que colocou a vida de Tommy em risco por causa do passo em falso de Annie. Talvez, se ela matar esse monstro, possa matar a parte de Akul que a assombra desde aquela noite.

Estúpido demais. Mas tarde demais para recuar.

Seu vaivém é interrompido por um gemido baixo vindo do corredor. Annie não hesita, largando o que está fazendo e indo em direção ao quarto do sobrinho. Suas mãos já estão alcançando o frasco de fumaça azul no armário antes mesmo de ela perguntar: "A dor está aumentando?"

Mas quando ela oferece o frasco a ele, ele vira a cabeça, o lábio superior se curvando como se estivesse com nojo.

"Você não quer o remédio?"

"Não," ele range os dentes.

Annie franze a testa, tentando encontrar a explicação não dita escondida no rosto do sobrinho.

"Cansado… o tempo todo." Seus nós dos dedos ficam brancos como osso enquanto ele luta para pronunciar as palavras.

Um dos efeitos da fumaça azul é a fadiga que vem com ela. Supõe-se que seja um benefício, ajudando as pessoas a dormir apesar da dor, algo que Tommy não conseguia fazer sem ela. Não deveria ser surpresa para ela que ele se cansasse disso e quisesse parar aos poucos. Ele praticamente viveu neste quarto desde que se mudaram para a fazenda. Mas isso ainda a deixa enjoada.

"Tudo bem." Ela não discute, mesmo que quisesse. Tommy é adulto, e ela já provou que não deve fazer as escolhas dele por ele.

Quanto guarda o frasco, ela diz: "Não estarei por aqui amanhã. Concordei em cuidar de uma serpe de chocalho que está aterrorizando Saddlebrush."

Tommy não responde. Annie se ocupa arrumando o conteúdo do armário. Ela não se abala facilmente, mas Tommy consegue fazer isso sem esforço. "Vou sair com alguns pretensos caubóis ao romper da aurora. Não tenho certeza de quando voltarei para casa. Mas antes do fim do dia."

Ele ainda não diz nada. Finalmente, Annie se obriga a fechar o armário e se virar. O rosto dele está rígido como pedra, a expressão indecifrável.

Quando o silêncio se prolonga, Annie empertiga os ombros e sai. Ela não tem certeza se é a dor em seu corpo ou a raiva em seu coração que deixou Tommy tão perturbado quanto está. De qualquer forma, tudo volta para ela.

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"Ora, o que raios seu traseiro velho está fazendo aqui?" são as primeiras palavras que saem da boca de Annie no dia seguinte, quando ela sai em sua varanda e encontra Jody esperando com Bo e os outros.

O viúvo sorri, sem se importar. "Desculpe, devo ter me confundido quando vi que você estava liderando as tropas — isso não é um passeio para o centro de idosos?"

Apesar de si mesma, Annie esboça o mais breve sinal de um sorriso. "Agora, vou lembrá-lo, vovô, que apenas um de nós tem um detonador consigo agora."

O sorriso dele aumenta. "Tudo bem, tudo bem. Só estou aqui para me despedir dos heróis que partem, só isso."

O termo heróis que partem a faz querer revirar os olhos até o fundo do crânio, mas ela calcula que essa era a intenção dele. Antes que ela possa retrucar, a porta se abre atrás dela. E quando Annie se vira, qualquer coisa que ela pudesse ter a dizer desaparece.

Tommy está lá, com uma bengala debaixo do braço. Ele está pálido, a respiração irregular, mas está de pé.

"Você," Tommy rosna, apontando um dedo ossudo para Bo.

"Eu?" As bochechas já pálidas de Bo perdem qualquer vestígio de cor que tivessem.

"Você volta com minha tia. Ou você não volta. Está me ouvindo?"

"Hum — não, quero dizer, sim, totalmente, entendido. Não deixarei nada acontecer com ela — e se acontecer, eu vou, hum, eu vou me deitar e morrer."

"Bom." Tommy abaixa o braço.

Annie não sabe o que fazer com tudo isso. Ela poderia ter previsto a manhã de cem maneiras diferentes e nunca teria imaginado isso. A afeição — ríspida como era — estava ausente de seu relacionamento com Tommy há muito tempo. Isso a faz querer chorar ao senti-la novamente. E… ser mimada na frente de um bando de estranhos a faz querer arrancar a própria pele.

"Vamos nessa," ela finalmente late, virando-se para pegar Fortune e botar o pé na estrada.

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Leva menos de uma hora para Annie decidir que Bo é a pessoa mais cativante e irritante que ela já conheceu. O garoto não deveria estar nas dunas caçando serpes de chocalho. E ele parece saber disso, porque está nervoso o suficiente para não conseguir parar de falar. Ao nascer do sol, Annie conhece a história de vida do garoto.

"Então, nossos pais morreram há alguns meses. Quer dizer — nosso pai morreu há sete anos, na verdade, mas nossa mãe morreu no início deste ano. Enfim. Então, isso aconteceu. Então, acho que somos órfãos. Ou — não sei, não sou mais criança, acho que não posso ser órfão. E acho que Mira também não é realmente órfã, porque eu estou cuidando dela. Enfim, somos só nós. Sabe, somos tudo o que temos. Bem — ok, nós e o pessoal da cidade, sabe. Todos eles ajudaram nossa mãe quando chegamos aqui e depois nos ajudaram quando ela morreu. Não sei como teríamos conseguido se estivéssemos realmente sozinhos . Digo, ninguém consegue ficar seriamente sozinho, certo? Ninguém consegue sobreviver assim."

Ninguém, hein?

Seu povo compartilha do sentimento de Bo desde tempos imemoriais. Na terra natal que lhe deu a vida, todos eram família e a família era tudo. Ouvir Bo falar sobre a maneira como as pessoas em Saddlebrush se prontificaram para cuidar dele e de sua irmã — era assim que teria sido em casa. Os jovens eram responsabilidade de todos. Todos eram responsabilidade de todos.

Essa era a vida que Annie conhecera por muito tempo. E então não era mais. Agora, essa parte do seu passado parece um sonho cujos detalhes ela não consegue captar, mas do qual também não consegue se livrar.

Ela pensa na cesta de comida em seu balcão. A pressão da mão de Jody em seu esterno.

Perder algo tão sagrado quanto o próprio povo é morrer um pouco. Ela não ousaria esperar sentir algo assim novamente. A esperança poderia ser grande o suficiente para engoli-la se sentisse.

Quanto o sol nascente pinta a paisagem, Annie afasta seus pensamentos para apertar os olhos para o horizonte. Um movimento muda à distância. Se ela não soubesse o que procurar, talvez nem notasse. Ainda poderia não ser nada.

Ela aperta o detonador com mais força, a expressão sombria. Ela não pode arriscar se aproximar sem ter certeza do que está lá.

"Isso pode parecer um pouco estranho para quem vê de fora," ela avisa Bo. "Apenas fique quieto e confie que há coisas acontecendo que você não pode ver. Entendido?"

"Uh — uh, sim? Claro."

Resolvido isso, Annie se volta para a direção do movimento indecifrável e acessa sua visão aprimorada.

Seus outros sentidos se amortecem. Embora nada aconteça por fora, por dentro Annie é lançada pelo espaço. De repente, ela está a cem jardas de distância, no topo de uma montanha de areia, olhando para escamas cintilantes. A serpe de chocalho se enterra na terra, desaparecendo quase completamente antes de saltar livre do outro lado de uma pequena duna. Perto dali, há uma abertura na areia, a entrada para o covil da criatura.

"Peguei você," ela sussurra, e seu detonador aquece em sua mão, ancorando-a ao seu corpo.

A segundos de recuar, Annie hesita diante de um lampejo de bronze em sua periferia. Ela observa, com o coração na boca, enquanto outra serpe de chocalho emerge. Esta é consideravelmente menor. Ela dá um balanço cauteloso com a cabeça, espiando para seu… progenitor. A serpe de chocalho maior se sacode, chamando até que o filhote se junte a ela. As duas deslizam juntas pela areia, as escamas roçando a terra que se aquece.

Seu coração, preso no fundo da garganta, começa a bater com mais força.

Ninguém foi feito para sobreviver sozinho.

E qualquer um encurralado fará o que for preciso para vencer as adversidades e sair vivo.

A serpe de chocalho não é Akul. Annie não pode se vingar da dor de Tommy massacrando a criatura que feriu Mira. De volta ao seu corpo, Annie percebe o que precisa fazer.

"Você a encontrou?" Bo pergunta.

"Encontrei. Logo adiante." Ela guarda o detonador de volta no coldre. "Agora, é o seguinte que vamos fazer…"

Annie poderia ter esperado raiva das pessoas de Saddlebrush, por sua decisão de deixar a serpe de chocalho e seu filhote viverem, por encurralá-los mais fundo nas dunas onde as presas eram mais abundantes e as pessoas mais escassas, em vez de exterminá-los como havia prometido. Não pela primeira vez, os habitantes da cidade a surpreendem ao aceitarem entusiasticamente uma solução que não envolvia derramamento de sangue.

É o cair da noite quando Annie volta para casa, dolorida de um dia bem aproveitado. Ela sorri ao se despedir dos outros, observando-os partirem juntos. Fortune lhe dá um empurrãozinho, relinchando como se risse. Ela beija a lateral do rosto dele e o manda para o celeiro.

Lá dentro, ela ainda está sorrindo quando pendura a jaqueta.

"Sucesso?"

A voz de Tommy vem de trás da esquina, e Annie se vira em sua direção.

Ele parece ainda melhor. Está parado no corredor, a mão em volta do topo de sua bengala. Banho tomado?

"Do seu jeito. Há pessoas boas nesta cidade, Tommy. Acho que realmente seremos capazes de construir uma vida aqui. Eu…"

Ele faz uma careta. Dor, mas de que tipo?

Os olhos dela o examinam novamente. Desta vez, ela nota a bolsa a seus pés.

"Você vai a algum lugar?"

"Só estava esperando para me despedir."

"Eu —" Ela estreita os olhos para ele, entrelaçando as mãos à frente do corpo. "Não. Onde você vai?"

"Para casa, titia."

"Esta é a sua —"

"Casa ." Ele enfatiza, os olhos ardendo com um fogo que Tommy não tinha desde que começou com a fumaça azul. "De volta ao nosso povo."

Um silêncio masoquista paira entre eles, implorando para ser quebrado.

Tommy consente. "Estou feliz que você esteja se estabelecendo aqui. Mas isso não é o lar. Não sei como fazer parte dessa vida de que você está falando. E eu preciso…"

He looks at the floor. "Eu preciso de remédio de verdade ."

Annie teria que ser cruel além da conta para culpá-lo. Isso não impede a maneira como seu peito ameaça se abrir pelas costuras.

"Eu entendo." Ela assente. "Mas você não pode sair no escuro sozinho, pelo menos fique até —"

"Eu tomei providências. Jody, na verdade, me ajudou a traçar um plano. Ele é um cara legal."

Um cara legal cujo pescoço Annie vai quebrar na próxima vez que o vir.

"Tudo bem." Ela engole em seco. "Bem… obrigada por esperar. Foi gentil da sua parte, considerando."

"Considerando?" Tommy franze a testa.

"O quanto você deve me odiar."

"Haseya…"

Sua respiração fica presa na garganta quando Tommy usa seu nome verdadeiro , seu nome Atiin, o nome que seu povo lhe deu. Ele dá um passo à frente e a puxa para um abraço. Annie choraria se conseguisse respirar. Ele sussurra: "Eu não conseguiria odiar você. Eu amo você. Só que este… não é o lugar onde eu deveria estar."

É onde ela deveria estar? Ela não sabe. Ela espera que, se se permitir perdoar seus erros, se se dedicar e construir algo aqui, talvez possa ser.

And maybe she's wrong again.

"É melhor eu ir." Tommy passa o polegar no rosto dela antes de pegar sua bolsa. Ainda há um tremor em cada movimento, um nítido fio de dor, mas ele está melhor do que ela o viu em muito tempo.

Ele sabe o que está fazendo.

"Isto não é um adeus para sempre." Ele obscurece o batente da porta da fazenda. "Nos veremos novamente."

"O sangue pode correr, mas acaba exatamente onde começou," ela concorda. "Até lá."

Conforme a sombra de Tommy cresce mais e mais pelo caminho que se afasta de casa antes de finalmente desaparecer, Annie toma consciência de uma verdade silenciosa. Ela se instala como chumbo em suas entranhas, sufocando os nós emaranhados de esperança e medo, lavando-os todos.

Há uma boa chance de que ela possa construir a comunidade de que sentia falta. Essas pessoas podem ser o seu povo; esta vida pode ser a sua vida. Mas quando ela chegar em casa à noite, sempre será Annie Flash e seus fantasmas.

Episódio 3: Um Trem para a Prosperidade

Akul enterrou suas garras no cascalho, observando enquanto dois Hellspurs apareciam através da fumaça espessa. Seus punhos estavam cerrados em volta do uniforme desalinhado do supervisor da mina, e quando empurraram o homem em direção a Akul, o supervisor caiu de joelhos, com o rosto manchado de sangue e fuligem.

Chamas dançavam nos olhos do dragão, refletindo o que restava da mina de cobre. "Diga-me o que você sabe."

O supervisor gaguejou na areia, com o lábio tremendo. "Graywater me contratou para tomar conta da mina. O que quer que você esteja procurando não tem nada a ver comigo, eu juro! Por favor — eu não contarei a ninguém que vi você. Eu só quero ir para casa."

Akul baixou a cabeça e zombou. "Se você não tem nada para me dizer, então não vejo por que ainda está respirando."

Os olhos do homem se arregalaram. "Eu ouvi um boato sobre alguém roubando algo de Graywater. Algo importante o suficiente para que a sede da Companhia Sterling enviasse mais de duas dúzias de guardas para recuperá-lo!"

Akul recuou, levemente apaziguado, e estalou uma unha contra o chão rochoso abaixo dele. "Dê-me um nome."

O homem balançou a cabeça, temeroso. "Foi algum feérico metamorfo de outro plano. Ele tinha pintura facial azul e teve ajuda para escapar — mas isso é tudo o que eu sei."

O olhar de Akul voltou-se para os Hellspurs. "Encontrem-no. Agora ."

Eles assentiram antes de desaparecerem de volta através da fumaça, deixando o supervisor aos pés do dragão.

Por vários segundos excruciantes, o homem esperou em terror.

Akul virou-se para a mina em chamas, com a atenção voltada para uma saída. Os ombros do supervisor relaxaram com o alívio. Ele se levantou, com os joelhos tremendo, e enganchou um dedo em volta de seu lenço para aliviar um pouco da tensão. Com um olhar cauteloso na direção oposta à mina, ele deu um passo em direção à segurança.

"Aonde você pensa que vai?" Akul sibilou como uma chama crescente.

O supervisor congelou. Ele ergueu as mãos, pronto para implorar, mas não houve tempo.

Akul chicoteou o ferrão farpado e venenoso na ponta de sua cauda nas entranhas do homem, e a luz estilhaçou-se atrás dos olhos do supervisor.

No momento em que ele atingiu o chão, já havia partido.

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Oko observava os outros do mezanino. Kaervek estava amontoado com Annie e Vraska, em uma conversa profunda. Gisa e Geralf estavam em lados opostos da sala, claramente em guerra um com o outro. Eriette, Malcolm e Breeches seguravam copos no bar. Umezawa afiava uma faca serrilhada, estudando os outros em silêncio calculado, enquanto Tinybones se esparramava sobre o piano, segurando um relógio de bolso dourado contra a luz para uma inspeção mais detalhada.

As tábuas do assoalho rangeram atrás de Oko, e sua boca se contraiu com diversão. "Eu sei que você está aí", disse ele com naturalidade. "Estou ouvindo você respirar nos últimos cinco minutos."

Houve uma pausa antes de Kellan aparecer da alcova. Ele pressionou as mãos sobre o corrimão, movendo-se nervosamente. "Desculpe. Eu não estava tentando me aproximar de fininho."

"Você estaria fazendo um trabalho terrível se estivesse."

As bochechas de Kellan coraram. "É que — bem, não foi assim que imaginei nosso primeiro encontro."

Oko tamborilou os dedos na balaustrada de madeira. "A realidade raramente condiz com a fantasia. Mas, na minha experiência, a maior diversão acontece quando você não está seguindo um plano." Ele sorriu. "Conhecer você foi uma surpresa inesperada, e pela qual sou grato."

Kellan afastou um cacho escuro da testa, sua expressão suavizando. "Sério?"

"Sim." Oko gesticulou para a equipe na sala de baixo. "Você será uma adição maravilhosa ao time."

Kellan remoeu seus pensamentos por um momento longo demais, mas finalmente soltou um suspiro. Ele não tinha palavras para o que quer que estivesse pesando sobre ele.

"Você veio em meu socorro quando eu mais precisei." Oko continuou a olhar para baixo da varanda. "É algo que não esquecerei facilmente. Talvez em breve, eu possa retribuir o favor."

"Eu não preciso de favores", disse Kellan lentamente. "Eu só quero conhecer você."

"Você vai", prometeu Oko. Ele sabia como soar genuíno — e, além disso, ele quase falou sério desta vez.

Kellan parecia prestes a dizer mais quando sua respiração falhou de repente, e ele se inclinou sobre o corrimão, com os olhos arregalados de alarme. Oko ficou tenso, pronto para convocar sua magia ao primeiro sinal de perigo, mas quando seguiu o olhar de Kellan para o canto da sala abaixo, o vinco em sua testa desapareceu. Ashiok estava flutuando para frente como se fosse carregado por uma tempestade de trevas. Sombras negras se enrolavam ao seu redor, pulsando como um batimento cardíaco lento.

O reconhecimento inundou o rosto de Kellan, sua expressão preocupada transformando-se em indignação. Ele agarrou a madeira com força, com os nós dos dedos emitindo uma aura dourada.

"Calma, garoto", disse Oko, sentindo que Kellan estava pronto para pular da varanda e começar uma briga. "Qualquer história que vocês dois compartilhem não tem lugar aqui. Entendido?"

"Você não sabe o que eles fizeram — do que são capazes!"

"Eu sei o que preciso saber. Todo o resto faz pouca diferença para mim."

"Ashiok é perigoso", insistiu Kellan. "Eles atacaram minha casa e manipularam pessoas para fazerem sua vontade. Eles fizeram Rowan Kenrith se tornar — bem, má! Você não pode confiar neles."

Oko fungou com desdém. "Eu não preciso que você confie em Ashiok — preciso que você confie em mim. Você pode fazer isso?"

Kellan enrijeceu-se levemente antes de assentir e soltar o corrimão.

Oko fez questão de parecer satisfeito. "Bom. Kellan, tenho certeza de que sua mãe fez um excelente trabalho criando você, mas há coisas que ela não lhe ensinou. Sobre seus poderes, sobre de onde você vem. Agora que finalmente nos reunimos, posso lhe ensinar muito sobre sua verdadeira herança. Tenho negócios a discutir com a equipe." Ele se dirigiu às escadas, parando no meio do caminho. "Você vem?"

Kellan hesitou, lutando com a culpa que irradiava claramente de seus ombros. Ainda assim, ele seguiu seu pai escada abaixo, parando perto de uma das mesas maiores onde o resto da equipe havia se reunido.

Oko preparou-se para uma reação de Ashiok, mas foi Eriette quem notou Kellan primeiro.

"De todas as pessoas para se encontrar em Encruzilhada do Trovão", disse ela com arrogância. Ela ergueu o nariz, os cabelos brancos caindo sobre os ombros enquanto olhava feio para Oko. "Se eu soubesse que esse pirralho se juntaria à equipe, teria negociado um pagamento maior."

A voz de Oko era puro charme. "Se os necromantes podem tentar deixar de lado suas diferenças pelo bem da missão, tenho certeza de que o resto de nós pode aprender a fazer o mesmo."

Kellan franziu a testa. Eriette cerrou os lábios e deu de ombros.

"Maravilhoso. Agora, voltando ao motivo pelo qual todos nos reunimos aqui..." Oko acenou para Kaervek. "O que você descobriu?"

Kaervek removeu o artefato de seu casaco, colocou-o no centro da mesa e cruzou os braços sobre o peito. "Não é Thran nem Phyrexiano, mas é tão antigo quanto, ou mais. Não posso lhe dizer com precisão de que lugar antigo ele provém. Não teve resposta à minha magia, e por isso meu conhecimento permanece limitado."

"Sem surpresas", murmurou Umezawa, encostado em um dos pilares.

As narinas de Kaervek se dilataram, mas ele fixou o olhar em Oko. "Acredito que o artefato seja mais do que uma chave, e talvez até mais perigoso do que podemos compreender. Quem quer que o tenha feito, e de onde quer que venha... Você pode estar libertando outra Phyrexia no Multiverso."

"Você parece estar com medo", disse Vraska com impaciência.

"Não é medo o que habita em mim; é cautela", corrigiu Kaervek. "Eu perdi séculos porque tomei um poder que não podia controlar. Não estou disposto a fazer isso de novo sem estudo."

As sombras de Ashiok giravam atrás deles. "Bertram Graywater estará nos procurando e fará tudo ao seu alcance para encontrar a chave. Precisamos chegar ao cofre antes que isso aconteça."

"Ainda não sabemos onde Tarnation está ", apontou Malcolm, as penas se endireitando em seus braços. "Eu sei que você me pediu para fazer reconhecimento, mas há muito deserto lá fora. Eu preferiria direções — ou pelo menos um mapa."

O sorriso de Gisa era sinistro. "Que tal torturarmos alguém para descobrir? Aposto que há algum Hellspur por aí que poderia nos mostrar o caminho!"

Geralf zombou. "Você não tem paciência para interrogatórios."

"A única coisa para a qual não tenho paciência é você , irmão", disse ela. "Até a sua voz me irrita."

Vraska acenou com a mão. "Precisamos saber como chegar ao cofre — mas as direções não importarão se não soubermos como usar esta chave." Seus olhos pousaram primeiro em Kaervek e depois em Annie. "Diga a eles o que você me disse."

Annie deu de ombros. "Eu conheço um Degredado dos territórios que estuda artefatos mágicos antigos. O nome dele é Nolan. Ele faz quase qualquer coisa por um pagamento e, por algumas moedas extras, você também pode comprar o silêncio dele."

Oko olhou ao redor da sala. "Em quanto tempo conseguimos trazê-lo aqui?"

"Há um problema", disse Vraska, as gavinhas movendo-se atrás dela. "O homem em questão está atualmente em um trem para Prosperidade, escoltado por mercenários Sterling."

As sombras aos pés de Ashiok estremeceram. "Graywater deve ter ido procurá-lo pelo exato mesmo motivo."

"Mas Graywater não tem mais a chave", apontou Malcolm. "Ele não tem utilidade para um especialista em artefatos."

"Desperdiçando o tempo dele!" Breeches concordou.

Vraska semicerrou os olhos. "Pelo que sabemos, Graywater pode colocá-lo sob chave e cadeado enquanto tenta recuperar o artefato."

Oko assentiu. "Precisamos chegar ao Degredado antes que ele chegue a Prosperidade."

Breeches jogou os braços para o ar. "CAPTURAR E INTERROGAR!"

Gisa parecia radiante. Geralf revirou os olhos.

Oko virou-se para Kellan. "Você é um ex-homem da Sterling. Quão familiarizado você está com as rotações de guarda no trem?"

Kellan congelou, incerto. "Eu — eu não quero fazer nada ilegal."

Um murmúrio de risadas sombrias espalhou-se pela sala.

"Estou apenas pedindo sua experiência", disse Oko, com a voz suave como veludo. Kellan limpou a garganta, evitando os olhares do resto da equipe. "Eu não quero que ninguém se machuque. Eu já estraguei as coisas com Ral..."

Oko pressionou uma mão no coração. "Prometo que nenhum inocente será ferido."

O rosto de Gisa caiu de decepção, mas todos os outros permaneceram estoicos.

"Tudo bem", disse Kellan finalmente. "Diga-me o que você precisa saber."

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O trem atravessava o deserto dourado em alta velocidade, o sol brilhando através das janelas de vidro alongadas. Kellan batia sua bota nervosamente, contando os passageiros ao seu redor com pavor. Devia haver pelo menos cem pessoas em todos os vagões de passageiros combinados — talvez mais.

Se algo desse errado...

Arte por: Leon Tukker

Oko colocou a mão no ombro de Kellan. "Tente não parecer tão apavorado", disse seu pai com lentidão, baixo demais para que qualquer outra pessoa ouvisse. "Deveríamos estar nos misturando."

Kellan paralisou, mas seu coração parecia prestes a saltar do peito. Para qualquer um que observasse, ele parecia qualquer outro guarda da Sterling a caminho de Prosperidade. Com Oko escondido sob uma ilusão, ele também parecia um. Ele parecia ter um controle muito melhor sobre suas ilusões agora que estava ciente da presença de seu filho.

Os olhos de Kellan voltaram-se para a porta que conectava o vagão atual ao de trás. "Os guardas entrarão em rotação em breve. Eles estarão indo para a frente do trem, o que é nossa oportunidade de seguir para os fundos."

A boca de Oko mal se moveu. "Você tem certeza de que o Degredado estará lá?"

Kellan assentiu uma vez. "Os vagões dormitório são o único lugar onde podem colocar pessoas sob guarda armada sem chamar atenção. Se Nolan ainda estiver no trem, é lá que ele estará."

Umezawa estava sentado discretamente na outra extremidade do corredor, o chapéu puxado para baixo, os braços cruzados sobre o peito. A maioria de suas tatuagens estava escondida sob camadas de tecido, mas algumas eram visíveis logo acima de sua gola.

No momento em que a voz de Oko pressionou a mente de Kellan, ele estremeceu. Ele nunca havia experimentado telepatia em grupo antes — e não tinha certeza se gostava disso.

"Todos podem me ouvir?" Oko perguntou através do elo mental.

Umezawa olhou para cima em sinal de reconhecimento.

A voz de Annie soou em seguida, nítida e clara, apesar de ela estar a mais de um quilômetro de distância no cume. "Estamos aqui, e estamos de olho no trem."

"O céu também parece limpo," anunciou Malcolm. "Breeches está pronto para explodir a ponte ao seu sinal."

"BOOM!" Breeches gritou excitado.

"Esse é o sinal?" interrompeu Gisa. Sua risadinha beirava a euforia. "Mal posso esperar!"

"Claro que esse não é o sinal," desdenhou Geralf, exasperado. "Você deve erguer os cadáveres " depois que "Breeches explodir a ponte e forçar o trem a parar. Passamos por isso cem vezes. Por que é tão difícil para você prestar o mínimo de atenção ao que qualquer outra pessoa diz?"

"Cadáveres?" Kellan tentou perguntar, mas ninguém parecia ouvi-lo por causa da discussão dos necromantes.

"Pare de me dizer o que fazer!" rosnou Gisa de volta. "Você não está no comando — e a única razão pela qual você foi convidado para este trabalho foi porque eu permiti."

"Ter um costureiro é muito mais útil do que um chamaghoul. Além disso, estou aqui pelos segredos que este 'trovão' pode oferecer ao meu ofício," rebateu Geralf. "Embora, a esta altura, eu não tenha certeza absoluta se vale a pena ter que suportar o som da sua voz!"

"Ashiok não criou um elo telepático para vocês dois discutirem como crianças," repreendeu Vraska. "Guardem isso para depois da missão. Agora, precisamos nos ater ao plano."

A porta próxima se abriu e dois guardas entraram. Eles passearam pelo corredor, dando um aceno obrigatório em reconhecimento aos uniformes de Kellan e Oko, antes de desaparecerem pela próxima passagem.

No momento em que o caminho ficou livre, Oko levantou-se e moveu-se em direção à traseira do trem, com Kellan e Umezawa seguindo-o. Quando chegaram ao vagão de bagagens, passaram por fileiras de malas e baús de couro e pararam em frente a uma porta trancada.

Umezawa empurrou a aba de seu chapéu para trás. "Não sei como alguém consegue ver com essas coisas na cabeça", resmungou antes de retirar um pequeno dispositivo metálico de seu cinto.

Um painel brilhou e várias formas minúsculas de origami apareceram ao longo das bordas. Umezawa segurou a peça do equipamento contra a maçaneta, e as formas se dobraram e redobraram como papel antes de se enterrarem dentro da fechadura. Ele trabalhou rapidamente, usando o dispositivo para manipular a fechadura enquanto as peças de metal assumiam a forma de uma chave intrincada.

Kellan nunca tinha visto nada parecido.

"Nossa janela para explodir esta ponte e parar o trem está diminuindo," notou Malcolm através do elo mental. "Como estão as coisas aí dentro?"

"Dê-me um minuto," respondeu Umezawa friamente.

"PRONTO E ESPERANDO!" Breeches grasnou.

"Espere, " aquele "era o sinal?" perguntou Gisa.

"Ele disse para dar um minuto a ele!" latiu Geralf.

"Como você ousa levantar a voz para mim," cuspiu Gisa de volta. "Não pense que nossa trégua temporária me impedirá de arrancar sua língua!"

"Ameace-me o quanto quiser, mas posso facilmente costurar sua boca —"

"— você estraga tudo, e estou tão cansada da sua reclamação constante! Se eu pudesse —"

"— o mais não confiável, egoísta —"

"— irritante, odioso —"

"Vocês dois poderiam ficar quietos?" rugiu Malcolm. "Como Breeches deve ouvir o sinal com todo esse barulho?"

"SINAL!" a voz de Breeches ecoou.

"Não, Gisa — o que você está fazendo? Pare!" gritou Geralf. Os gritos distantes ecoaram por todo o caminho até o vagão de bagagens.

O coração de Kellan apertou ao ver a testa de Oko franzir. Até Umezawa parou na fechadura, com o rosto empalidecendo.

"O que está acontecendo?" Oko exigiu.

"Ela ergueu os zumbis cedo demais," Geralf resmungou.

A gargalhada de Gisa explodiu pelo canal telepático. "Está vendo, querido irmão? Duvide de mim o quanto quiser — eu sempre provarei que sou mais poderosa que você."

Arte de: Chris Seaman

"Oko, há guardas indo para a parte de trás do trem," Malcolm disse rapidamente. "É melhor vocês encontrarem um lugar para se esconder se quiserem manter o elemento surpresa."

"Estou quase terminando," disse Umezawa, girando a chave parcialmente formada. "Eu só preciso—"

A porta atrás deles bateu contra a parede, fazendo Kellan saltar. Um par de guardas surgiu na soleira, tentando entender os uniformes de Kellan e Oko. Mas com Umezawa ainda empoleirado em frente à porta trancada, eles não tinham a menor chance de manter o disfarce.

Os guardas sacaram suas armas.

Oko e Kellan mergulharam para paredes opostas, bem no momento em que uma explosão de trovão estourou em direção ao batente da porta. Umezawa soltou um grito agudo, agarrando o ombro antes de tropeçar em busca de cobertura atrás de uma mala enorme.

Kellan ergueu uma mão e disparou uma vinha dourada direto para a arma do guarda. Com um puxão agudo em sua magia, Kellan arrancou o rifle de suas mãos e o enviou deslizando pelo chão de metal. Ele investiu contra o guarda com o ombro, derrubando-o.

Oko moveu-se rapidamente, libertando uma faca curva de seu cinto. Ele alcançou o segundo guarda em menos de um instante e o perfurou entre as costelas. O guarda estremeceu fortemente antes de desabar no chão.

Kellan lutava para imobilizar o outro guarda, movendo a cabeça de um lado para o outro, tentando desviar do punho do homem. Do canto da sala, Umezawa lançou uma pequena estrela de metal pelo ar. Ela atingiu o guarda da Sterling no pescoço, errando a mão de Kellan por apenas uma polegada.

Kellan soltou o homem, surpreso, e observou seus olhos se fecharem. Ele virou-se bem a tempo de encontrar Umezawa caindo pesadamente no chão.

Kellan correu para o lado dele. "Ele precisa de um médico. Quão rápido Geralf consegue chegar aqui?"

"Não há tempo para isso," argumentou Oko. "Precisamos encontrar o Desgarrado antes que os guardas percebam o que está acontecendo."

Kellan recuou o rosto em confusão. "Mas—não podemos simplesmente deixá-lo aqui. Ele vai morrer."

"Pessoalmente, prefiro arriscar minha sorte aqui do que com o necromante," tossiu Umezawa, com os olhos se fechando. "Não quero acordar e descobrir que meus membros foram costurados do jeito errado."

"Está vendo? Ele está bem," insistiu Oko.

Umezawa vacilava no limiar da consciência.

Kellan franziu a testa. "Umezawa está ferido. Precisamos de alguém para tirá-lo deste trem," disse ele à tripulação. Ao lado dele, Oko cruzou os braços. A desaprovação em seu rosto era clara.

"Estou a caminho," Annie respondeu. "O que você quer fazer sobre a ponte?"

O maxilar de Oko ficou tenso. "Derrubem-na."

"GRANDE ESTRONDO!" Breeches berrou.

A explosão foi instantânea, ecoando pelas paredes do trem e fazendo o chão tremer. Sob o vagão, as rodas chocalharam nos trilhos antes de ganharem velocidade.

"Não estamos diminuindo a velocidade." Kellan franziu a testa. "Por que não estamos diminuindo a velocidade?"

Oko moveu-se para a janela, tentando distinguir o cânion à distância, onde a fumaça obscurecia o céu. "Precisamos chegar à parte de trás do trem."

Kellan levantou-se, cerrando os punhos. "Há civis a bordo. Precisamos avisá-los sobre a ponte—"

"Precisamos terminar a missão," Oko interveio, com os olhos brilhando. "Podemos verificar os passageiros depois de prendermos o Desgarrado."

"Mas—"

Oko segurou o ombro de Kellan, sacudindo-o com firmeza. "Não consigo fazer isso sozinho. Preciso da sua ajuda."

A boca de Kellan se abriu, os lábios formando palavras que nunca vieram. "Tudo bem," disse ele finalmente, preocupado demais em decepcionar seu pai para discutir mais. "Como vamos passar pela porta sem Umezawa?"

Oko apontou para cima. "Iremos pelo teto. Acha que consegue quebrar estas janelas com sua magia?"

Kellan formou um pesado martelo dourado, golpeando as janelas e estilhaçando-as completamente. Os dois escalaram a estrutura e buscaram na parte externa do trem algo onde se segurar. Eles subiram pelo exterior adornado até alcançarem o teto.

Kellan estendeu as mãos, firmando-se contra o vento. Além dos vagões de dormitório estavam os de carga. Sem dúvida, Gisa e Geralf estavam lá atrás, repelindo guardas da Sterling com um exército de mortos-vivos.

E Nolan …

Kellan apontou para um vagão. "Ali. É aquele."

Oko franziu a testa. "Como você sabe?"

"Porque é o vagão que usam para transportar prisioneiros."

Eles saltaram de um teto para o outro, lutando contra o balanço do trem enquanto seguiam para o último vagão de dormitório. A fumaça da ponte flutuava pelo ar, fazendo Kellan estremecer. Não demoraria muito para que os trilhos acabassem.

Eles precisavam se apressar e encontrar uma maneira de parar o trem antes que ele caísse no cânion e levasse vidas inocentes consigo.

Uma explosão de trovão estourou perto dos pés de Kellan. Ele tropeçou, caindo com força contra o metal implacável. A dor irradiou por seus ossos.

Meia dúzia de guardas da Companhia Sterling apareceu, formando uma linha atrás de Kellan e Oko. Um deles ergueu seu disparador e atirou uma segunda rajada de energia pelo teto. Kellan saltou, subindo aos céus em busca de cobertura, bem no momento em que Oko rolava para fora do caminho. O salto levou Kellan para o próximo vagão do trem, mas deixou Oko vulnerável sozinho.

Em pânico, Kellan tentou voltar rapidamente no momento em que uma série de explosões enviava detritos ricocheteando em sua direção. Ele levantou os braços para cobrir o rosto.

"Pai!" Kellan gritou em meio ao caos.

Oko estremeceu — e Kellan fez o possível para não dar importância a isso. Eles estavam sob fogo; não era hora de fazer nada além de sobreviver.

Kellan avançou e agarrou o pai pelos braços. He lançou-se para cima e para longe da próxima explosão, segurando-se firme em Oko antes de desviar de uma flecha brilhante. Eles desviaram bruscamente antes de caírem de volta no teto.

Oko sacou sua adaga. Kellan moveu uma mão para invocar suas próprias armas.

Os guardas se aproximaram, cercando-os em um círculo amplo. A que estava no centro apontou seu rifle de trovão para Oko, e a magia de Kellan estancou na ponta de seus dedos.

A preocupação latejava através dele — por seu pai e pelas pessoas inocentes ainda no trem.

O que aconteceria se ele não pudesse salvá-los?

O que aconteceria se ele não pudesse salvar seu pai ?

Os ombros de Kellan tremeram, e ele redirecionou sua magia para proteger Oko. Se apenas um deles pudesse sair vivo …

Braços cinzentos e apodrecidos se fecharam em torno dos ombros da guarda, e sua arma caiu ruidosamente no chão. Ela se debateu contra a criatura, gritando enquanto esta a desequilibrava. O restante dos guardas começou a se virar um por um, soltando ganidos de alarme diante do que quer que estivesse atrás deles.

Uma parede de corpos reanimados apareceu, arranhando e puxando os guardas da Companhia Sterling com uma fome desesperada. O pânico espalhou-se pelos telhados. Alguns dos guardas recuaram. Alguns saltaram do trem. Outros nem sequer escaparam.

Usando a distração a seu favor, Kellan e Oko forçaram a descida pela escada mais próxima, espremendo-se no espaço aberto entre os vagões de carga e de dormitório.

Oko parou do lado de fora da porta. "Permita-me," disse ele, transformando-se em um dos guardas recém-caídos. Ele empurrou a porta e revestiu sua voz com uma falsa preocupação. "Os ghouls — eles estão por toda parte!" ele arquejou para as pessoas na sala.

Nolan estava no centro, cercado por quatro mercenários da Sterling.

Os guardas trocaram olhares cautelosos.

"Eles estão atravessando pelo teto! Precisamos de todos que tenham armas para ajudar a contê-los," acrescentou Oko apressadamente.

Três dos guardas agiram rapidamente, correndo para a porta com seus rifles de trovão. No momento em que pisaram na passarela entre os vagões, as vinhas douradas de Kellan os prenderam e os lançaram pela lateral do trem no chão do deserto abaixo.

O último guarda hesitou. Oko deixou sua ilusão cair, revelando suas orelhas pontudas e o rosto pintado de azul. Seu sorriso era selvagem e travesso.

"Não se preocupe. As chances são de que você sobreviva à queda. Mas, por favor — dê meus cumprimentos a Graywater." Oko empurrou o homem com força pela porta aberta, onde as vinhas de Kellan fizeram o resto.

Oko virou-se para o Desgarrado, sorrindo abertamente. "Você deve ser Nolan."

Oko segurou o braço de Nolan e o empurrou para frente. O trio marchou de volta pelos vários vagões de dormitório, observando enquanto uma mistura de ghouls e guardas caía ocasionalmente do teto.

Quando chegaram a uma porta trancada, Kellan levantou o trinco e a empurrou. Umezawa ainda estava caído no canto do vagão de bagagens. Inconsciente, mas respirando.

Com a mão firme no antebraço do Desgarrado, Oko inclinou-se para fora da janela quebrada. "Alguém sabe por que este trem ainda não diminuiu a velocidade?" perguntou ele ao restante da tripulação.

"Os zumbis alcançaram o maquinista," explicou Annie, com a respiração entrecortada. "Não há ninguém controlando o trem."

"Eu voarei até a frente e cuidarei disso," disse Kellan, movendo-se para a janela.

"Não," ordenou Oko, forçando o braço à frente dele. "Precisamos levar o Desgarrado e Umezawa para um lugar seguro."

"Sim, mas as pessoas—" começou Kellan.

"—serão cuidadas mais tarde," terminou Oko.

Kellan cerrou os dentes, agitado. "Não temos tempo para discutir sobre isso."

"Exatamente," disse Oko, e inclinou a cabeça em direção à imensidão do deserto. "Prepare-se — nossa equipe de extração está aqui."

Annie apareceu com Fortune, galopando ao lado do trem. Ela puxou as rédeas, guiando Fortune o mais perto possível dos trilhos.

Quando a lacuna era de apenas um braço de distância, Oko recuou e empurrou o Desgarrado em direção à janela.

"V—você espera que eu pule ?" Nolan gaguejou.

"Se quiser viver," respondeu Oko, ajudando-o a subir na estrutura.

Annie agarrou o braço estendido de Nolan e o içou para a parte de trás da sela. Ele agarrou a cintura dela desesperadamente, enterrando o rosto em seu ombro.

Kellan e Oko passaram, cada um, um braço sob Umezawa e o ergueram até o peitoril da janela. Annie aproximou-se dos trilhos mais uma vez, fechando a lacuna entre ela e a janela.

Kellan firmou-se enquanto carregava a maior parte do peso de Umezawa pela abertura. Annie passou o braço em volta de Umezawa e puxou com força, forçando-o para a frente da sela. Com um assobio agudo, Annie guiou Fortune para a segurança e partiu em um galope destemido, levantando areia atrás deles.

A fumaça entrava pela janela quebrada, e Kellan olhou com horror para o cânion adiante. A ponte estava obliterada. Tudo o que restava eram as extremidades retorcidas dos trilhos do trem, uma de cada lado do cânion.

Oko subiu na beirada.

"Aonde você vai?" Kellan perguntou, com os olhos arregalados. "Ainda há pessoas a bordo!"

"Não há tempo para salvá-los," disse Oko com um dar de ombros indiferente. "Temos que pular agora, ou cairemos no abismo com o trem."

"Mas você disse—"

Oko não esperou que ele terminasse. Ele saltou, rolando pela areia com uma graça instável.

A porta escancarou-se atrás de Kellan. Um dos guardas caiu para dentro; um zumbi agarrava seu pescoço, dentes buscando carne. Havia mais ghouls atrás deles, seus gemidos tornando-se mais altos a cada segundo.

Kellan não teve escolha — saltou e deslizou para a areia em pânico.

No momento em que pôs os pés firmemente no chão, ele virou-se, observando o trem se aproximar do penhasco. Correu por instinto, lançando as mãos para o alto enquanto gigantescas explosões douradas de energia irrompiam de suas palmas.

As vinhas chicotearam para frente, agarrando o trem pelo último vagão — mas não foi o suficiente para pará-lo.

O ímpeto do trem reagiu, e Kellan sentiu o puxão em sua magia queimar através dele, fazendo suas veias arderem. Ele esforçou-se contra o peso, cravando os calcanhares na areia enquanto se segurava, desesperado.

Todas aquelas pessoas …

Ele não podia deixá-las morrer.

Ele não iria .

Kellan jogou a cabeça para trás, e cada veia em seu corpo pulsou. Suas juntas resplandeceram, e ele segurou as vinhas como se estivessem enraizadas dentro dele, recusando-se a deixar que se quebrassem.

O trem rangeu, diminuindo a velocidade, mas o primeiro vagão já estava pendurado na borda. As botas de Kellan arrastavam-se pela areia, centímetro a centímetro.

A sombra distante de Malcolm moveu-se pelo deserto, e sua voz soou na mente de Kellan. "A Companhia Sterling está a alguns quilômetros de distância. "Não temos contingente para repelir um ataque desse tamanho. Você precisa se afastar o máximo possível desse trem."

Oko apareceu ao lado de Kellan, com a testa franzida de urgência. "Precisamos ir!"

"Você—prometeu—" Kellan esforçou-se. "Não vou deixá-los morrer."

"Você não pode salvá-los," argumentou Oko.

"Eu tenho que tentar," respondeu Kellan, rangendo os dentes enquanto puxava as vinhas com força.

O estrondo do exército se aproximando soou à distância. Um estouro de cascos e montarias enormes.

A Companhia Sterling estava pronta para a batalha.

Oko deu um passo para trás, depois outro. Um olhar de piedade passou por seu rosto antes de mudar rapidamente para resignação. Com um último olhar, ele deu as costas para Kellan e fugiu para as colinas.

Kellan segurou suas vinhas mágicas com firmeza, o suor acumulando-se em seu rosto. O calor derretido continuava a rasgar através dele, logo ao lado de sua mágoa.

Oko o havia deixado.

O trem oscilava na borda do penhasco, avançando cada vez mais no espaço aberto abaixo. Kellan não conseguia lutar por muito mais tempo. Era pesado demais. Sua magia estava falhando, e a Companhia Sterling estava a apenas um minuto de distância.

Kellan piscou diante da ardência do sal que enchia os cantos de seus olhos no momento em que Fortune apareceu a vários metros de distância, empinando enquanto Annie sacava seu rifle de trovão. Ela o apontou para além de Kellan e disparou uma serie de explosões contra os guardas que se aproximavam.

"Umezawa—Nolan—" começou Kellan.

"Eles estão com os outros," ela respondeu. Fortune bateu os pés nas rochas, e Annie acenou com o braço para os passageiros que olhavam pelas janelas, a maioria deles paralisada demais para se mover. "Saiam do trem, agora !"

As pessoas olharam umas para as outras em alarme antes de correrem para as saídas mais próximas. Suas pernas tremiam de medo, cada uma saltando nervosamente para o chão do deserto antes de fugir para o mais longe possível do trem.

Kellan deu uma respiração ofegante, sentindo sua energia começar a esvair-se. Ele piscou com força, obrigando-se a direcionar cada grama de teimosia que lhe restava para a magia que irradiava de suas mãos. Annie disparou mais algumas explosões de energia atrás dele, tentando abater os cavaleiros mais rápidos e ganhar tempo antes que o grosso do exército chegasse.

Quando o último civil atingiu a areia, Annie virou-se para Kellan e estendeu o braço. "Venha, garoto."

Kellan soltou suas vinhas com um arquejo, e o trem disparou pela borda do penhasco, explodindo ao longe no momento em que atingiu o chão. Os estrondos soaram um após o outro conforme cada vagão aterrava em sucessão rápida, seguidos por uma barragem de rochas e detritos ricocheteando nas paredes do cânion.

Kellan segurou a mão de Annie e içou-se para as costas de Fortune, e eles dispararam para a crista, deixando os destroços e a Companhia Sterling para trás.

Muito Longe de Casa

Nashi estava sob uma abóbada de cactos gigantes. A luz do sol escapava pela confusão de espinhos curtos, fazendo sombras cruzadas aparecerem sobre seus pés. Ele deu um passo para trás, escondendo-se mais fundo na sombra. A floresta de cactos era um dos lugares mais verdes em Encruzilhada do Trovão, mas apenas as flores silvestres mais resistentes e a vegetação do deserto sobreviviam ao calor seco.

Era assim para as pessoas também.

A cauda de Nashi balançou atrás dele, e ele desenrolou o pergaminho em suas mãos, os olhos correndo sobre a história que ele havia memorizado de cor. Ele deixou cada palavra infiltrar-se em sua mente — então ele fez o seu melhor para segurá-las lá. Ele imaginou o feitiço prendendo-se à sua própria alma como se estivesse criando raízes. Quando a magia começou a fluir por ele, pulsou em sua corrente sanguínea como um ser vivo e volátil.

As vibrações o fizeram estremecer.

"Calma", a voz de sua mãe soou ao lado dele. "A magia de história não pode ser apressada. É uma troca, e que exige equilíbrio. Dê força às palavras, e elas darão força em troca."

O tom familiar foi o suficiente para fazer a garganta de Nashi dar um nó. Suave, deliberado e sábio; se ele fechasse os olhos, poderia imaginar o perfume de flores e especiarias que sempre pairava em suas vestes, e o toque de ar que fazia cócegas em suas bochechas sempre que ela flutuava por ele. Em vez disso, ele olhou para cima para ver a silhueta cintilante do antigo eu de sua mãe.

Ele ainda não estava acostumado com essa versão dela — não exatamente viva, mas não verdadeiramente partida. A Tamiyo que existia agora era uma mera coleção de memórias; um pergaminho de história animado que representava tudo o que ela um dia fora.

Tamiyo movia-se como uma aura pixelada, e o ar ao seu redor estalava com luz. She deu um passo para mais perto de Nashi. "Encontre o equilíbrio."

Nashi soltou um suspiro lento e deixou a história fluir por ele. Ele recitou as palavras com precisão, recontando o conto de uma planta brotando para a vida a partir de uma única partícula de areia, cada gavinha crescendo a alturas impossíveis, controlada pela vontade de seu criador. Uma arma nascida da terra.

Enquanto Nashi proferia a palavra final, uma muda brotou do chão do deserto, erguendo-se lentamente em direção à luz do sol.

"É isso", disse Tamiyo pacientemente. "Agora, termine a história. Dê-lhe vida."

Vida. A palavra atingiu Nashi como um soco no estômago, e em um instante, sua mente foi transportada de volta ao dia em que a Imperatriz Errante matou o que restara de Tamiyo. Ele não tinha certeza se sua mãe ainda estava lá — se uma parte dela havia conseguido sobreviver à sua transformação — mas não importava. A perda naquele dia fora tão poderosa quanto o dia em que ele soube que ela fora completada.

Nashi vacilou, e o broto deu um estremecimento enfraquecido antes de se enrolar de volta na areia.

Ele apertou o pergaminho, os bigodes tremendo. "Eu — eu não consigo. Eu não sou dotado como você era."

A forma fantasmagórica de Tamiyo oscilou entre a existência e o nada, e ela estendeu a mão para erguer o queixo de Nashi. Ele não conseguia sentir nada, mas tentou imaginar mesmo assim.

"Você se distrai facilmente por coisas que não pode controlar", disse ela. "Eu entendo sua tristeza, mas você não pode permitir que ela quebre o fluxo da sua história. Você tem que manter o foco."

Ele deu de ombros. "Eu consigo focar em você." Ele apontou para o pergaminho de memória que nunca saía do seu lado. "Quando eu leio sua história, você está aqui, todas as vezes."

"Sim. E por que você acha que isso acontece?"

Ele sabia a resposta sem precisar pensar; ele apenas não queria dizer em voz alta.

As únicas histórias que significam algo são aquelas que me trazem de volta para você.

Nashi virou-se e piscou com força. Ele guardou o pergaminho da planta em sua mochila e deu um puxão seco na alça. "Logo vai escurecer. Eu deveria voltar."

Tamiyo observou Nashi com curiosidade atenta. Finalmente, ela assentiu. "Até a próxima, então."

Nashi soltou o pergaminho de memória de Tamiyo. A versão brilhante de sua mãe desapareceu, mas a dor em seu peito era implacável.

Com um suspiro cansado, ele caminhou de volta pela floresta de cactos, evitando as cascavéis escondidas nos arbustos quebradiços ao redor enquanto seguia para a cidade mais próxima.

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O trem da noite parou na estação, e um apito profundo soou antes que as rodas guinchassem até parar. Momentos depois, uma onda de viajantes derramou-se na plataforma, e o clamor de passos ecoou pelo ar noturno. Uma pequena esfera de metal entrava e saía da multidão, tecendo entre estranhos com facilidade. Ela pairou por um momento, fora de alcance, enquanto sua luz azul escaneava o espaço movimentado, registrando cada detalhe. Após alguns minutos, voou sobre o trem e seguiu em linha reta para o salão de três andares do outro lado da estrada principal.

O dispositivo parou em frente às portas fechadas. A escuridão não fazia nada para esconder o desgaste visível por todo o edifício — tinta descascada, molduras de janelas lascadas e uma abundância de telhas faltando — mas Nashi não havia escolhido Ironstone por seu brilho.

A maioria das pessoas que passava estava interessada apenas em interromper suas viagens de trem. Era uma cidade de beira de estrada, com pouco a oferecer além de uma única casa de jogos, uma mina abandonada e uma estação ferroviária com conexões que se estendiam das maiores cidades de Encruzilhada do Trovão até os arredores distantes nos ermos. Mas o influxo de novos rostos todos os dias significava que sempre havia novas histórias para descobrir.

Gravar e preservar a história era a maior busca de Tamiyo. Seu legado . Nashi queria desesperadamente manter essa parte dela viva, da única maneira que sabia.

A esfera de metal lançou-se para o céu e seguiu a inclinação do telhado. Nashi esperava no ápice onde várias vigas expostas criavam uma superfície lisa para sentar. O drone espião desacelerou na frente dele antes de se acomodar na curva de sua palma estendida.

Nashi pressionou um dedo contra o microchip em sua têmpora, mudando a transmissão do drone de "gravar" para "reproduzir". O dispositivo girou no lugar, e um holograma se formou acima da cúpula de vidro da câmera. A imagem brilhante da estação de trem estendeu-se na frente de Nashi, e he observou com interesse enquanto a gravação holográfica começava a passar.

A maior parte era completamente comum — estranhos carregavam suas malas pela plataforma, lançando olhares ansiosos entre seus bilhetes e a torre do relógio acima. Duas crianças pequenas estavam do lado de fora do café da estação, brigando por uma garrafa de limonada. Uma mulher idosa esperava em um banco lendo um jornal de ontem. E um casal estava tão ocupado discutindo sobre de quem era a culpa por terem acabado na estação errada que nenhum dos dois notou a mão sorrateira deslizando em seus bolsos de casaco, aliviando-os de um relógio de bolso de prata, várias moedas de ouro e um cartão de identificação que parecia bastante importante.

Nada de mérito além de pequenos furtos , concluiu Nashi e tocou no chip em sua têmpora mais algumas vezes, peneirando a biblioteca compartilhada de gravações de vídeo que ele havia coletado por toda Encruzilhada do Trovão. Havia imagens de Esporas Infernais duelando e Exilados praticando magia selvagem, mas em vez de assistir, ele parou em uma gravação holográfica que já vira muitas vezes antes.

A imagem tremeluziu no telhado. Uma mãe e seus dois filhos estavam em frente ao Caminho das Presságios. As crianças andavam de um lado para o outro, os dedos se entrelaçando com antecipação. Seus olhos fixaram-se no portal largo e cintilante, e sua mãe pegou uma de suas mãos e apertou com força.

Sombras apareceram dentro dos redemoinhos azuis, e um grupo de figuras atravessou o Caminho das Presságios. Um era alto e largo, mas as malas enormes penduradas em seus ombros o faziam parecer colossal. Seu rosto estava cansado e gasto pela viagem, mas havia esperança nele também.

O homem mal se afastou do portal quando começou sua busca, os olhos correndo de um estranho para o outro. Não demorou muito para ele avistar sua família — ou para eles o avistarem.

A alegria explodiu em seu rosto, e suas malas caíram na areia. Ele lançou seus braços ao redor de sua família, apertando-os em um abraço desesperado, membros emaranhados enquanto seus olhos ficavam marejados. Era um reencontro pelo qual ele claramente esperara por muito tempo.

O nó na garganta de Nashi parecia ferro. Uma parte dele sabia que era injusto culpar a Imperatriz Errante por tirar o reencontro que ele poderia ter tido com sua mãe, mas uma parte maior dele estava sobrecarregada demais pela dor para sentir qualquer coisa além de se sentir enganado.

Nashi acreditara que ainda havia uma maneira de salvar a vida de sua mãe. Se Kaito o tivesse ouvido… Se a Imperatriz Errante não tivesse brandido sua espada…

Suas mãos fecharam-se em punhos, pensamentos abafando os sons do riso da família.

Tamiyo havia preservado suas memórias em um pergaminho mágico, mas as memórias de Nashi estavam em sua cabeça. Elas eram falíveis, na melhor das hipóteses, e corriam um risco ainda maior de serem esquecidas um dia. Ele desejava poder rever cada detalhe de sua vida. Ele desejava poder se lembrar da última vez que sua mãe o abraçou. A última vez que ela o segurou enquanto ele chorava. A última vez que ela o colocou na cama e cantou para ele dormir.

Os cantos de seus olhos encheram-se de um ardor salgado, e ele interrompeu a gravação do drone abruptamente, limpando a bochecha com as costas da mão.

Você ainda pode deixá-la orgulhosa , disse a si mesmo, o rosto esquentando. Você pode terminar o que ela começou.

Ele respirou fundo, tentando recuperar a compostura, quando um par de vozes no beco abaixo fez suas orelhas se erguerem.

"Eu estou te falando — esses trabalhos nos arredores raramente valem o pagamento. Você pode ganhar o dobro indo atrás de alvos de colarinho alto em Omenport."

"Eles são o dobro do risco também. Você viu a quantidade de guardas de Sterling rastejando pela cidade hoje em dia? Não tenho interesse em enfrentar o bando de Graywater. Pelo menos esses lugares perdidos sabem cuidar da própria vida."

Houve uma risada rouca, e Nashi moveu-se para mais perto da borda do telhado. Dois Tiros-Velozes vestindo casacos de veludo berrantes estavam entre os prédios, contando o dinheiro que tivessem ganhado no salão. Era estranho ver um Tiro-Veloz tão longe da cidade, mas ainda mais estranho vê-los trabalhando em pares. A maioria sabia que era melhor não confiar um no outro.

"Não admira que Lilah esteja pegando todos os bons trabalhos ultimamente. Aquele amplificador de magia está praticamente tornando-a intocável!"

"Imagino quanto uma mistura daquela custaria no mercado negro?"

"Não importa qual seja o preço — ninguém rouba dos Tiros-Velozes e vive para gastar a moeda."

"Eu não quero vender — eu quero usar . E não é como se houvesse apenas um no mundo, certo? Obviamente veio de algum lugar ."

"Com os Caminhos das Presságios abertos para negócios, você está olhando para mil e uma possibilidades. Provavelmente mais."

"Bem, eu ouvi dizer que veio de um plano congelado cheio de deuses. O rumor é que é o que eles bebem para permanecerem imortais."

"Eu não acredito nisso nem por um segundo. Mais provável que seja aquela coisa chamada Halo do plano-cidade."

"Ravnica?"

"No, the outro !"

"Ah, infernos. Quem consegue acompanhar hoje em dia. O ponto é, tem que haver mais disso por aí."

"Boa sorte tentando encontrar. Mas se você continuar falando em roubar da Lilah, eu vou considerar te entregar. Agora isso seria um pagamento fácil."

O Tiro-Veloz riu em resposta, mas havia uma tensão inegável nisso. Nashi tinha o palpite de que apenas um deles estaria voltando para a cidade pela manhã.

Enquanto caminhavam de volta para o hotel do outro lado da estrada, suas vozes sumiram na distância. Nashi não se deu ao trabalho de segui-los; ele já ouvira o suficiente.

Havia um amplificador em Encruzilhada do Trovão. Algo que poderia fortalecer sua magia de história em um instante. E estava atualmente na posse de uma chefe dos Tiros-Velozes chamada Lilah.

Nashi levantou-se, espanando a areia de suas roupas. Não havia muito que ele pudesse fazer esta noite. Mas amanhã?

Ele tinha um trem para pegar.

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O Voyager Grande estendia-se em direção às nuvens. Telhados pontiagudos e triangulares e moinhos de vento de grande alcance surgiam do topo do complexo de entretenimento. Bandeiras coloridas estendiam-se de uma varanda a outra, e luzes esféricas estavam penduradas ao longo das empenas do telhado, onde tinta azul estava listrada em linhas limpas e uniformes.

Após dias vasculhando gravações holográficas em busca de informações sobre Lilah, Nashi tinha o que precisava: a localização do amplificador. Ele ajeitou seu manto, certificando-se de que escondia o equipamento que prendera ao cinto, e atravessou as portas principais do complexo.

Mesas de jogo de madeira ladeavam as bordas do grande salão frontal. Duas escadarias largas levavam ao segundo andar, onde luzes piscavam ao redor das portas de cada estabelecimento único. Havia restaurantes, salões de dança e shows de teatro — tudo projetado para livrar as pessoas do máximo de moedas possível. Nashi seguiu para um dos elevadores e esquivou-se para dentro, mantendo a cabeça baixa.

A porta do elevador curvou-se ao redor dele, e a plataforma começou a subir. Nashi estudou o painel de controle na parede. Havia duas fileiras de botões de bronze e uma entrada para chave no topo que dava acesso ao décimo andar. Nashi fizera pesquisa suficiente para saber que o quartel-general dos Tiros-Velozes operava no porão, mas o décimo andar era para os clientes mais exclusivos do hotel. Em outras palavras, qualquer pessoa — ou qualquer coisa — que Lilah quisesse manter fora de vista.

Nashi removeu um dos dispositivos de seu cinto e o prendeu ao painel de controle. Os botões começaram a piscar freneticamente, e a entrada da chave brilhou em um azul neon. Quando o elevador abriu no décimo andar, ele se viu em um saguão amplo.

Pegando o corredor à direita, Nashi moveu-se para a ventilação mais próxima e buscou um de seus drones. A pequena esfera de metal deu um estremecimento antes de disparar para dentro do túnel escuro. Usando o dispositivo em sua têmpora, ele guiou a esfera pela ventilação, navegando por curvas enquanto a acompanhava pelo corredor. Quando parou em frente a um dos quartos, posicionou o drone na borda da grade de metal, com a cúpula de vidro girando para obter uma imagem completa do espaço abaixo. He estava preparado para um guarda ou dois e tinha as bombas de fumaça em seu cinto para provar isso — mas a sala estava vazia, exceto por uma mesa de escritório perto da janela e uma ampla estante de vidro ao longo de toda a parede traseira.

Nashi sorriu, satisfeito. Um pensamento passou por sua mente de Kaito ficando impressionado com seus métodos de entrada — mas ele afastou a ideia. As coisas com Kaito eram… complicadas.

Focando na transmissão da câmera, Nashi deixou o drone circular a sala, verificando cada canto em busca de alarmes. Uma luz de alarme estendia-se pelo chão como um fio, e Nashi quase riu ao vê-la.

Uma criança poderia ter montado uma armadilha melhor , sua mente cantarolou.

O drone dividiu-se em duas partes: a câmera permaneceu flutuando no ar, mas a metade inferior tomou a forma de uma borboleta de origami. Ela deslizou pela sala, correndo para a porta, e prendeu-se à maçaneta. Suas pernas de metal alcançaram o buraco da fechadura, e Nashi ouviu o clique do lado de fora. Ele abriu a porta, tomando cuidado para passar por cima da luz do alarme, e caminhou em direção ao fundo da sala quando algo o fez hesitar.

Sentada no meio da mesa sem qualquer proteção estava uma pequena garrafa de vidro.

O líquido era de um vermelho profundo e inconfundivelmente metálico. Não havia nada escrito na garrafa, mas as narinas de Nashi dilataram-se quando ele sentiu seu cheiro. A magia era repugnantemente pungente, e o fedor fez seus olhos lacrimejarem. Talvez fosse por isso que não havia guardas aqui.

Nashi não gostava exatamente da ideia de engolir algo tão pútrido, mas se isso o tornasse mais parecido com sua mãe…

Eu poderia ser o que ela sempre quis que eu fosse , o coração de Nashi apertou.

Ele estendeu a mão para a poção — mas sua mão passou direto pelo vidro, como se a garrafa não estivesse lá. He frown, tentando mais uma vez fechar o punho ao redor do elixir, mas não sentiu nada além de ar.

Nashi puxou o braço de volta, e os pelos da nuca se arrepiaram, em alerta. Algo estava errado.

Um estalo soou, e quando Nashi voltou-se para a garrafa, ela havia se estilhaçado no lugar. Os sons vieram em sucessão rápida, vidro quebrando no ritmo do coração acelerado de Nashi, quando ele percebeu que não era apenas a garrafa — a sala inteira estava se estilhaçando. Linhas apareceram em sua visão, cortando o mundo ao seu redor como raios em miniatura. Nashi girou, procurando a porta, mas havia rachaduras lá também. E então — o mundo explodiu.

Nashi colocou as mãos sobre a cabeça e agachou-se, engolindo o grito na garganta. Uma risada profunda transformou seu pânico em terror.

Ele olhou além de seus dedos estendidos, e a sala não era mais feita de um trilhão de pedaços quebrados. Estava inteira, e imóvel — mas onde a garrafa antes estava, havia uma ogra com pele azul-acinzentada e um olhar feroz. Um lado de sua cabeça estava raspado quase até a pele, enquanto o outro ostentava ondas vermelhas selvagens que pareciam crescer em todas as direções. Um par de dentes de animais pontiagudos perfurava suas orelhas pontudas, e um manto carmesim sem mangas expunha as curvas musculares de uma lutadora bem treinada. Mas foi a lanterna de ampulheta pendurada em seu colete que fez Nashi recuar.

Arte de: Ryan Pancoast

"Você é uma maga do tempo", Nashi conseguiu dizer, rouco. Ele rapidamente vasculhou suas memórias em busca de informações sobre os mercenários contratados dos Tiros-Velozes. He não os vira em nenhuma das filmagens de seus drones, mas ele se lembrava de um nome surgindo em mais de uma ocasião. "Obeka."

A mulher mostrou os dentes. "Você sabe quem eu sou, e ainda assim tentou roubar de mim? Ou eu estou perdendo o jeito, ou você tem um desejo de morte."

Nashi levantou-se lentamente. "Olha, isso é tudo apenas um mal-entendido. Eu achei que esta sala estava vazia."

"A segunda parte, eu acredito. Para quem você trabalha?"

"Ninguém", insistiu Nashi.

Obeka inclinou a cabeça para o lado antes de remover o elixir de seu casaco. "É por isso que você veio, não é? Quem está atrás do amplificador? Graywater? As Esporas Infernais?" Ela rangeu os dentes. "Eu sabia que aquelas cobras não aguentariam a competição. Aposto que esperavam que eu pegasse leve com você porque você é uma criança. Que bando de covardes—"

"Eu não sou uma criança", interrompeu Nashi. "And I don't know what you're talking about." Ele observou enquanto Obeka girava a garrafa em seu punho, estudando-o. Sua mente corria em busca de detalhes sobre Tiros-Velozes e magos do tempo e ogros — qualquer coisa que pudesse pensar para lhe dar uma vantagem. Ele tentou manter a voz firme. "Eu vim aqui sozinho."

"Você sabe o que meu empregador faz com ladrões?" Obeka pronunciou suas palavras cuidadosamente, olhos escuros procurando pelo medo nos de Nashi.

Ele olhou para ela. Olhou para a garrafa. Calculou a distância.

Obeka confundiu seus movimentos com pavor e desdenhou. "Tiros-Velozes gostam de se exibir uns para os outros, sabe. Um duelo comum não é suficiente. Precisa de algo especial. Algo chamativo."

"Se não se importa", começou Nashi, tocando um dedo na têmpora, "eu acho que vou passar."

O drone borboleta disparou de cima, colidindo contra o punho de Obeka enquanto arrancava o elixir de suas mãos. Ele mergulhou em direção à ventilação, mal chegando à grade antes de estremecer no lugar — congelado.

Obeka levantou-se, o rosto corado de raiva e o braço estendido. Magia ondulou ao redor de sua mão antes que uma corrente de elos dourados avançasse, puxando o ar como se estivesse trazendo o drone de volta no tempo.

O drone borboleta refez seus movimentos, em curso para entregar o elixir de volta ao punho de Obeka — exatamente como Nashi previra.

Com a atenção de Obeka fixada no drone, Nashi removeu um dos pergaminhos de sua mãe de sua bolsa, os olhos correndo apressadamente sobre a história de um ladrão desaparecendo sob um véu de invisibilidade para escapar. Ele murmurou as palavras, tentando não tropeçar em seus próprios pensamentos, e deixou a magia fluir por ele. He felt it for a moment — observou seu reflexo na parede espelhada enquanto desaparecia de vista — mas o feitiço falhou, assim como na floresta de cactos.

A ondulação de magia foi o suficiente para atrair a atenção de Obeka, mesmo enquanto ela recuperava o elixir e esmagava o drone no chão.

Sua risada era cheia de desdém. "Agora eu entendo. Você realmente estava atrás do amplificador para seus próprios propósitos." Ela guardou a garrafa em seu casaco e estufou o peito. "Você deveria saber que a poção seria desperdiçada em um fracote como você. O elixir não poder, ele o aprimora — e você claramente não tem nada que valha a pena fortalecer."

A raiva de Nashi fluiu por ele. Não importava se ela estava certa; ele precisava se mover, rápido. Ele buscou uma bomba de fumaça e ergueu o braço para jogá-la, quando Obeka lhe deu um soco forte no queixo.

Ele sentiu a dor irradiar por sua mandíbula, seguida pelos tremores violentos que rolavam até o seu âmago. Mas o punho de Obeka estava congelado na frente dele. Rachaduras abriram-se ao redor dele, e mais uma vez, o mundo começou a se despedaçar. Estilhaços de vidro apareceram, cada vez mais rápido até que a explosão despedaçou sua realidade.

Algo puxou o corpo de Nashi, sacudindo-o para trás enquanto ele caía por um túnel de vidro quebrado. O quarto do hotel transformou-se em flashes de imagens que passavam por ele como formas em um caleidoscópio.

Não, não imagens , percebeu Nashi, os olhos arregalados enquanto absorvia os detalhes ao seu redor. Estas são memórias. Minhas memórias.

Quando o rosto de Tamiyo passou borrado por ele, ele lutou contra as restrições invisíveis com toda a energia que lhe restava, soltando-se até se lançar para sua mãe. He was weightless, flutuando em direção à luz e à cor, quando a memória o cercou.

Uma versão muito mais jovem de Nashi estava na porta da biblioteca de sua mãe, observando-a ler seus pergaminhos. Em suas mãos estava um pequeno dispositivo. Algo que ele fizera com parafusos, fios sobressalentes e um chip reaproveitado de um drone de superfície. Ele chilreava como um pássaro e respondia a comandos manuais. Nashi esperava que sua mãe gostasse. Ela sempre fora fã de pássaros.

Mas quanto mais Nashi observava sua mãe, mais começava a duvidar de si mesmo. He wouldn't get her approval with toys he patched together with recycled parts. Ele precisava estudar. Praticar magia de história.

Ele precisava ser exatamente como sua mãe.

Nashi guardou o pequeno dispositivo no bolso da camisa, os ombros caídos de dúvida, quando Tamiyo virou-se para encará-lo. She didn't ask any questions; a princípio, não disse nada. Apenas observou Nashi com olhos curiosos, da mesma forma que estudava as pessoas cujas histórias ela registrava.

Depois de um momento, ela deixou seus pergaminhos e puxou Nashi para seus braços. "Nunca esconda quem você é, Nashi. Nem de mim, nem do mundo."

A voz de Nashi era tímida. "Eu não quero ser diferente de você. Eu quero que sejamos iguais."

Tamiyo inclinou a cabeça. "Somos família. Você é meu filho. A parte do meu coração que ama você sempre será igual à parte do seu coração que ama a mim. Dessa forma, seremos sempre os mesmos." Ela segurou o rosto dele, passando os dedos por suas bochechas. "Mas não precisamos ser iguais para eu ter orgulho de você. Você é o Nashi . É de quem eu tenho orgulho. Nunca se esqueça disso. Nunca se esqueça de quem você é."

A memória dissolveu-se. Nashi piscou, a cabeça girando e a mandíbula latejando, e levantou-se do chão acarpetado. Estava de volta ao quarto do hotel, mas Obeka já havia desaparecido com o amplificador. He had no idea how long he'd been unconscious, ou quão longe em suas memórias Obeka o enviara. Mas o calor da lembrança fervilhava na vanguarda de sua mente.

Obeka não tivera a intenção, mas fizera um favor a ele.

Quando Nashi recuperou a compostura e seguiu de volta pelo hotel, ele sabia exatamente o que precisava fazer a seguir.

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Uma coleção de drones semi-construídos estava espalhada pela mesa de Nashi. Sua sobrancelha tremia enquanto trabalhava, os olhos focados no pino de canto de um microchip. Ele pressionou a ponta de um ferro de solda contra ele, e o chiado do calor causou uma onda de nostalgia. Havia algo confortante no cheiro de metal queimado.

Isso o lembrava de casa.

Quando Nashi terminou as modificações, ele acessou todas as gravações holográficas dos discos de armazenamento. He watched the surveillance feeds he'd gathered from across Thunder Junction, examinando cada quadro, procurando o que precisava.

Quando ele se imaginou de volta ao estúdio de sua mãe, estudando os drones da mesma forma que ela estudava seus pergaminhos, sentiu um pedaço de seu coração se encaixar no lugar.

Afinal, nunca fomos tão diferentes , pensou, e o alívio fez sua garganta apertar.

Nashi trabalhou durante a noite, selecionando um conjunto de gravações holográficas e transferindo-as para seus drones individuais. Quando o sol nasceu sobre o deserto e a luz cintilou através da vidraça empoeirada, ele recostou-se na cadeira e pressionou o dispositivo em sua têmpora.

A magia eriçou-se na ponta de seus dedos, mais naturalmente do que nunca. Não houve esforço. Nenhuma luta por controle. O poder canalizava-se através dele como uma extensão de seu próprio ser. Pela primeira vez em meses, ele sentia-se como ele mesmo.

Sempre fora o suficiente para sua mãe — agora, seria o suficiente para ele também.

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Nashi estava do lado de fora do Voyager Grande pela segunda vez. Cinco drones circulavam ao redor dele, tomando a forma de pequenos pássaros de origami. Os favoritos de sua mãe.

Ele não usava chapéu nem manto. Trouxe apenas a si mesmo, e a verdade em seu coração.

Nashi pegou o elevador até o último andar do hotel, moveu-se cuidadosamente pelos corredores e parou em frente a uma porta que lhe era muito familiar. Quando destrancou a porta com um de seus dispositivos, não esperou por um convite.

Obeka estava sentada na cadeira atrás da mesa, com as pernas em cima da mesa. Atrás dela, o elixir estava em uma das vitrines de vidro.

Ela franziu a testa ao ver a porta aberta, mas seus olhos não focaram em Nashi. Não até que ele deixasse o feitiço de invisibilidade desaparecer.

Levou apenas um momento para ela reconhecê-lo e, quando o fez, sua boca curvou-se para o lado. "Sério, garoto? Eu sei que deixei você viver, mas ficou fortemente implícito que eu não queria te ver de novo."

"Ficou", concordou Nashi. "Mas de que outra forma eu iria te agradecer?"

Obeka cruzou os braços sobre o peito e riu. "Não é a reação usual que recebo depois de socar as pessoas para o passado."

Nashi deu um passo à frente. "Você me mostrou uma memória. Isso me ajudou a perceber o que eu estive perdendo todo esse tempo."

"Bom senso? Instintos de sobrevivência?"

Nashi abriu um sorriso. "Não. Bem, talvez um pouco. Mas eu estava tão ocupado tentando ser como minha mãe, que esqueci de abraçar quem eu sempre fui em meu âmago."

Obeka pressionou os punhos na mesa, amassando a superfície de madeira. "E quem seria esse?"

Nashi guiou um de seus drones à frente, e um holograma apareceu de sua câmera. Video footage from the night Obeka punched him. O áudio estava distorcido e truncado, mas a imagem era perfeita. Precisa.

Nashi assistiu à filmagem ao lado de Obeka, não prestando atenção à reação dela enquanto o Nashi no holograma alcançava uma poção que na verdade não estava lá.

Obeka bufou. "Então, você é um garoto que foi enganado pela minha ilusão temporal. É isso que você veio me dizer?"

Nashi balançou a cabeça antes de desaparecer de vista. Obeka assustou-se, piscando furiosamente enquanto seus olhos percorriam a sala, quando percebeu que a vitrine de vidro estava escancarada.

Quando a voz de Nashi soou mais uma vez no meio da sala, ela girou para encará-lo.

He gripped the elixir in his hand and shrugged. "Eu não sou muito de contar histórias — mas eu sei como operar uma câmera."

Os olhos de Obeka brilharam de raiva, e ela lançou-se sobre Nashi antes de atravessá-lo direto e cair no chão. "O que você fez?"

Da moldura da janela aberta, Nashi observou Obeka golpear mais uma vez sua própria ilusão temporal, copiada da magia gravada de Obeka. Era um feitiço útil de se ter — e descobriu-se que a magia de história era muito mais fácil de controlar depois que ele trocou pergaminhos por filmagens de vigilância. Ele sorriu antes de segurar firme na parede externa e subir para o telhado, fora de vista.

Nashi caminhou pelo topo do telhado e pressionou um dedo na têmpora, convocando seus drones de volta. Eles moviam-se em uma órbita lenta ao seu redor, seguindo enquanto ele escalava a próxima parede e voltava para a multidão abaixo. Ele puxou o capuz, cobrindo o rosto em sombras.

"Você conseguiu", veio a voz de Tamiyo em um sussurro. "Exatamente como eu sabia que conseguiria."

Hoje, ele celebraria; amanhã, ele deixaria sua mãe orgulhosa. Havia novos planos para visitar, histórias para descobrir e magia para registrar — e Nashi estava pronto para tudo isso. So long as she was at his side, nothing could stand in his way.

Episódio 4: Encontrando a Perdição

Faziam horas que a equipe de Oko havia escapado da Companhia de Sterling, mas Kellan não conseguia parar de se inquietar. Ele enfiou as mãos nos bolsos forrados de lã, os joelhos balançando com ansiedade. Uma panela de ensopado fervia sobre a fogueira à sua frente, cada chama lançando sombras contra o paredão de rocha próximo.

O Exilado estava sentado à distância, guardado por Kaervek e Rakdos. Seu casaco era feito de camadas de pele, musgo e armadura de cacto, e seu bigode ralo se enrolava em todas as direções. Um pano grosso cobria seus olhos, e suas mãos estavam amarradas com cordas — não que ele precisasse de qualquer um dos dois. Os encantos de Eriette o deixaram quase eufórico e, sem ajuda externa, não havia para onde Nolan correr.

Os Exilados eram eremitas notórios. Se alguém viesse procurá-lo, seria mais provável que fosse um bando de coiotes, um bando de abutres ou uma onça particularmente leal. Mas com a visão de Annie e a habilidade de Malcolm de patrulhar o céu, eles veriam o perigo chegando a quilômetros de distância. Não havia com o que se preocupar.

E ainda assim...

Kellan cravou as unhas nas palmas das mãos. Oko havia roubado Bertram Graywater — duas vezes — o que tornava todos em sua equipe um alvo. Não apenas para a Companhia de Sterling, mas para quaisquer foras da lei que esperassem lucrar com a recompensa que inevitavelmente seria colocada sobre suas cabeças. O pensamento de ser um criminoso procurado fazia o estômago de Kellan revirar.

Uma colher de madeira caiu no ensopado, fazendo-o pular. Breeches pegou uma porção em uma tigela de estanho, distraído demais para notar que Tinybones estava atrás dele, vasculhando os bolsos de seu casaco em busca de um frasco. Quando o encontrou, ele abriu a tampa e virou o conteúdo. Um líquido âmbar escorreu por sua caixa torácica, empoçando nos pés de Breeches.

Breeches rosnou em alarme, derramando seu ensopado no processo. Suas narinas dilataram e as garras do goblin se flexionaram com raiva. Ele correu atrás de Tinybones, cujos ossos deram um estremecimento jovial enquanto ele saltava sobre as rochas.

O uivo abafado de Umezawa ecoou pela encosta protegida. "O que está demorando tanto? Minha avó poderia costurar uma colcha mais rápido do que isso!"

Geralf resmungou, olhos fixos em concentração. Seus dedos dançavam sobre o ferimento de Umezawa como se estivessem enfiando uma agulha invisível. "Tecer a carne de volta é uma forma de arte. Agora, fique parado."

Umezawa rangeu os dentes. "Você está gostando demais disso."

"Não sei o que você quer dizer", respondeu Geralf, mas o arrebatamento em seus olhos era inegável.

Gisa fingiu angústia. "Você está torturando o pobre homem. E nem de um jeito divertido!" Ela se inclinou em direção a Umezawa, a voz tornando-se melodiosa. "Eu posso levar toda a sua dor embora."

Geralf revirou os olhos, enxotando-a com a mão. "O objetivo é curá-lo, não matá-lo."

Outro ponto atravessou a pele de Umezawa, e ele fechou os olhos com força. "Se eu desmaiar, não deixe sua irmã chegar nem perto de mim."

Gisa fez um biquinho com o lábio inferior.

Uma brisa passou pelas colinas, fazendo o fogo estremecer. Sombras se acumularam atrás de Kellan, e ele se virou para ver Ashiok indo em direção ao Exilado.

Ashiok ergueu as mãos acima da cabeça do Exilado, pescando segredos com a isca da magia. Seus dedos se moviam lentos e deliberados. Memórias foram arrancadas da mente de Nolan, deixando rastros de fios prateados no ar.

Arte de: Miranda Meeks

A pele de Kellan formigou de preocupação.

"Não se preocupe", disse Oko. Ele se sentou ao lado de Kellan, inclinando-se para trás até que a luz do fogo escorresse por suas feições aguçadas. "Ashiok é perfeitamente capaz de obter as respostas de que precisamos sem machucá-lo."

Kellan cravou os calcanhares no chão. Há quanto tempo seu pai o estava observando?

"Eu não concordei com isso", disse ele. "Você prometeu que nenhum inocente se machucaria. E só porque ele foi encantado não significa que não esteja com medo. Ashiok não é alguém em quem você — ou qualquer pessoa — deveria confiar." Ele olhou de relance para Ashiok, estremecendo com a lembrança de seu confronto em Eldraine. Mas, por parte de Ashiok, eles mal pareciam notar que Kellan estava lá.

"Não é minha culpa que o plano deu errado. E o Exilado sabia no que estava se metendo quando concordou em ajudar Graywater. Se ele não queria problemas, não deveria ter caminhado em direção a eles."

"Ele estava cercado por guardas armados. Pelo que sabemos, ele estava naquele trem sob coação", argumentou Kellan. "Não tenho certeza se ele teve escolha."

Os olhos de Oko brilharam. "É assim que você se sente? Como se não tivesse escolha?"

O sangue subiu à cabeça de Kellan, fazendo suas bochechas escurecerem. "Eu — eu nunca disse isso."

O desafio no olhar de Oko desapareceu como se nunca tivesse existido. Ele sorriu e apertou o ombro de Kellan. "Todos saíram daquele trem. Você pode pensar que deixei aquelas pessoas para trás, mas eu sabia que você daria conta — você é meu filho e eu confio em você."

A tensão não abandonou Kellan, mesmo quando Oko afastou a mão. Ele queria acreditar em seu pai. Ele queria sua aprovação. Mas ele vira o rosto de Oko no trem. Oko não acreditara nele; ele estivera pronto para abandoná-lo.

Talvez tenha sido apenas um mal-entendido, os pensamentos de Kellan se agitaram, esperançosos. Ele é seu pai. Mesmo que quisesse deixar aquelas pessoas, ele não teria deixado você.

Fitas semelhantes a fumaça rastejaram sobre a areia, e Kellan saltou de pé abruptamente. Ashiok esperava com as mãos cruzadas, sombras escorrendo de seus chifres.

Oko levantou-se, faminto por informações. "O que você encontrou?"

Ashiok inclinou a cabeça, lábios franzidos. "O artefato é uma chave, exatamente como pensávamos. Mas é uma de seis."

Oko passou o dedo pela testa. Kellan percebeu que era um sinal, algo que ele fazia para esconder sua frustração. "Onde estão as outras?"

"Akul tem as outras cinco. Ele as usa em um medalhão em volta do pescoço", explicou Ashiok, e a equipe próxima murmurou seu descontentamento. "Mas há algo mais que encontrei na mente do Exilado. Um mapa para a Perdição existe — e está enterrado na Tolice do Ladrão."

Do outro lado da fogueira, Gisa guinchou de deleite.

"Você já ouviu falar?" Oko perguntou, perplexo.

Geralf cantarolou acima do ferimento que desaparecia de Umezawa, terminando a última costura. "É um cemitério de garimpeiros."

Gisa mostrou os dentes, os olhos brilhando com uma fome venenosa. "Tantos ossos. Tantos cadáveres lindos para desenterrar."

Oko estudou cada membro da equipe antes de pousar nos irmãos necromantes. "Vocês dois estão prontos para uma pequena missão paralela?"

Gisa bateu as palmas das mãos ansiosamente, e Geralf deu um aceno curto.

"Conversaremos quando voltarmos ao salão." Oko virou-se para Tinybones, que estava ocupado servindo-se de uma porção de ensopado; ele pingava pelo oco de sua caixa torácica. "Você pode chamar Annie e Malcolm? Quanto antes sairmos daqui, melhor."

Os outros começaram a arrumar seus equipamentos, quando as palavras de Kellan explodiram dele, importantes demais para serem contidas. "E quanto a Nolan?"

"O que tem ele?" Oko perguntou, mal encontrando seu olhar.

Kellan ergueu os ombros, tímido. "Bem — quero dizer — alguém vai levá-lo para casa?"

Alguns dos outros riram.

Oko arqueou uma sobrancelha, como se Kellan fosse um tipo estranho de curiosidade. "Ele é um Exilado. Eles prosperam na natureza."

"Mas não podemos simplesmente deixá-lo aqui", Kellan deixou escapar. "Cerdadura está a dias de distância. E ele não tem suprimentos, ou água, ou —"

Ashiok deu um passo à frente, sombras rugindo pelo chão do deserto como se estivessem sendo testadas. "Você teme pela vida dele." Não era uma pergunta.

Kellan abriu a boca, mas as palavras estavam emaranhadas demais para serem organizadas.

"Não tema", disse Ashiok, curvando suas longas garras. "Não desejo a morte do homem."

"Que maravilha ver que estamos todos em sintonia", disse Oko com um toque de irritação.

A voz de Annie soou da escuridão. "Eu posso ir com Kellan e escoltar o Exilado até o oásis mais próximo. Tenho certeza de que ele conseguirá voltar para casa de lá."

Kellan sorriu debilmente em agradecimento.

A boca de Oko se contraiu. "Tenho certeza de que você sabe o quão importante é para a missão que você não seja pego — ou seguido."

Annie assentiu. "Ficaremos fora de vista."

Kellan a seguiu para longe da fogueira. Quando teve certeza de que o resto da equipe estava fora de alcance, disse: "Essa é a segunda vez que você me ajuda. Obrigado."

Annie não respondeu. Ela continuou pelo caminho e estalou a língua contra o céu da boca, chamando a atenção de Fortune. Ele saiu da brisa noturna, o corpo relaxado de uma forma que demonstrava confiança.

"O que fez você se juntar ao Oko?" Kellan perguntou.

"Foi o menor de dois males."

Ele não sabia se ela estava brincando ou não. "Você não confia nele?"

Annie estremeceu. "Confiança é para favores. Isso é um trabalho — e creio que não confio em ninguém que contrata foras da lei para fazer seu trabalho sujo."

Kellan olhou para o chão. "Eu não tinha certeza se você era uma fora da lei, para ser sincero. Você não parece com os outros. Eu pensei — bem, eu não sei."

"Que eu era mais parecida com você?"

Kellan não respondeu.

Ela balançou a cabeça como se estivesse tentando se livrar de uma lembrança. "Há algum tempo, eu estava com os Trilheiros Livres. Cometemos o erro de roubar Akul e as Esporas Infernais. Ele nos rastreou por semanas, implacavelmente. Perdemos pessoas boas por causa disso. E quando tentamos fazer um acordo e devolver o que roubamos, meu sobrinho ficou gravemente ferido durante a troca. Mal escapamos. Depois disso, meu sobrinho nunca mais foi o mesmo. Ele voltou para se juntar ao nosso povo não faz muito tempo." Seus olhos endureceram. "Nunca foi o plano de Akul nos deixar ir. Nem tenho certeza se ele se importava muito com o que roubamos. Ele só queria sangue — e usou nossa confiança para consegui-lo.

"Não estou dizendo que sou melhor do que a equipe ao redor daquela fogueira. Eu sei o que sou e o que fiz. Mas Akul — ele é um tipo diferente de fora da lei. O pior tipo. Não quero ver ninguém ferido como meu sobrinho foi. Se realmente houver poder naquele cofre, e Akul colocar as mãos nele?" Sua expressão endurece. "Não posso deixar isso acontecer."

Kellan olhou para a fogueira ao longe, observando seu pai imerso em uma conversa com Vraska e Ashiok.

O pior tipo de fora da lei...

Seus olhos permaneceram fixos em Oko tempo suficiente para Annie notar.

"Família é difícil — de sangue ou não", disse ela baixinho. "Nem sempre é fácil conhecer o coração de alguém. Mas, na minha experiência?" Ela deu de ombros. "O tempo ajuda, mas um pressentimento sempre vale a pena ser ouvido."

Kellan piscou para afastar o constrangimento.

Annie pegou as rédeas de Fortune. "Creio que já chega de histórias por hoje. Que tal buscarmos o Exilado e colocá-lo na trilha de casa?"

Eles foram até Nolan e o ajudaram a subir na sela antes de seguir pelo caminho sinuoso encosta abaixo. Kellan voou ao lado deles, cuidadoso para não ficar para trás. Embora quisesse dar uma última olhada na fogueira, não o fez.

Ele estava preocupado demais em encontrar seu pai o observando — e que tudo o que visse fosse dúvida.

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As portas do salão se abriram com estrondo, e Gisa e Geralf entraram meio cambaleantes na sala, olhos arregalados de delírio. Eles deram alguns passos para dentro, as botas batendo pesadamente contra as tábuas do chão. A luz acima incidiu sobre seus rostos, exibindo uma mistura de hematomas frescos e cortes ensanguentados.

Geralf puxou a tira de couro em volta do olho, certificando-se de que estava reta. Gisa passou a mão pelo cabelo desalinhado e cheio de nós.

"Bem-vindos de volta", anunciou Oko, encostado na borda do bar. "Vejo que a Tolice do Ladrão foi gentil com vocês dois."

Geralf mexeu no sangue seco sob as unhas. "Prefiro não falar sobre isso."

Gisa soprou a areia que cobria seus braceletes de couro, e uma pequena nuvem de poeira apareceu na sua frente. Ela fez uma careta.

Seu irmão removeu um pedaço de pergaminho enrolado de seu casaco e o segurou para que Oko o pegasse. "Acredito que isso seja o que você procurava."

Oko estendeu o mapa sobre o balcão, deliciando-se com a visão de cada marcação estranha.

Ele finalmente o tinha — o caminho para a Perdição e Maag Taranau.

"Isso é o que eu penso que é?" Vraska perguntou. Ela se afastou das sombras ondulantes de Ashiok e se inclinou sobre o balcão. "Então — o cofre flutua acima da cidade."

Os pensamentos de Oko já estavam entrando em foco total. "O cofre não importa se não conseguirmos as chaves. E para conseguir o medalhão, precisamos estar na mesma sala que Akul." Ele olhou para cima, procurando por Annie, e a encontrou sentada com Kellan em uma das mesas distantes. Eles estavam quase inseparáveis desde o incidente no trem.

A expressão de Oko azedou. Ele não era contra sua equipe se tornar amigável — mas era mais fácil controlar as pessoas quando ele sabia onde elas estavam. A amizade crescente de Kellan poderia ser um problema. Ele não gostava disso. Não confiava nisso.

Ele fingiu um sorriso de qualquer maneira. "Annie — você reconheceria as Esporas Infernais do círculo interno de Akul, correto?"

Ela bateu com a unha na garrafa de vidro. "Suponho que sim."

"Se rastreássemos um deles na Perdição, você também supõe que eles nos levariam até onde quer que seja o quartel-general de Akul?"

"Talvez. Mas você não pode simplesmente entrar na Perdição como se fosse um destino de férias", disse Annie. "Há uma razão para apenas as Esporas Infernais saberem como encontrar a cidade. Eles não deixam forasteiros entrarem — e certamente não os deixariam sair."

"Todos somos capazes de desempenhar nossos papéis", rebateu Oko. "Se nos vestirmos como Esporas Infernais e mantivermos um perfil baixo, podemos nos esconder em plena vista."

"Não tenho certeza se nossa equipe é exatamente de perfil baixo", disse Annie. "Temos um demônio gigante e um esqueleto, para começar. Nenhuma quantidade de trajes de Espora Infernal vai fazê-los se misturar."

"Vamos dividir a equipe e levar um pequeno grupo de quatro para a cidade", disse Oko, como se a solução fosse simples. "Todos os outros podem esperar fora da Perdição até que estejamos prontos para abrir o cofre."

"Conte comigo", disse Vraska.

"Perfeito", concordou Oko. "Annie — você também está conosco."

Ela virou o resto de sua garrafa em sinal de reconhecimento.

Oko sabia quem deveria ser o quarto. Ele sabia antes mesmo de os necromantes trazerem o mapa de volta.

Mas ele prolongou a espera, o olhar movendo-se de um membro da equipe para o outro.

"Kellan", disse ele finalmente.

O choque no rosto de seu filho era nítido. "Você quer a minha ajuda?"

"Preciso de você comigo. Você tem habilidades que serão úteis na Perdição", disse Oko. "Especialmente quando encontrarmos Akul."

Kellan mordeu o canto do lábio, mas o que quer que estivesse pesando em sua consciência não importava. Oko havia colocado Kellan como um jogador necessário; e Kellan não decepcionaria seu pai.

O garoto assentiu. "Tudo bem. Eu farei isso."

Oko fingiu gratidão, mas não ficou nem um pouco surpreso. Kellan ansiava por sua atenção. Ele queria aceitação. Adulação, ao que parecia, era a chave para manter seu filho ao seu lado.

Arte de: Fariba Khamseh

Ele precisava da ajuda do garoto, em mais formas do que estava preparado para explicar. E Kellan estava disposto a ajudá-lo, livremente e sem questionar, tudo porque Oko era da família. Um estranho em quase todos os sentidos, exceto pelo sangue — mas para Kellan, isso era o suficiente. Esse tipo de lealdade? Era a única coisa pela qual Oko estava grato. Ele só precisava ter certeza de que duraria.

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Uma rocha enorme com bordas afiadas e irregulares pairava no céu. Nuvens giravam ao redor do pináculo mais alto como se capturadas em sua órbita, enquanto a lava fluía da borda, acumulando-se nos rios retorcidos que se moviam pela Perdição. Ela deixava uma tonalidade furiosa em cada superfície, brilhando como as brasas de uma fogueira recém-nascida.

Maag Taranau. O cofre.

Um labirinto de fundações de rocha deformada serpenteava pela cidade abaixo, cercada por um cânion circular. Edifícios feitos de rocha de lava solidificada e pedaços de madeira afiados estavam por toda parte, e ossos de animais emolduravam muitas das portas e janelas, iluminados pelas lanternas coloridas escondidas lá dentro.

Kellan ajustou o chapéu, mantendo-se longe dos finos veios de lava derretida que corriam para a rua. Havia fumaça por toda parte — e mais Esporas Infernais do que ele podia contar.

Na clareira à sua esquerda, um duelo de rua estava acontecendo. Duas montanhosas Esporas Infernais golpeavam uma à outra com um par de machados. As bordas brilhavam com remanescentes de trovão, lançando faíscas toda vez que as lâminas colidiam. Uma pequena multidão zombava e rugia e, quando um dos machados atingiu o peito do outro homem, os espectadores ergueram os braços em triunfo. Kellan sentiu-se mal quando eles arrastaram o corpo em direção a um enorme poço de fogo e rolaram o cadáver sobre as brasas quentes.

"Uma prática comum aqui para resolver disputas. Mais civilizado do que matar a família inteira de alguém, suponho", disse Oko, notando o olhar de Kellan. Ele deu um assobio despreocupado e acenou em direção a uma porta de salão brilhando com bordas carbonizadas. Ele havia se transformado em uma versão humana e robusta de si mesmo que se misturava perfeitamente com o resto da equipe de Akul, e seu peito estava coberto por uma exibição elaborada de armadura de osso.

Eles já haviam visitado três outros salões, mas até agora não havia sinal de ninguém do círculo interno das Esporas Infernais. Próxima dali, Annie ajustou a bandana preta que cobria a metade inferior de seu rosto. Kellan se perguntou se ela tinha medo de ser reconhecida ou de finalmente enfrentar as pessoas que haviam ferido seu sobrinho há tanto tempo.

Quando Annie, Oko e Vraska atravessaram as portas, Kellan respirou silenciosamente, contou até cinco e fez o mesmo.

O teto se curvava como o interior de um barril. Tudo cheirava a metal e frutas azedas, fazendo Kellan recuar. Ele seguiu o olhar de Annie até uma mulher sentada no bar. Ela usava uma espaldeira de ferro forjado com pontas, cada ponta matizada com brasas em brasa. O resto de suas roupas era de material bordô, desfiado em cada borda, com uma pequena pistola de trovão e uma machadinha enfiadas em seu cinto. A fumaça irradiava de sua pele, como se ela estivesse pronta para pegar fogo a qualquer momento.

Annie ficou rígida, a voz quase inaudível. "Aquela é Twist Fandango. Uma da equipe de Akul."

Oko deu um breve aceno enquanto passava por Annie em direção ao bar, com Vraska ocupando o assento vazio ao seu lado. Annie recuou para o canto da sala, colocando o máximo de espaço possível entre ela e a Espora Infernal.

Kellan passou a mão pela capa, evitando as bordas queimadas. Ele se sentia como um impostor. Um espantalho entre soldados. Mas, acima de tudo, ele apenas esperava que nenhuma das Esporas Infernais notasse.

Kellan encontrou uma cabine nos fundos e sentou-se, com as mãos inquietas sob a mesa. Do outro lado da sala, Oko estava ocupado entabulando uma conversa com o barman, como se fingir ser outra pessoa fosse a coisa mais fácil do mundo.

"Esta mesa não é sua", latiu uma voz áspera.

Kellan olhou para cima e encontrou três Esporas Infernais o encarando. O que falou tinha a pele que queimava como lava; os outros dois usavam placas de ferro que cobriam tudo, exceto seus cabelos flamejantes.

"Eu — sinto muito", gaguejou Kellan. Ele tentou se levantar, mas a Espora Infernal de pele de lava o empurrou de volta para baixo.

"Você sente muito?" ele repetiu, mostrando os dentes afiados. "Você não aprendeu esses modos na Perdição. Creio que você nem deveria estar aqui." Ele sacou uma pistola de trovão de aparência pesada e a apontou para o peito de Kellan.

"Estou apenas aqui para encontrar alguém!" Kellan disse rapidamente, tropeçando em cada palavra. "Eles têm informações de que preciso sobre um trabalho."

O trio deu gargalhadas.

"Nenhuma Espora Infernal confiaria em você nem sequer com uma brasa, garoto", o homem cuspiu. "Ou alguém te arrastou para cá para te esfolar, ou você está me servindo uma fabricação."

Kellan ergueu as mãos. "Eu não quero problemas!"

As risadas continuaram, ainda mais barulhentas desta vez, e Kellan aproveitou a oportunidade para deslizar para fora da cabine. Ele deu três passos antes que uma das Esporas Infernais o empurrasse ao chão, batendo seu rosto contra as tábuas de madeira com um estalo. Quando ele pressionou os lábios, sentiu o gosto de sangue.

"Levante-se, covarde", rosnou a Espora Infernal. "Eu estou apenas começando."

As esporas de Oko pararam com um tilintar, bloqueando a linha de visão de Kellan. "Deixe o garoto em paz."

Kellan se levantou trêmulo, o alívio dando um nó em sua garganta.

A Espora Infernal estreitou os olhos. "Ele não é uma Espora Infernal — e isso não é da sua conta."

Oko não se moveu. "Ele diz que está aqui por um trabalho, certo? Pelo que você sabe, Akul foi quem o mandou chamar."

O homem bufou. "Akul poderia partir este nanico ao meio sem nem tentar. Ele contrataria um camundongo de campo antes de contratar este saco de gravetos."

A boca de Oko se contraiu, provocadora. "Você está disposto a arriscar descobrir qual de nós está errado?"

As três Esporas Infernais se entreolharam, hesitantes.

Oko empurrou Kellan para o lado, removendo-o do caminho da Espora Infernal. "Deixe-o lidar com quem quer que o tenha convidado para cá, para que o resto de nós possa beber em paz."

O fogo ardia nos olhos do homem. Ele deu um passo à frente. "O que você vai fazer sobre isso?"

As duas Esporas Infernais de máscara de ferro sacaram suas lâminas.

"Três contra um?" Oko resmungou. "Quem é o covarde agora?"

A Espora Infernal riu, baixo e profundo, antes de lançar seu punho maciço em direção à cabeça de Oko. Oko se esquivou, errando o golpe por uma polegada, e bateu o cotovelo contra o pescoço do homem.

O salão explodiu em caos, e os músicos no canto aceleraram o ritmo de sua giga louca. Vidro se estilhaçou, o trovão explodiu e Kellan cobriu o rosto, atordoado demais para se mover. Seus ouvidos zuniam, o olhar processando seu pai e Vraska, cada um desferindo golpes em cada Espora Infernal ao redor deles.

Vraska era rápida, golpeando cada Espora Infernal com um longo sabre antes que eles tivessem a chance de virar suas armas contra ela. Quando um dos agressores de máscara de ferro investiu, Vraska esmagou a coronha de uma pistola de trovão contra o rosto dele, derrubando sua máscara ao chão. Ela pressionou a bota contra o pescoço dele, prendendo-o ao chão — e usou seu olhar para transformá-lo em pedra.

Algumas das outras Esporas Infernais recuaram alarmadas, mas a maioria viu isso apenas como combustível para um fogo maior. Eles rugiram, descarregando seus disparadores de trovão pelo salão, reduzindo o bar em forma de caveira a pedaços.

Oko se transformava de uma Espora Infernal para a próxima, causando confusão enquanto alternava entre desferir socos e se transformar em cada Espora Infernal vizinha. Nenhum deles olhava muito de perto antes de desferir um golpe contra a mandíbula mais próxima.

Kellan flexionou as mãos, pronto para invocar duas espadas de energia, quando Annie agarrou seu braço.

"Não!" ela argumentou. "Precisamos ir atrás da Twist. Se ela escapar, talvez não tenhamos a chance de encontrar Akul novamente." Ela gesticulou para as janelas do salão, que estavam escancaradas.

"Não posso deixá-lo", disse Kellan, firme.

Os olhos de Annie brilharam. "Ele não diria que a missão vem primeiro?"

"Eu o procurei por tanto tempo. Não vou deixá-lo agora!" Kellan disse e lançou uma vinha dourada em direção à Espora Infernal cujo machado estava erguido sobre a silhueta desprevenida de Oko, arremessando-a através da sala.

Oko se virou, olhos arregalados, quando uma explosão de trovão estourou pelas portas do salão, enviando madeira estilhaçada em todas as direções. Twist Fandango estava sob o batente, o cabelo ondulando com chamas. Atrás dela estavam meia dúzia de estranhos armados. Não apenas Esporas Infernais — mas o círculo interno de Akul.

Um deles agarrou Kellan antes que ele tivesse a chance de reagir, prendendo um par de algemas de ferro em seus pulsos. Ele respirou fundo antes de perceber que sua magia fora subjugada. Quando procurou Oko, Annie e Vraska na sala, todos também haviam sido dominados.

Kellan sentiu o estômago afundar quando a percepção o atingiu: ninguém viria buscá-los. O resto da equipe saberia que não deveria invadir a Perdição em uma missão de resgate. Eles eram criminosos contratados, não amigos. Twist deu um passo à frente e zombou, segurando sua machadinha contra a garganta de Oko. Ele resmungou enquanto algo chiava contra sua pele, forçando sua ilusão a desaparecer.

"Então, você é a fada de quem tanto ouvimos falar", disse Twist, arrastando as palavras como um veneno lento. "Alguém que eu conheço está muito ansioso para conhecê-lo."

"Eu adoro meus fãs", Oko conseguiu dizer entre respirações forçadas enquanto as duas Esporas Infernais que o seguravam apertavam o cerco.

Twist virou-se para os outros. "Amarrem-nos — eles vêm conosco. Akul quer lidar pessoalmente com esses invasores."

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Os dedos dos pés de Kellan roçavam o chão enquanto ele lutava para manter o equilíbrio. Seus braços estavam erguidos acima da cabeça, acorrentados às vigas ao lado do resto da equipe.

"Por favor, diga-me que há uma segunda parte no seu plano", Vraska sibilou entre os dentes, balançando sob as correntes. "Ou, pelo menos, um plano reserva."

Oko olhou para o único raio de sol que espiava pelo teto alto e apertou os olhos. A prisão era uma cúpula enorme, repleta de pedaços de rocha esmagados. "Parece uma antiga pedreira."

"É", disse Annie secamente. "O que significa que estamos no nível mais baixo possível. Mesmo que consigamos nos livrar dessas algemas, teríamos que abrir caminho para fora da cidade inteira."

Vraska balançou a cabeça. "Eu te disse que trazer o garoto era uma má ideia. Um coelhinho teria sido uma Espora Infernal mais convincente do que ele."

Kellan abriu a boca para se desculpar quando a sala estremeceu, enviando poeira pelas paredes. Passos ecoaram pela porta aberta. O próprio Akul entrou pela névoa escura, de cabeça baixa e garras raspando o chão rochoso. Sua equipe preencheu o espaço atrás dele, faminta por entretenimento.

Akul estudou cada um dos prisioneiros pendurados, os olhos dourados examinando seus rostos, até que o reconhecimento o atingiu.

"Annie Flash." Um rugido baixo soou do fundo de seu peito. "Eu me perguntava quando nossos caminhos se cruzariam novamente. Como vai aquele seu sobrinho?"

A raiva no rosto de Annie dizia tudo o que ela não podia.

Um rugido baixo emergiu da garganta de Akul. "Vou admitir isso a ele — ele é um garoto durão. Já vi bastardos com o dobro do tamanho dele morrerem depois de uma de minhas picadas." O dragão voltou sua atenção para Oko, vapor quente irrompendo de suas narinas. "Você tem algo que me pertence."

Oko gesticulou para as correntes. "Solte-me e eu pegarei para você."

Akul soltou um rosnado gutural. Ele segurou uma garra contra o pescoço de Oko, parando antes de tirar sangue, e a arrastou lentamente até o coração. "Achei que teria que arrancar a verdade de você — mas você trouxe a chave direto para a minha porta." Ele enfiou a mão no colete revestido de ossos de Oko e puxou o artefato.

Oko cerrou a mandíbula, observando enquanto Akul alcançava a corrente em volta de seu pescoço. Um medalhão estava pendurado no centro, com cinco pontas projetando-se das laterais em alturas desiguais. No centro havia uma escultura estranha com seis cúpulas de vidro, todas iluminadas com uma cor diferente, exceto por uma.

Akul encaixou a sexta chave no medalhão, e as bordas se transformaram em outra ponta. A cúpula final de vidro tornou-se de um violeta iridescente. O medalhão clicou e se moveu, girando no lugar até que as pontas revelassem um padrão.

Os olhos de Kellan se arregalaram. Não eram seis chaves — eram seis pedaços de uma chave.

E agora elas estavam unidas.

Akul rugiu, e um brilho vindo do fundo de seu interior iluminou cada escama em seu peito, como um relâmpago distante em uma nuvem de tempestade escura. Faíscas estalaram por todo o seu corpo, e ele estendeu as garras.

Oko não tirara os olhos do dragão. "Suponho que você não tenha intenção de nos deixar ir?"

A voz de Akul era letal. "Se eu fizesse isso, não teria o prazer de ver você sofrer — e pretendo levar o meu tempo."

Os olhos de Kellan percorreram a sala, frenéticos. Annie parecia que ia passar mal, seu pai e Vraska...

Não. Não posso deixar que isso seja minha culpa. Não posso deixá-los sofrer por minha causa.

Ele pensou na batalha que vira nas ruas — o mais perto de um combate honrado que se conseguia aqui. Kellan rangeu os dentes, buscando cada gota de coragem hibernando em suas veias. "Eu desafio você para um duelo!" ele deixou escapar.

Akul recuou o pescoço surpreso antes de rir sombriamente. O desprezo em seu rosto era claro. As Esporas Infernais atrás dele caíram em gargalhadas de escárnio.

"O que você está fazendo?" Annie gesticulou com os lábios, temerosa.

Kellan manteve os olhos fixos em Akul. "Se eu vencer, sua equipe terá que deixar eu e meus amigos irmos livres."

As gavinhas de Vraska se ergueram com interesse.

Oko não teve reação alguma. Apenas um olhar calculista e pensativo.

"Não tenho necessidade de duelar com prisioneiros", disse Akul. "Você já está à minha mercê — da qual não tenho nenhuma."

O coração de Kellan bateu forte. "Até os foras da lei têm um código, não têm?"

"Você parece ansioso por uma morte rápida, mas tenho outros planos", disse Akul. "Embora, quando chegar a hora de finalmente jogar seus corpos na fogueira, garantirei que você seja o primeiro. Considere isso um gesto de boa vontade." Seus olhos brilharam. "De um fora da lei para outro."

Kellan olhou em volta, desesperado por uma ideia, ou um pensamento, ou um —

"Eu nunca esperei que o infame Akul tivesse tanto medo de uma criança", refletiu Oko, sem piscar.

Akul recuou, sugando o ar entre seus dentes afiados. "Medo?"

Oko ergueu uma sobrancelha. "Ou talvez seja da magia dele que você tem medo. Talvez você prefira um alvo mais fácil."

Kellan podia sentir a pressão parecer mudar na sala conforme a energia aumentava e aumentava. As escamas no peito de Akul, cada uma dura como aço, começaram a brilhar em um amarelo doentio. Era como se ele estivesse inchando de energia, de trovão.

Vraska forçou as correntes. "Toda essa conversa sobre tortura e agora você prefere nos matar do que enfrentar o garoto?" Suas palavras foram mordazes. "Não admira que você precise de tudo o que estiver dentro do cofre. Sem a sua equipe, você não é nada."

Annie piscou, estudando os outros. "Você é um covarde", disse ela lentamente, os olhos ardendo em direção a Akul. "Você foi atrás do meu sobrinho pelo mesmo motivo que vai atrás de civis desarmados e foras da lei de baixo nível. Eles são garantidos. E por mais que você goste de causar problemas, bem — não imagino que fique feliz quando os problemas batem à sua própria porta."

"É por isso que você esconde este lugar, não é?" Oko pressionou. "Para evitar uma luta que você não escolheu?"

Akul ardia por dentro, fumaça saindo pelos vãos de seus dentes a cada respiração. O resto da sala ficou em silêncio.

Para um criminoso como Akul, a reputação era tudo.

E a equipe de Oko acabara de desafiar a dele.

Após uma longa pausa, o dragão baixou a cabeça em direção a Kellan, os dentes aparecendo em duas fileiras afiadas como navalhas. "Joguem-nos em uma cela de detenção", disse ele às Esporas Infernais. "O duelo começa à meia-noite."

Um Agradável Passeio em Família

OS EFEITOS DO RELOCAMENTO TRANSPLANAR EM MANIFESTAÇÕES MÁGICAS INDIVIDUAIS: #linebreak() UMA MONOGRAFIA DE GERALF CECANI

A recente descoberta de artérias transplanares, comumente chamadas de "Caminhos das Pressagiadas", após um fenômeno natural no plano de Kaldheim, reinventou e reviveu os estudos metamecânicos de uma forma com a qual lidaremos por gerações. Antes desses "Caminhos das Pressagiadas", apenas indivíduos conhecidos como "Planeswalkers" eram capazes de sobreviver a viagens transplanares, levando alguns a teorizar que o Multiverso era plano, e que todos os planos da realidade fora da própria Innistrad haviam sido destruídos em algum momento no passado distante. Como este obviamente não é mais o caso, o conhecimento acadêmico em torno dos planos deve ser ressuscitado para nos ajudar a entender melhor as forças cosmológicas ao nosso redor.

Acredito que cada plano de existência tem suas próprias regras de magia, uma teoria que foi provada para minha satisfação pela invasão Phyrexiana, na qual suas forças foram incapazes de se ajustar à magia natural de Innistrad. Não somos o único plano a abrigar zumbis e espíritos, mas esses invasores ferozes foram lentos demais para mudar suas táticas e não conseguiram penetrar nossas defesas mágicas. Eles ainda carregavam a magia de seu mundo natal, um lugar cujo nome foi dado de várias maneiras na literatura acadêmica, e ela não era compatível com a magia do nosso lar.

A segunda parte da prova desta teoria é remover a mim e a minha irmã do abraço de Innistrad por tempo suficiente para que nossa magia comece a se adaptar às regras naturais de outro plano. Através deste processo de "naturalização", serei capaz de determinar a duração segura de qualquer jornada desse tipo, antes de começarmos a perder a conexão com nossas raízes …

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GERALF, SEU APANHADOR DE CADÁVERES EGOCÊNTRICO! NÓS NÃO VAMOS NOS AJUSTAR A OUTROS PLANOS! OUTROS PLANOS VÃO SE AJUSTAR A NÓS ! COMO VOCÊ PODE SEQUER PENSAR QUE NOSSO PODER NÃO SERIA MAIOR DO QUE QUALQUER COISA QUE PASSE POR SUAS CHAMADAS REGRAS NATURAIS! NÃO É DE ADMIRAR QUE NINGUÉM GOSTE DE VOCÊ!

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Arte de: Chris Rahn

Era difícil dizer quem estava mais surpreso com a disposição dos irmãos Cecani em assumir a missão secundária na Loucura do Ladrão — Oko ou Geralf. Para Oko, a empolgação de Gisa com todos aqueles ossos lindos sem dúvida parecia apenas mais uma peça do caos vertiginoso que ela apresentava ao mundo, a mulher que nunca se preocupara com as consequências em sua vida centrada em cadáveres. Para Geralf, a empolgação dela fazia sentido, mas não quando vinha com o potencial de trabalho pesado e, mais ainda, não quando vinha com a perspectiva de passar um tempo sozinha com o irmão.

Geralf tinha seus próprios motivos para aceitar a missão. Geralf sempre tinha seus próprios motivos. E ele tentou mantê-los firmemente em mente enquanto seguia sua irmã cacarejante e giratória por trás do estábulo, até o solo macio e esponjoso criado pela limpeza das baias e pelo despejo dos barris de chuva. A maior parte desta terra é acre e seca, mas as pessoas têm um jeito de criar maciez por onde passam.

And Gisa tem o dom de encontrar cadáveres, seja qual for a espécie. Ela se agacha, mãos nos joelhos, a saia esfarrapada arrastando na lama, e assobia uma melodia alegre, algo agudo e vibrante em um tom maior que faz seus ouvidos doerem e sua pele arrepiar. Ele aprendeu há muito tempo a não ouvir muito de perto quando sua irmã começava a assobiar. Ela não compunha suas melodias tanto quanto as canalizava, e elas não eram destinadas aos vivos.

O chão à frente dela começou a arfar, pulsando como algum coração horrível e meio podre. Gisa levantou-se, ainda assobiando, e a criatura que ela estava chamando arrancou-se da terra. Parecia um grifo, se um grifo pudesse ser feito da parte frontal de uma águia e da parte traseira de uma mantícora. Sua cauda balançava no ar, o ferrão apodrecido ainda perversamente afiado e exsudando um veneno coalhado e sem dúvida letal.

Gisa foi até a criatura, acariciando seu bico amorosamente. Ela se aninhou na mão dela enquanto ela lançava um sorriso venenoso para Geralf. "Tudo bem, querido irmão, sua vez", disse ela. "Ou você esqueceu os fios condutores?"

"Eu usei meu estoque de victus vitae", disse ele, recusando-se a morder a isca dela. "Terei que obter uma montaria por métodos mais mundanos."

"Você vai comprar uma?" Ela fez a palavra soar obscena.

"Não", disse ele, e passou pela porta dos fundos do estábulo, voltando um momento depois conduzindo pelas rédeas um enorme jackalope de carga. Ele pisou no estribo e subiu na sela, sorrindo para a irmã e seu escorpião. "Agora devemos partir, antes que alguém perceba que peguei emprestado o coelhinho deles."

"Seus poderes são inúteis aqui. Não entendo por que você está tentando. A minha magia funciona exatamente como sempre."

"Isso pode não ser sempre o caso, querida irmã. Se eu estiver correto, seu tempo está se esgotando."

Gisa resmungou, lançando um olhar furioso para ele enquanto subia em sua criatura grifo, e os dois partiram, cavalgando pelas vastas planícies da Encruzilhada do Trovão em direção ao seu destino distante e desagradável.

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Assim como uma garrafa de vinho vazia terá vestígios de vinho restantes para dar sabor ao próximo líquido que contiver, acredito que aqueles que exploram as energias planares são recipientes de certa forma. Somos preenchidos com o poder dos planos onde nascemos e, enquanto estivermos nesses planos, renovamos esse poder regularmente, evitando que ele se dilua. Se deixarmos nossos domínios originais, começaremos a "aguar" as energias que contemos, diluindo-as, até que um dia a magia original não possa mais ser detectada e tenha sido inteiramente substituída pela energia ao nosso redor.

Viajar por muito tempo entre os planos é arriscar a perda de seu alinhamento original e adquirir algo novo …

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Você está dizendo que meus zumbis vão mudar para ser qualquer tipo de zumbis que este lugar tenha normalmente? Não seja um sugador de fígados! Eu nunca deixaria isso acontecer! Meus zumbis são o melhor tipo de zumbis, e eles são o que eu sempre, sempre vou chamar, e você pode dizer para suas teorias estúpidas ficarem longe de mim!

Arte de: Chris Rahn

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Eles cavalgaram sem interrupção ou distração até que o sol começou a se pôr, e até Gisa foi forçada a reconhecer que tentar seguir o mapa para a Loucura do Ladrão no escuro era uma ideia terrível. Acamparam perto de uma grande formação rochosa, fazendo o fogo onde era menos provável que atraísse atenção e cuidando de suas montarias antes de se acomodarem para uma refeição rústica de pão, queijo e carne seca. O grifo-mantícora de Gisa não parecia se importar se estava correndo ou descansando, enquanto o jackalope de Geralf estava claramente aliviado por estar amarrado longe da abominação dela. Os vivos podiam ter sensibilidades tão delicadas.

Geralf ficou satisfeito ao ver Gisa comer sem precisar ser incentivada. Ela às vezes parecia tão afastada das experiências dos vivos que ele temia acabar encontrando-a cambaleando com sua própria horda, tendo morrido de fome e ressuscitado por pura teimosia. Ela se sairia bem como uma morta-viva, mas uma irmã viva era mais fácil de manter uma rivalidade sem que os outros suturadores tirassem sarro dele por isso.

Ele se acomodou com as costas na pedra, retirando sua monografia da bolsa onde a guardava e folheando até onde havia parado. Do outro lado do fogo, Gisa se animou.

"O que é isso?"

"Uma obra acadêmica de referência, e não é da sua conta", respondeu ele. "Estou simplesmente documentando minhas observações sobre as diferenças nas energias planares entre nosso lar e a Encruzilhada do Trovão."

"Parece chato", disse ela, franzindo o nariz.

"Para você, tenho certeza que seria. Para mim, é fascinante."

"Eu sou inteligente o suficiente para entender!"

"Tenho certeza."

"Eu só não quero agora!"

"Claro que não, querida irmã. Preciso anotar algumas observações; eu assumo a primeira vigília. Tire seu sono de beleza. Você claramente precisa dele."

Gisa franziu o nariz para ele, mas parou de discutir enquanto se virava e se jogava em seu saco de dormir, de costas para ele e para o fogo. Ele esperou que a respiração dela se estabilizasse e então olhou para a forma da montaria dela, que ainda estava de pé. Fascinante. Sua fonte de energia de Innistrad ainda não havia secado. Todos com quem ele falara, cujas origens planares eram diferentes da sua, descreviam os zumbis como criaturas temporárias, coisas cambaleantes que desmoronavam assim que o necromante que as chamara se distraía. Somente em Innistrad eles pareciam seguir a regra do movimento perpétuo.

Gisa não ficaria ofendida quando seus amados mortos começassem a cair se não fossem atendidos? O pensamento foi uma diversão agradável o suficiente para focar enquanto as horas passavam até a meia-noite que, quando ele teve que acordar a irmã para o segundo turno da vigília, ele estava de muito bom humor.

Gisa, naturalmente, viu isso com suspeita. "Do que você está sorrindo?", perguntou ela.

"Apenas do futuro, querida irmã. Apenas do futuro."

Ele dormiu pacificamente depois disso.

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A manhã encontrou o fogo reduzido a brasas e Gisa roncando suavemente enquanto abraçava sua amada pá. Uma variedade da vida selvagem da Encruzilhada do Trovão fervilhava em torno de seus pés, com ossos aparecendo em trechos através da carne apodrecida. Ela estivera ocupada antes de adormecer, e Geralf nem conseguia ficar bravo com ela; a pequena força de zumbis animais teria fornecido aviso suficiente se algo tivesse vindo atacá-los durante a noite, e o fato de ela tê-los chamado antes de desmaiar significava que eles tecnicamente estiveram protegidos o tempo todo.

Ele ainda plantou a ponta da bota diretamente nas costelas dela, assustando-a para acordar. "Irmã! Você pode dormir quando estiver morta!"

Gisa acordou como um texugo furioso, já rosnando enquanto se levantava de um salto. "Dormir é para os vivos , consertador de carne! Os mortos perduram em uma gloriosa inquietação!"

"O que você preferir, você adormeceu quando deveria estar de vigília!"

"Nada nos atacou."

"Sorte não é um plano." Ele se dirigiu à sua própria montaria e subiu na sela. "Venha. A Loucura do Ladrão está nos esperando."

"Todos aqueles cadáveres gloriosos", disse ela, quase sonhadora, e subiu em seu grifo.

Eles partiram rumo ao amanhecer, com o exército de zumbis desparelhados de Gisa saltando, correndo e rastejando atrás deles.

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Tenho observado meu sujeito primário (Gisa Cecani, Chamadora de Carniçais, Innistrad) de perto em busca de sinais de exaustão de suas reservas mágicas originais. Até agora, elas permaneceram não diluídas, suas obras continuando a aderir às leis naturais de seu mundo natal. Continuo convencido de que isso mudará, dada uma exposição suficientemente longa à Encruzilhada do Trovão e à poderosa magia elemental do lugar. Assim que suas obras começarem a se deformar, eu a devolverei ao seu ambiente original e documentarei quanto tempo leva para seu reservatório interno se restaurar a um padrão básico de Innistrad …

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EU NÃO SOU UM SUJEITO PRIMÁRIO. RETIRE O QUE DISSE AGORA MESMO OU EU VOU TE ENTERRAR EM OITO SEPULTURAS SEPARADAS PARA QUE NEM SUA SUTURA ESTÚPIDA SEJA SUFICIENTE PARA TE MONTAR NOVAMENTE.

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Várias horas de cavalgada pesada os levaram ao topo de um penhasco, abaixo do qual se estendia a necrópole da Loucura do Ladrão. De certa forma, parecia qualquer outra necrópole: um muro alto de pedra e ferro em torno de campos de tumbas, sepulturas e mausoléus. Alguém se dera ao trabalho de plantar árvores, mas não se dera ao trabalho de regá-las. Elas estavam mortas há muito tempo, seus galhos estendendo-se nus e enegrecidos em direção ao céu sem nuvens.

A arquitetura das tumbas e o design das lápides eram um amálgama de retalhos de dezenas de planos, alguns que Geralf reconhecia, outros que eram um mistério até mesmo para sua mente curiosa e voltada para informações. Os irmãos contemplaram o cemitério por um longo e silencioso tempo antes que Gisa, inevitavelmente, quebrasse o momento além de qualquer reparo.

"Isso não faz o menor sentido ", objetou ela, com voz aguda e estridente.

"Você não é a pessoa certa para definir o que faz sentido", disse Geralf. "Qual é o seu problema com isso?"

"Encruzilhada do Trovão era desabitada antes dos Caminhos das Pressagiadas, e eles não aconteceram até depois da invasão, então como este lugar pode ser tão construído e tão grande ? Por quê? Não acho que este plano inteiro tenha produzido tantos cadáveres." Ela cruzou os braços, aparentemente determinada a ficar de mau humor. "Não gosto quando as pessoas fazem joguinhos bobos com coisas mortas, a menos que 'pessoas' signifique 'eu'."

"É estranho …" admitiu Geralf. "Mas sabemos que as pessoas têm escondido coisas aqui. Talvez tenham sentido necessidade de uma cenografia para completar sua farsa. Vamos encontrar o mapa e voltar para Oko antes de arranjarmos mais problemas."

O caminho até os portões do cemitério era suave, fácil de seguir, e havia postes de amarração do lado de fora do muro, desocupados, exceto por um lagarto de montaria distante que fora amarrado em um canto, bem longe de onde eles estavam indo. Gisa e Geralf amarraram suas montarias para evitar que elas se dispersassem, depois viraram-se e passaram ao mesmo tempo pelo portão aberto para a Loucura do Ladrão.

Gisa praticamente ronronou enquanto entravam na presença de tantos mortos, parecendo quase obscenamente à vontade. Ela deu um giro, com os braços bem abertos. "Você não consegue senti-los, querido irmão?", perguntou ela. "Tantos tantos , e tão pacíficos em seu sono! Bem, podemos dar um jeito nisso logo, não podemos? Ah, e tantos sabores! Como uma loja de doces cheia de cadáveres, cada um mais delicioso que o anterior."

Geralf franziu a testa, olhando para as lápides mais próximas. "Alguns desses corpos foram trazidos de fora do plano", disse ele. "Caso contrário, estas datas não fazem sentido."

"Ah, muitos dos meus novos amigos são velhos demais para estarem aqui, e alguns deles foram enterrados em outro lugar e depois movidos. Eles não estão nada felizes com isso." O sorriso de Gisa se acentuou. "Eles gostariam de ter uma conversa com as pessoas que seguravam as pás."

"Por que alguém faria isso?"

"Isso importa?" Gisa saiu saltitante pelo campo de sepulturas, assobiando uma musiquinha feliz. Geralf franziu a testa para ela, depois voltou a estudar as lápides próximas, tentando entender o que elas não estavam lhe dizendo.

A maioria estava escrita no estilo do mundo natal do cadáver, com uma linha de texto esclarecedor na escrita simplificada que era comumente usada para sinalização na Encruzilhada do Trovão. A maioria também tinha pequenos sigilos gravados nos cantos da lápide, símbolos que ele não conhecia e não entendia completamente. Olhando para eles logicamente, quase poderiam ser lidos como uma equação —

Ou um encantamento.

"Gisa!" Ele se virou enquanto gritava, procurando sua irmã entre as sepulturas próximas. Ele a encontrou cerca de seis fileiras adiante, pá na mão, assobiando. Se ele estivesse lendo os sigilos corretamente, no momento em que ela estivesse tão fundo, o encantamento estaria muito bem desenvolvido. "Pare! Afaste-se!"

Ela lançou-lhe um olhar azedo e continuou cavando, o assobio tornando-se insistente. O chão arfou.

Geralf começou a correr em direção a ela.

O chão arfou novamente, com mais força, pulsando com uma energia doentia.

Gisa deu uma gargalhada.

Geralf passou um braço em volta da cintura dela enquanto passava correndo, arrancando-a da sepultura. Ela gritou algo que ele não conseguiu distinguir, debatendo-se para se soltar, mas parou de lutar contra ele quando a sepultura explodiu, expelindo não o cadáver único que ela tentara animar, mas o que parecia ser uma centopeia feita de centenas de corpos fundidos, debatendo-se e contorcendo-se enquanto levantava os primeiros trinta corpos ou mais de seu comprimento no ar. Seus muitos braços tentaram agarrar Gisa. Ela os golpeou com sua pá, começando a correr ao lado de Geralf.

"Você fez isso?", exigiu ela.

"Eu não sou quem decidiu acionar uma bomba-relógio necromântica! Corra agora, culpe depois!"

"Culpar depois", concordou Gisa sombriamente, e eles fugiram para mais fundo na necrópole, com a indescritível corpopede vindo atrás.

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A Gangue Tiro-veloz encorajava a lealdade, se não a amizade próxima entre seus membros. Eles deveriam proteger uns aos outros quando surgiam problemas, e uma transgressão contra um deles poderia muito bem ser uma transgressão contra todos. Eles lutavam juntos, mas, apesar de tudo, eles, como todos os outros na Encruzilhada do Trovão, morriam sozinhos.

Stella Lee gostava de Lucy Bluff e perdera o funeral dela devido a um trabalho que não pôde ser interrompido quando recebeu a notícia da morte da outra mulher. Foi uma tragédia, mas ela calculou que os mortos não tinham agendas muito cheias e, por isso, duas semanas após o sepultamento, ela viera agora prestar suas homenagens. Seu lagarto de montaria estava amarrado com segurança do lado de fora do portão, e não havia mais ninguém à vista quando ela apareceu, o que foi uma graça surpreendente do mundo — Annie a avisara que poderia haver uma emboscada se um de seus rivais soubesse do fato de que ela estava lá sozinha — e agora aqui estava ela, confrontada com a sepultura do que fora uma mulher viva e risonha pouco tempo antes.

"Você sempre disse que morreria antes de voltar", disse ela, colocando as flores de jeito desajeitado na lápide. "Bem, suponho que isso signifique que você conseguiu o que queria. Olha, Lucy, eu sei que esta não é a hora de dizer nada —"

Uma comoção repentina nas sepulturas ao leste deixou-a tensa e ela levou a mão ao chicote em seu cinto, pronta para se defender. Pronta para defender a sepultura de sua amiga, se chegasse a esse ponto. A Loucura do Ladrão tinha suas próprias defesas contra ladrões de túmulos, de acordo com as histórias que ela ouvira, mas as pessoas pareciam levar isso como um convite para enterrar todo tipo de coisas preciosas ao lado de seus entes queridos, e isso apenas significava que os ladrões continuavam voltando, procurando um lucro fácil.

Cautelosamente, ela se moveu em direção ao som. Ele se distinguiu em duas vozes, uma masculina e uma feminina, gritando uma com a outra com todas as suas forças.

"—não fosse tão inútil , não estaríamos nesta situação!", gritou a mulher. "De que serve toda a sua ciência se você não consegue parar um verme estúpido!"

"Se eu tivesse um anjo disponível, eu te mostraria o que é ser inútil!", gritou o homem. "Eu não sou quem saiu cutucando uma sepultura que fora selada contra interferência necromântica! Não conseguiu manter as mãos quietas por um minuto, não é?"

"Oh, blá, blá, blá. Eu preciso de sangue de anjo ou sou inútil. Blá, blá, blá!", zombou a mulher. "Uma chamadora de carniçais de verdade não precisa desse tipo de coisa! Só precisamos da pá e da canção, e tudo funciona!"

"E é por isso que o seu já mencionado 'verme estúpido' está determinado a nos engolir !"

"Parece que ainda estou cantando, como se ele ainda tivesse minha canção." A voz da mulher baixou por um momento, a mágoa e a infelicidade superando o deboche. " Dói ."

Stella contornou uma cripta e se viu diante de duas pessoas pálidas de cabelos escuros em roupas esfarrapadas. A mulher segurava uma pá; o homem usava um monóculo. Eles eram claramente parentes e, com a mesma clareza, estavam prestes a atacar um ao outro.

"O que é isso que ouvi sobre sangue de anjo?", perguntou ela, com a mão ainda no chicote.

Antes que qualquer um dos irmãos assustados pudesse responder, um vasto verme amalgamado que parecia ter sido feito fundindo centenas de corpos mortos em uma única entidade ergueu-se das criptas atrás deles. Ele desabou, esmagando lápides e enviando pedaços de pedra quebrada em todas as direções.

Stella piscou. "Isso não é algo que se vê todo dia", disse ela.

"Não a menos que você tenha muita, muita sorte", disse a mulher.

"Corra", disse o homem, agarrando a mulher pelo braço e avançando direto para Stella. Reconhecendo uma boa ideia ao ouvi-la, ela girou nos calcanhares e correu com eles, de volta para a sepultura de Lucy e passando por ela até o muro da necrópole.

A corpopede seguiu, parando no muro para se erguer e rugir, depois esgueirando-se para longe, aparentemente patrulhando os limites de seu alcance. Stella respirava pesadamente, inclinando-se para frente com as mãos nos joelhos, e focou no homem desgrenhado e furioso à sua frente.

"O que é aquela coisa?"

"Grande", disse ele.

A mulher fez uma careta, libertando-se do aperto do homem. "Irritante. Eu queria aquele cadáver! Um dos meus versos ainda está preso nele, e ele não solta."

Stella não tinha ideia do que aquilo significava e, por isso, deixou para lá, focando no homem. "Aquela coisa vai parar em breve?"

"Duvido."

Significava que eles perderiam a Loucura do Ladrão e todos os seus mortos em repouso. Eles perderiam Lucy , que merecia coisa melhor. Stella suspirou e se empertigou. "Você disse sangue de anjo?"

"Sim", retrucou ele. "O que tem isso?"

"Você precisa de algo mais?"

Isso pareceu fazê-lo hesitar. Ele lhe lançou um olhar pensativo e perguntou: "Óleo de lamparina?"

"Acho que posso ajudar." She gesticulou para que a dupla a seguisse enquanto se voltava para o seu lagarto.

A mulher zombou, girando sua pá como um bastão, e não se mexeu até que o homem agarrou seu braço e a arrastou consigo enquanto seguia Stella até sua montaria.

"Minha gangue tem transportado muitos remédios ultimamente", disse ela, abrindo um de seus alforjes e começando a vasculhá-lo. "Remédios caseiros e coisas do tipo que podem ou não ajudar com o que te aflige, mas com certeza parecem impressionantes. Este aqui é feito com sangue de anjo. Conseguimos de um fornecedor de — bem, não importa de onde conseguimos. Segredo comercial." Ela brilhou ao erguer a garrafa. "Normalmente esse troço custa bem caro, mas para vocês, eu poderia ser convencida a fechar um acordo —"

A corpopede rugiu novamente. Stella estremeceu. "Você sabe o que é aquela coisa?"

"Não", disse o homem, com os olhos fixos na garrafa na mão dela. "Mas está ficando maior."

"Está usando minha canção para sugar os corpos de suas sepulturas", disse a mulher petulante. "Aqueles são meus ."

"Eu tenho amigos neste cemitério. Vocês vão parar aquela coisa?"

"Sim", disse o homem.

"Então é por conta da casa." Stella jogou a garrafa para ele, seguida por seu estoque reserva de óleo de lamparina. "Sorte é o meu jogo, e parece que hoje vocês são meu trunfo."

Os olhos do homem brilharam ao pegar as duas garrafas, enchendo-se de um relâmpago cativo. Ele olhou para the mulher. "Solte seu grifo", disse ele. "Eu preciso dele."

A mulher soltou um resmungo, e ele gesticulou bruscamente em direção ao muro da necrópole. Ela suspirou e assentiu, e ele se virou, correndo para longe.

"Ele vai voltar?", perguntou Stella.

"Meu irmão mimador de cadáveres? Provavelmente não", disse a mulher.

"Você sabe como isso aconteceu?"

"Nem ideia."

"Você está mentindo?"

"Para os vivos?" A mulher bufou, aparentemente ofendida.

"Hm", disse Stella. Ela tirou duas garrafas de cerveja de bétula de seu alforje, jogando uma para a mulher. "Melhor passar o tempo até que seu irmão não volte. Eu sou Stella Lee, a propósito."

"Gisa", disse a mulher, com os olhos semicerrados. "Cecani."

"Talvez eu já tenha ouvido esse nome antes", disse Stella.

"Talvez", concordou Gisa.

Elas ficaram ali, ouvindo a corpopede rugir dentro da necrópole, e esperaram para ver o que aconteceria a seguir.

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O que aconteceu foi que a corpopede testou o muro, mas não avançou mais, forçando as duas a se afastarem cerca de três metros. Gisa parecia estranhamente serena quando isso aconteceu. Stella manteve a mulher entre ela e a criatura, preferindo ser comida por último . Uma gargalhada selvagem surgiu ao longe, seguida por Geralf voltando à vista, conduzindo uma construção horrorosa atrás de si.

Tinha as asas e o ferrão de uma mantícora, mas com um peito largo formado pela sutura de pelo menos quatro corpos menores. Sustentava-se em múltiplas pernas, e sua cabeça era uma combinação terrível de partes carnudas e ósseas. O bico era realmente um toque final desnecessário. Olhou para as duas mulheres, emitindo um curioso som de cacarejo. Gisa olhou de volta, sem se impressionar, enquanto Stella deu um passo para trás dela.

"O que isso vai fazer?", perguntou Gisa. "Bicá-la de volta para a sepultura?"

"Algo assim", disse Geralf. Ele bateu as mãos e a coisa alçou voo, pairando sobre os muros da necrópole. "Agora, enquanto a fera está distraída, nós nos movemos."

Ele girou e correu pela entrada de volta para a necrópole. Rindo descontroladamente, Gisa o seguiu. Stella piscou, jogou sua garrafa vazia de lado e os seguiu. Ela não podia deixar Lucy e os outros Tiro-velozes que haviam morrido para que aquela coisa os colhesse. Simplesmente não se fazia isso. A lealdade tinha que ir além da sepultura, especialmente em um mundo onde os mortos nem sempre iam para seu descanso final.

Então, eles correram, passando pelo espectro da terrível criação de Geralf voando em círculos ao redor da corpopede rugidora, mais fundo na necrópole.

"Gisa!", retrucou Geralf. "Você precisa descobrir o que está distorcendo sua magia. Está roubando de você. Tome de volta o que é seu!"

Gisa assentiu e parou de correr, começando a assobiar. Era uma melodia alegre e ensurdecedora; Stella queria ouvir e queria tapar os ouvidos ao mesmo tempo.

Continuou por muito tempo e, à distância, a corpopede estremeceu, com corpos caindo da massa central a cada nota. A coisa estava ficando menor. Ainda era mais do que grande o suficiente para massacrar todos eles.

"Gisa …"

Ela assobiou uma nota longa e vibrante, depois parou. "Pronto", disse ela. "Recuperei o que é meu."

"Agora, encontre a magia que não é sua", disse ele imperiosamente.

Por um momento, pareceu que Gisa ia discutir. Por um momento, Stella teve um medo terrível de que fosse esse o caso, e que todos morreriam por causa de alguma briga de irmãos sem sentido que existia muito antes dela e, sem dúvida, continuaria muito depois de ela morrer.

"Por favor", acrescentou ela com um tom de desespero.

Gisa, que estivera inspirando para objetar, parou. Então ela começou a cantarolar. Esta era uma nota mais baixa do que seu assobio, e fez os ossos de Stella doerem. Geralf fez uma careta, aparentemente não mais confortável do que ela. Aparentemente despreocupada com a corpopede ainda enorme atrás deles, Gisa começou a caminhar serenamente entre as sepulturas, ainda cantarolando para si mesma.

A corpopede fora desestabilizada pela perda de grande parte de sua massa, mas estava se recuperando rapidamente e começou a cambalear atrás deles, mesmo enquanto a fera de Geralf atacava repetidamente. Gisa continuou a cantarolar e a caminhar, às vezes girando no lugar, aparentemente perdida em um sonho. Stella começou a dar um passo em direção a ela, mas Geralf a interrompeu com um gesto, balançando a cabeça. Stella se calou, franzindo a testa, e eles seguiram Gisa pela necrópole, sem olhar para trás.

Gisa parou quando chegou a uma cripta acima do solo cujo design era reconfortantemente familiar aos olhos de Geralf, aparentemente de Innistrad. Ele passou por ela até a porta da cripta, pressionando a palma da mão contra ela.

"Posso sentir a necromancia vindo de dentro", disse ele. "Ela formiga." Ele tentou a porta, apenas para descobri-la firmemente fechada com um cadeado. "Mas como deveríamos entrar?"

"Sempre achei a violência uma excelente resposta para esse tipo de pergunta", disse Stella, finalmente puxando o chicote de seu cinto, desenrolando-o. "Afaste-se, garoto da ciência. Isso vai arder."

Geralf recuou. Ela estalou o chicote na porta, um relâmpago azul dançando ao longo de seu comprimento. Quando atingiu o cadeado, a haste se abriu e o cadeado caiu, deixando a porta fácil para Geralf abrir. Stella deu de ombros.

"Sorte minha", disse ela.

Geralf abriu a porta, mas foi Gisa quem se empurrou para dentro, tirando-o do caminho em sua pressa. "Roubar a minha magia, é?", resmungou ela. "Ladrão. Gatuno."

"Vocês dois não são ladrões de túmulos?", perguntou Stella, seguindo Gisa para dentro.

"Não se pode roubar o que foi abandonado para apodrecer", disse Gisa. "Você diz que um produtor de maçãs está roubando as árvores?" Ela continuou se movendo pela cripta enquanto falava, vasculhando os cantos, tão atenta quanto um cão de caça.

"Vou dizer que a resposta que você procura é 'não'", disse Stella.

"Exatamente. Não roubamos sepulturas. Nós as colhemos respeitosamente. Nós somos os mocinhos aqui."

Stella não dignificou aquilo com uma resposta.

"Peguei você!", exclamou Gisa. Ela agarrou um vaso canópico de uma mesinha em um canto, erguendo-o acima da cabeça antes de espatifá-lo no chão. O som fez tanto Geralf quanto Stella darem um pulo. Gisa os ignorou, agachando-se para afastar os cacos.

Isso revelou um coração, esverdeado e claramente apodrecido, mas ainda batendo em um ritmo lento e terrível, e uma centopeia ressecada que se contorcia quando ela se aproximava.

Do lado de fora da cripta, eles podiam ouvir a corpopede se aproximando, ainda rugindo. A criação de Geralf não emitia nenhum som, deixando claro como a luta terminara.

"Depressa, querida irmã", disse Geralf.

"Cresça", retrucou Gisa, e enterrou sua pá no coração, partindo-o nitidamente em dois. A centopeia continuou se contorcendo e, lá fora, a corpopede continuou avançando. Gisa empertigou-se e pisou na centopeia, esmagando-a sob a ponta do pé. Houve um terrível som de esmagamento vindo de fora. Stella foi até a porta da cripta e espiou.

"Aquela coisa desmoronou", relatou ela. "Geralf, a sua coisa está sem um braço, e parece que está escolhendo um novo naquela bagunça."

"Eu o costurarei antes de partirmos", disse Geralf. Ele afastou a tampa de pedra que cobria o ocupante da cripta e enfiou a mão no sarcófago, vasculhando até encontrar um mapa. "E, felizmente para nós, quem quer que tenha pensado que armadilhas em uma necrópole eram uma boa ideia era exatamente o tipo de pessoa que estaria tentando esconder algo. Gisa, podemos ir."

"Bom. Não gosto deste cemitério", disse Gisa, franzindo o nariz. "É chato."

"Vocês dois não são exatamente honestos, são?", perguntou Stella.

"Alguém na Encruzilhada do Trovão é?", perguntou Geralf.

"Há uma recompensa pela captura de vocês?"

"Não sei. Vamos perguntar ao meu amigo reanimado?"

Do lado de fora da cripta, a criação de Geralf gritou.

Stella suspirou e se curvou. "Acho que não há capturas entre amigos."

"Uma escolha sábia", disse Geralf.

Ele e Gisa saíram da cripta juntos, abrindo caminho entre pedaços da corpopede desmoronada de volta ao muro. O jackalope de Geralf ainda estava amarrado ao poste e, assim, depois de dar um novo braço à sua criatura — e ao novo guardião da Loucura do Ladrão — eles montaram e partiram, com suas vozes flutuando atrás deles enquanto retomavam sua discussão eterna.

"Você está ocupando muito espaço na sela!"

"Se você não gosta, pode ir a pé."

"Eu não precisaria ir a pé se você não tivesse desmontado o meu cavalo ."

"Preguiçoso."

"Fedorento."

"Podre."

"Chato."

"RETIRE O QUE DISSE!"

Algumas coisas nunca mudam.

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Não está claro quanto tempo essa "aclimatação planar" pode levar. É inteiramente possível que, para a maioria das pessoas, isso nunca seja uma preocupação, já que poucos provavelmente viajarão para fora de seu mundo natal por longos períodos, e mesmo aqueles que o fizerem podem retornar para casa quando sentirem que estão mudando, acreditando ser um sinal de doença em vez de adaptação. Também pode ser uma questão de treinamento e inclinação. Um chamador de carniçais é um chamador de carniçais onde quer que vá, mas os necromantes podem usar as mesmas energias de maneiras diferentes. Armar armadilhas, por exemplo, o que exige um silêncio além da natureza do chamador de carniçais.

Isso levanta a possibilidade de novas e poderosas formas mágicas resultantes da combinação de energias planares, e de formas mágicas até então desconhecidas que antes estavam além da imaginação e agora estão ao nosso alcance …

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Este é você: BLÁ, BLÁ, BLÁ, EU SOU GERALF CECANI, E TENHO OLHINHOS DE TOPEIRA QUE NÃO CONSIGO NEM VER MEU PAPEL SEM MEUS ÓCULOS E MINHA IRMÃ É TÃO MELHOR DO QUE EU QUE TENHO QUE INVENTAR HISTÓRIAS SÓ PARA SENTIR QUE POSSO ME COMPARAR. Pare de ser bobo, Geralf. Isso está abaixo de você.

Nós temos poder e podemos ir para onde quisermos. Só precisamos encher o Multiverso com zumbis e tudo será maravilhoso.

Você vai ver.

Episódio 5: Lua Cheia

Doze badaladas irromperam da torre do relógio derretida. Suas bordas afiadas brilhavam em um vermelho sinistro, e sua sombra se estendia pelo enorme pátio abaixo. Postes de cerca feitos de osso e ferro negro estavam fincados no chão, circulando o perímetro para criar um cercado.

Os campos de duelo de Tarnation.

Kellan estava na beira da arena, ladeado por um par de Esporas Infernais. Um portão rangeu ao abrir atrás dele, fazendo pedras caírem do paredão rochoso ao redor. Passos ecoaram pelo túnel escuro. Oko, Vraska e Annie apareceram, ainda presos em correntes. Seus captores os conduziram em direção às arquibancadas, onde dezenas de outros membros da gangue de Akul gritavam e zombavam.

Vraska não deu mais do que um leve aceno de cabeça na direção de Kellan. Um reconhecimento, ou um adeus, Kellan não tinha certeza.

Oko lançou um olhar de desdém para o homem que o incitava a seguir em frente. Quando Oko chegou ao topo das escadas, ele ajustou a armadura de Espora Infernal que usara como disfarce. Kellan ficou surpreso que os ossos e o tecido carbonizado não fossem uma ilusão, mas, apesar das restrições antimágicas em seus pulsos, ela pendia da estrutura esguia de seu pai, torta e malcuidada pelas horas passadas em uma cela de detenção.

Annie encontrou o olhar de Kellan e avançou, lutando contra os guardas. "No segundo em que tiver a chance, voe para fora daqui", ela conseguiu dizer antes que a puxassem. "Você precisa se salvar enquanto ainda pode!"

Kellan tentou responder, mas o Espora Infernal à sua esquerda o empurrou para dentro da arena. Ele tropeçou nos próprios pés, derrapando nas rochas. Levantando-se novamente, ele cerrou os punhos e encarou o centro do ringue.

Filetes de lava fluíam entre as rachaduras na terra, enviando vapor ondulando pelo ar. O chão tremeu, resmungando como a barriga de um vulcão, e uma figura saiu furtivamente do túnel escuro. A luz do luar banhou Akul, fazendo suas escamas brilharem. Ele entrou na arena, olhos dourados brilhando com o trovão, e moveu-se em círculos lentos e predatórios ao redor de Kellan.

Kellan engoliu o nó na garganta. "Quais são as regras? O vencedor é quem tirar o primeiro sangue, certo?", ele perguntou esperançoso.

Um coro de risadinhas irrompeu da multidão. Kellan tentou não parecer enjoado.

Akul rosnou entre os dentes. "Isto é Tarnation, garoto, e gostamos de ser entretidos." Ele virou a cabeça para as arquibancadas e rugiu: "Isto é uma luta até a morte!"

Os Esporas Infernais responderam à sua fúria com entusiasmo selvagem, e Kellan recuou ao som, sentindo seu estômago cair como uma pedra pesada. Ele procurou por Oko nas arquibancadas mais uma vez e o encontrou tirando fiapos de sua manga. Um dos ossos se soltou do peitoral da armadura, e Oko olhou para o chão, distraído.

A pontada de decepção que percorreu Kellan foi visceral.

Fogo irrompeu ao redor do pátio, bloqueando cada saída. Akul chicoteou sua cauda de um lado para o outro, o trovão estalando em seu peito onde o medalhão brilhava.

O aumento da temperatura fez as bochechas de Kellan corarem. Ele não se importava com a chave, ou o dinheiro, ou o poder. Ele só se importava com seu pai. E ainda assim…

Os pensamentos de Kellan o deixaram tonto. Esta pode ser a última vez que nos vemos, e ele nem sequer olha para mim.

Um dos Esporas Infernais parou em uma plataforma de madeira e gritou para a multidão se acalmar. "Ao meu sinal!", ela berrou para a arena.

Akul andava de um lado para o outro. Kellan tentou limpar sua cabeça, deixando o pulsar da magia crescer na ponta de seus dedos. A atenção de Oko não iria salvá-lo, não importava o quanto ele a quisesse. Se Kellan ia sair vivo dessa, ele precisava fazer isso por conta própria.

Com uma respiração lenta, ele endureceu seu coração e se preparou para lutar.

O Espora Infernal apontou uma pistola de trovão para o céu e puxou o gatilho. Energia azul explodiu no ar, espalhando faíscas sobre a multidão. Os aplausos vieram como um tsunami.

Kellan recuou, e Akul investiu. Mandíbulas se fecharam em sua direção, e Kellan voou para fora do caminho, evitando as presas do dragão. Ele pousou no chão e se preparou para outro ataque, quase não sendo atingido pelo ferrão brilhante na ponta da cauda do dragão enquanto ela balançava direto por ele. Ela atingiu a terra, cavando uma linha profunda na rocha negra.

Kellan sugou o ar pelos dentes, tentando ignorar a risada ameaçadora batendo em seus ouvidos. Ele se esquivou de outro golpe do dragão, e depois outro, saltando em voo parcial para evitar uma explosão de trovão.

Kellan sabia que não conseguiria dominar o dragão. Ele estava em desvantagem de força e tamanho. Mas talvez se ele pudesse cansá-lo, e deixá-lo exausto…

Era uma chance pequena. Minúscula, até. Mas que outras opções ele tinha?

Apesar do que Annie o instou a fazer, fugir voando não era uma opção. Mesmo se ele conseguisse sair do cânion sem ser derrubado pelos Esporas Infernais, isso significaria abandonar os outros. Oko, Vraska, Annie… Eles seriam feitos sofrer e, quando Akul e sua gangue terminassem de brincar com eles, seriam jogados nas brasas. Ninguém viria por eles, assim como ninguém estava vindo por Kellan agora. A única maneira de sair vivo era vencendo.

Buscando sua magia, Kellan firmou seus ombros e convocou um laço dourado. Ele o chicoteou em direção a Akul, mas o dragão lançou sua cauda, despedaçando a magia. Kellan flexionou as mãos e tentou reunir cada gota de sua força. Uma onda de calor percorreu-o, desde o seu âmago até a ponta dos dedos. A energia cresceu de seu punho, transformando-se em uma lança dourada. Ele a arremessou em direção a Akul com vingança. Ela navegou direto para o coração do dragão, deixando rastros de poeira dourada no ar. No momento em que a lança causou impacto, ela ricocheteou e caiu ruidosamente no chão. As escamas de Akul eram grossas demais para perfurar.

Akul zombou, mostrando duas fileiras de presas afiadas. Ele abriu as mandíbulas para revelar uma orbe de trovão estalando que se formava dentro dele. Kellan ficou boquiaberto de horror. O trovão era o caos puro, magia que destruía tudo o que tocava — e Akul a havia engolido .

Kellan olhou de um lado para o outro, procurando um lugar seguro para se proteger. Lava fluía ao redor dele, infiltrando-se pelas brechas devastadas no chão onde a cauda de Akul causara o maior estrago. Bolsões de vapor explodiam da terra, fazendo o suor se acumular acima das sobrancelhas de Kellan.

Não havia para onde correr.

Não é assim que termina , ele pensou freneticamente, sua mente acelerada. Você não rastreou seu pai pelo Multiverso apenas para morrer antes de conhecê-lo!

O coração de Kellan bateu forte, e o desespero que ele carregava há meses ferveu até a superfície. Ele ainda queria acreditar que havia mais em seu pai do que ser um trapaceiro. Que, com tempo suficiente, Kellan seria capaz de conhecer o homem que sua mãe um dia amou, não aquele que ela deixou. Mas se Kellan morresse nas mãos de Akul, ele nunca teria a chance. Ele nunca iria realmente saber .

E havia muito mais que ele queria saber. Sobre sua herança feérica, e o que significava ser meio fada, meio humano. Ele queria abraçar a parte de si mesmo que nunca fora ensinado a entender. Ele queria ser o filho real de Oko. Kellan precisava de mais tempo com seu pai, e não ia deixar que Akul tirasse isso dele.

Algo ganhou vida dentro do peito de Kellan, e seus olhos brilharam com magia indomada. Energia moveu-se através dele, espalhando-se por suas veias. Era estranha e familiar ao mesmo tempo, uma magia que tinha gosto de cardo e pinheiro, dos lugares profundos na floresta — um poder inexplorado que estivera adormecido dentro dele desde o nascimento, esperando para ser libertado. Esperando para ser aceito.

Kellan fixou os olhos em Akul, mantendo seu olhar como se estivesse suavizando sua fúria em algo maleável. Algo que ele pudesse dobrar à sua própria vontade.

O dragão perdeu o foco, o trovão girando de seus dentes em um suspiro inofensivo. Ele hesitou, piscando em confusão, embalado por uma calma ilusória.

Levou um momento para Kellan perceber o que havia acontecido, mas quando percebeu, seu rosto se contraiu em surpresa. Ele virou as mãos, estudou as palmas e piscou.

Como eu fiz isso?

Os berros furiosos das arquibancadas comandaram sua atenção, forçando-o a voltar à realidade. Akul ainda balançava na frente dele, perdido em um transe. Vulnerável.

Kellan lançou uma trepadeira dourada em um arco amplo, laçando-a ao redor do pescoço de Akul. Ele puxou o mais forte que pôde, cravando os calcanhares na terra. Esta era sua chance de derrubar o dragão, e ele não ia desperdiçá-la.

Akul não reagiu — nem mesmo enquanto o ar era sufocado para fora dele. A névoa leitosa nos olhos do dragão rodopiou, e ele começou a enfraquecer, os joelhos ficando flácidos.

Apenas mais alguns segundos , implorou a mente de Kellan, lutando contra a culpa que fervilhava nele ao pensar em tirar outra vida.

Tinha que ser feito. Não havia outro jeito.

Mas quando as intenções de Kellan vacilaram, sua magia também vacilou. Akul despertou de seu transe. Vapor explodiu de suas narinas quando percebeu o que Kellan estava tentando fazer, e ele atacou violentamente a trepadeira mágica ao redor de sua garganta. A tensão cortada fez Kellan cair para trás, as costas estalando contra a pedra dura. Ele soltou um grito agudo enquanto Akul se lançava em direção a Kellan com toda a sua força, batendo suas garras na terra que cedia.

Kellan estava preso sob ele, incapaz de se mover.

"Chega!", Akul rosnou, saliva voando entre seus dentes. Ele ergueu o punho, garras arqueadas e prontas para a matança. "Isso acaba agora."

Uma explosão de trovão atingiu Akul no pescoço, fazendo-o recuar em alarme. Kellan voou para fora do caminho, poeira dourada irrompendo de seus pés, e encontrou um canto no lado oposto da arena. Ele agachou-se, o coração batendo fora do peito, e procurou na crista pela fonte do ataque.

Surgindo sobre a colina estava fileira após fileira de mercenários. Sua armadura prateada refletia o trovão estalando ao longo de suas armas, e no centro estava Ral Zarek, olhos brilhando enquanto o relâmpago se formava em suas palmas. A Companhia de Sterling havia encontrado Tarnation — e eles trouxeram um exército.

Kellan franziu a testa enquanto seus olhos percorriam o espaço tentando entender o que estava acontecendo. Akul não esperou por uma explicação; ele lançou uma investida contra a primeira fileira de mercenários, estilhaçando um prédio próximo. A Companhia de Sterling abriu fogo, e os Esporas Infernais surgiram das colinas com seus rifles e aço. Trovão e fogo rasgaram o mundo ao redor deles.

Arte de: Xabi Gaztelua

Kellan procurou seu pai em meio ao caos. Ele esperava encontrá-lo ainda preso com restrições de ferro e contido pelos Esporas Infernais — em vez disso, Oko aparecia estranhamente calmo, observando enquanto o último osso de seu colete caía no chão. Oko deu uma cabeçada no Espora Infernal atrás dele no exato momento em que Ossinhos apareceu, remontado a partir dos ossos caídos da armadura de Oko. A pequena criatura enfiou a mão em sua caixa torácica e puxou uma chave, libertando o resto da equipe.

Apenas alguns Esporas Infernais haviam permanecido para trás. Vraska os encarou, tentáculos balançando no ar, e fixou os olhos em um após o outro até que todos se tornassem pedra. Ossinhos sacudiu com uma risada incoerente antes de escalar o ombro de Oko. Oko esfregou os hematomas em seus pulsos onde as algemas estiveram e encontrou o choque visível de Kellan com uma piscadela. Ele se aproximou das chamas sem hesitar. "Você foi bem, garoto. Agora — jogue-me o medalhão."

Kellan olhou de Oko para Ossinhos. Ele não entendia. Se ele esteve aqui o tempo todo… Se Oko havia planejado uma fuga…

A decepção transformou seus pensamentos em um vórtice. Kellan esqueceu de respirar.

Oko estendeu a mão, expressão endurecendo. "A chave. Depressa !"

Kellan franziu a testa. "Eu não estou com ela. Está no de Akul —" Ele olhou de volta para o dragão, que estava ocupado demais abrindo caminho à força pela multidão de guardas de Sterling para notar qualquer outra coisa.

Caído no chão rochoso estava o medalhão, tremeluzindo com a luz das brasas próximas. De alguma forma, na confusão, ele havia sido arrancado do pescoço de Akul.

Explosões de trovão ecoavam por toda parte, fazendo o coração de Kellan apertar de preocupação. Ele tinha um milhão de perguntas — mas elas teriam que esperar. Ele saltou para a frente, pegou a chave do chão e a jogou de volta através das chamas em direção à mão estendida de Oko.

Oko a pegou no ar, os dedos agarrando firmemente o metal. Um breve olhar de fome espalhou-se por seu rosto. Kellan finalmente viu então: a necessidade de Oko de vencer . O mundo estava cheio de jogos, e Oko sabia como manipular todos eles.

Ele enfiou o medalhão no bolso e virou-se para os outros. "Annie, você pode nos guiar pela cidade? Precisamos chegar à entrada do cofre. Malcolm está esperando."

"Malcolm? Achei que você tivesse dito —" Kellan começou, mas uma explosão interrompeu suas palavras. Ele se abaixou, cobrindo a cabeça enquanto brasas choviam sobre o pátio.

O olho de Annie brilhou com um brilho alaranjado enquanto ela olhava para o cânion. "Por aqui", ela disse rapidamente, e subiu a rua mais próxima com Vraska logo atrás.

"É a nossa deixa, garoto", Oko instou, fazendo sinal para Kellan seguir.

Kellan saltou no ar, poeira dourada girando atrás dele enquanto ele passava por cima do fogo — mas a próxima explosão foi ainda mais próxima que a anterior. Rochas explodiram do chão, e o impacto o enviou capotando de volta para a arena. Ele rolou desajeitadamente sobre filetes de lava, uivando de dor enquanto ela queimava a pele em seus braços. Com uma mão aninhada contra o peito, ele lutou para se levantar. Ele deu apenas dois passos antes que um guarda de Sterling esmagasse um porrete contra a parte de trás de sua cabeça. Kellan desabou no chão, o corpo tremendo. O mundo escureceu. Sua visão estava se estreitando. Do outro lado do fogo, ele viu seu pai observando-o com uma estranha resignação nos olhos.

Kellan esperava que ele fizesse algo — que o ajudasse — mas, em vez disso, Oko virou-se para a estrada e deixou seu filho para trás.

Um segundo golpe atingiu a nuca de Kellan, e toda a luz partiu com ele.

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Annie abaixou-se atrás de um caixote de metal nos fundos do saloon, cambaleando ao ver Ossinhos vasculhando o chão em busca de moedas perdidas. Oko havia mentido para ela. Ele teve um plano o tempo todo e o escondeu da equipe. Agora Kellan estava pagando o preço.

Vraska verificou a janela mais próxima para garantir que não tivessem sido seguidos. Oko moveu-se rapidamente de uma sala para outra, procurando armas. Ele voltou com várias facas e as dividiu entre a equipe.

Annie franziu a testa para a lâmina.

"É apenas até chegarmos ao cofre", Oko assegurou a ela. "Breeches tem cuidado do seu rifle de trovão."

Annie enfiou a faca em seu cinto. "Precisamos voltar buscar o Kellan."

"Não é possível", disse Vraska, andando de um lado para o outro perto do batente da porta. "Não duraríamos dois segundos tentando voltar para o pátio. A maioria das estradas já está barricada."

"Então mande o esqueleto se for preciso", latiu Annie. "Ele pareceu não ter problemas para entrar furtivamente da primeira vez."

Ossinhos roeu uma das moedas, testando o ouro. Quando ela não dobrou, ele chacoalhou com irritação e a arremessou sobre o ombro.

"A Companhia de Sterling está invadindo a maior parte de Tarnation, e os Esporas Infernais estão distraídos tentando proteger seu território", disse Oko, desdenhoso. "Esta é a nossa chance de chegar ao cofre sem sermos notados."

As bochechas de Annie escureceram, e ela agarrou o braço de Oko e o puxou para perto. "Por que tenho a sensação de que você sabia que haveria uma emboscada?"

Oko afastou os dedos dela, limpando a manga da camisa. "Claro que eu sabia. Eu não ia nos fazer enfrentar um dragão sem uma estratégia de saída. Eu garanti que Bertram Graywater recebesse as coordenadas de Tarnation e nos deixasse tempo suficiente para chegar perto de Akul antes que a Companhia de Sterling chegasse. A distração nos deu a oportunidade perfeita para roubar o medalhão."

Annie tentou ao máximo manter sua voz firme, mas o calor estava subindo por ela mais rápido do que conseguia controlar. "Você está me dizendo que ser capturado fez parte do seu plano o tempo todo?"

"Nós conseguimos lindamente." Oko sorriu, triunfante. "Eles nunca suspeitaram de nada."

"Nem o resto de nós", apontou Vraska gélida. Ela olhou furiosa para Oko, os olhos amarelos brilhando em aviso. "Eu não gosto de ser mantida no escuro."

"Eu não podia arriscar que qualquer um de vocês parecesse confiante demais sobre uma fuga", disse Oko com um dar de ombros. "Precisávamos que Akul baixasse a guarda, e ele baixou." Ele ergueu o medalhão de seu colete, inclinando o metal até que captasse a luz do fogo no teto. "Agora temos tudo o que precisamos."

"E quanto ao Kellan?", desafiou Annie. "Fazer com que ele lutasse contra o líder dos Esporas Infernais também fazia parte do seu plano?"

"Não", admitiu Oko. "Eu trouxe Kellan conosco porque sabia que ele nos faria ser pegos. O resto foi tudo ele."

Uma tempestade rugia atrás dos olhos de Annie. "Você é impetuoso e imprudente, e colocou todos nós em perigo — e agora a Companhia de Sterling provavelmente executará Kellan por sua parte em ajudá-lo." Quando Oko não disse nada, ela cruzou os braços. "Você poderia ao menos ter a decência de parecer arrependido por abandonar seu filho."

Oko estremeceu, antes de passar a mão no cabelo. "Malcolm está esperando perto da entrada do cofre. Não temos tempo para distrações. Ou partimos agora, ou perdemos nossa chance."

Annie não recuou. "Eu não vou deixar o garoto para morrer."

Vraska passou uma unha longa acima da sobrancelha, onde duas cicatrizes profundas se cruzavam, e observou o tiroteio pela janela. "Ele ficará bem por mais um dia ou dois. Você o viu enfrentar Akul; ele é mais durão do que parece."

"E se Akul vencer esta luta? O que acontece então?" Annie passou a língua nos dentes e escolheu suas palavras com cuidado. "Eu vi do que ele é capaz. Ele fará Kellan sofrer, pior do que você pode imaginar."

A voz de Oko suavizou. "Se você for atrás de Kellan, estará deixando Akul vencer."

Suas narinas dilataram. Ela estava cansada de deixá-lo manipular cada situação a seu favor. "Isso não está me parecendo certo." Ela olhou diretamente para Oko. "Se tivesse sido o contrário, ele nunca teria deixado você."

Oko esfregou a ponta da sobrancelha e suspirou. "Olha, no momento em que terminarmos o trabalho, eu mesmo voltarei buscar o Kellan."

Annie hesitou, não convencida. "O trabalho estará feito. Você não terá uma equipe."

Oko acenou com a mão no ar como se os detalhes fossem sem importância. "Você mais ou menos se voluntariou para se juntar a mim. E Ossinhos virá se eu pagar extra a ele. Não é verdade?"

Ossinhos estava empoleirado no topo de um barril. Ele estava ocupado despejando areia solta de seu chapéu, a voz estalando em sua própria língua. Quando ficou óbvio que Annie não o entendia, ele fez um gesto entusiasmado com a mão antes de chacoalhar de alegria.

Annie não tinha certeza se acreditava em qualquer um dos dois, mas também sabia que Oko estava certo sobre Akul. Se eles não chegassem ao cofre agora, os Esporas Infernais venceriam. Eles encontrariam uma maneira de escapar da Companhia de Sterling, e então viriam pelo medalhão e pelo poder dentro do cofre.

Por sua cidade, e por Encruzilhada do Trovão, Annie não tinha escolha. Não havia tempo para uma missão de resgate esta noite.

Onde quer que Kellan estivesse, ela esperava que ele entendesse.

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Kellan acordou na parte de trás de uma carruagem, mãos presas em ferro. Ele limpou o sangue do lábio, estremecendo com o hematoma na bochecha, e olhou pelas janelas gradeadas. Havia outras carroças de prisão alinhadas ao lado da sua, e uma pequena patrulha de guardas de Sterling que parecia mais preocupada com a estrada do que com Kellan — mas não havia outros prisioneiros. Cada um deles ainda estava em Tarnation, lutando.

Era apenas Kellan, espancado e sozinho.

A verdade doía mais do que qualquer ferida: Oko o havia deixado para trás.

Kellan amuou-se contra a parede da carruagem e olhou para as faixas de luar que passavam pelas barras de metal. Ele estava em uma gaiola, um prisioneiro de Bertram Graywater. Ele iria responder pelos crimes que ajudou seu pai a cometer.

Ele fechou os olhos, lutando contra a mágoa que tinha gosto de bile em sua garganta. Ele fora ingênuo. Oko não era um pai; ele era um estranho . Sua conexão não passava de uma fantasia de infância à qual Kellan vinha se apegando há muito tempo. As pessoas o avisaram sobre a verdadeira natureza de Oko. Disseram-lhe que ele não era confiável. Ele até vira por si mesmo.

Ele pressionou as mãos no rosto, desejando encontrar sua voz apenas para poder gritar.

O céu brilhou e reverberou acima dele com uma investida de nuvens de tempestade. Os cavalos ao redor empinaram, fazendo a carruagem estremecer. Kellan tropeçou para a frente, apoiando-se no chão, quando outro clarão de relâmpago explodiu do lado de fora da janela. Vários baques ecoaram pesadamente na areia, seguidos por um tilintar de metal e botas com esporas. Uma chave girou no lugar, e a porta da carruagem se abriu.

Ral Zarek estava no batente, usando um poncho longo que ondulava atrás dele.

Kellan levantou-se e olhou pela janela. A patrulha de mercenários de Sterling estava espalhada pelo chão, inconsciente.

Com a testa franzida, Kellan tocou o hematoma na nuca. Os guardas devem ter me batido mais forte do que pensei. O homem que ele traíra dias atrás não poderia estar tirando-o da cadeia. A única outra explicação era uma concussão.

Ral o observava cuidadosamente. "Eu acho que você e eu estamos do mesmo lado — e vou lhe dar uma chance de me provar que estou certo. Além disso, Kaya nunca me perdoará se eu deixar algo acontecer com você." Ele se inclinou para frente e destrancou as algemas dos pulsos de Kellan, deixando-as cair ruidosamente no chão de madeira.

"Espere — você está me deixando ir?"

"Preciso de um favor."

A boca de Kellan se contraiu. Ele sabia o que Ral queria. É o que todos queriam. "Deixe-me adivinhar. Você também está atrás do cofre?"

Ral ergueu uma sobrancelha. "Tão óbvio assim, hein?"

Kellan saltou para fora da carruagem, verificando os guardas caídos mais uma vez em busca de movimento. Não seria a primeira vez que ele fora crédulo demais para ver a verdade. Mas, pelo que ele podia dizer, isso não era outra emboscada. Kellan desviou o olhar, os olhos ardendo de arrependimento. "Eu lhe devo um pedido de desculpas pelo que fiz no quartel-general. Eu estive procurando por meu pai por tanto tempo, e quando finalmente o encontrei…" Suas palavras escaparam como água correndo por seus dedos.

"Eu entendo. Famílias são complicadas. E pais são, bem…" O sorriso de Ral estava tingido de tristeza. "Eles ou te constroem ou te destroem, suponho." Ele sustentou o olhar de Kellan. "Você ainda tem a escolha de ser melhor do que as cartas que tentaram lhe dar."

"Roubando o cofre?", desafiou Kellan, desafiador.

"Oko tem um histórico de mentiras, manipulação e assassinato. Você realmente quer alguém assim tendo acesso ao poder do cofre?"

"Ninguém deveria ter esse tipo de poder", rebateu Kellan. "Mas ele é uma escolha melhor do que Akul, ou Bertram Graywater."

"Eu concordo com você", disse Ral simplesmente. "É por isso que quero garantir que o que quer que esteja dentro daquele cofre permaneça trancado para sempre."

Kellan abriu a boca em surpresa. Ele ouvira Ral corretamente?

"Vim aqui para descobrir novas maneiras de me comunicar através dos planos. Não para liberar um monte de magia sem controle de um cofre antigo que ninguém aqui entende." Ral deu de ombros. "Acho que você e eu podemos ajudar a deter aqueles que causariam danos a este plano."

Kellan não respondeu, ainda processando o que Ral estava dizendo.

"Eu sei que você não quer lutar contra seu pai", disse Ral. "Talvez você nem queira enfrentá-lo novamente. Mas eu vi o que o poder exercido em mãos erradas pode fazer. E com os Caminhos do Agouro, é um risco grande demais. Porque não é apenas um plano que poderia ser destruído — poderiam ser dezenas."

Pessoas demais sabiam como tecer mentiras e fazê-las parecer verdade, e Kellan raramente sabia como notar a diferença. Mas se houvesse uma maneira de selar o poder do cofre para sempre… Ele encontrou os olhos de Ral. "Qual é o seu plano?"

"Pegamos a chave de volta, encontramos o tesouro dentro do cofre e o trancamos em outro plano onde ninguém será capaz de encontrá-lo", explicou Ral. Ele fez uma pausa, observando a expressão de Kellan mudar, e estendeu a mão. "O que me diz? Você está comigo?"

Se Kellan unisse forças com Ral, ele estaria indo contra Oko. Ele estaria indo contra toda a equipe.

Mas Kellan não devia nada a eles. Não mais.

Kellan apertou sua mão sobre a de Ral. "Estou com você", disse ele, sem hesitar.

Arte de: Wylie Beckert

Episódio 6: A Balada dos Ladrões e Atiradores do Trovão

O vento quente carregava uma rajada de brasas que giravam em torno de Oko como vaga-lumes. Ele passou a mão pelo cabelo, olhando para a entrada do cofre. Uma porta redonda se estendia na névoa escura. Lava se infiltrava pelas fendas, fluindo sobre a borda e descendo para a superfície de Tarnation abaixo.

Oko se virou para encarar sua equipe, reunida ao seu sinal. "Quem quer que tenha construído este cofre queria manter seu tesouro escondido, e duvido que uma simples fechadura e chave sejam a única coisa que nos separa da câmara mais interna. Precisaremos ficar alertas."

"ARMADILHAS!" Breeches gritou. Ele ergueu dois punhos cobertos de pelos no ar, e uma fileira de dispositivos explosivos apareceu em seu cinto.

"Precisamente." Oko se concentrou em Annie. "Preciso que você seja nossos olhos."

A boca de Annie estava travada em uma linha tensa. Ela não tinha dito uma palavra desde o saloon. Quando pegaram o elevador para o cofre flutuante, ela fez questão de ficar o mais longe possível de Oko, com o olhar fixo nos tiroteios de trovão que se espalhavam pela cidade.

Não tinha sido a intenção de Oko deixar Kellan para trás. Não havia benefício em ter seu filho preso. Mas ele tinha sido contratado para fazer um trabalho, e resgatar Kellan teria custado a missão. Ele não teve escolha a não ser deixá-lo para os guardas Sterling.

Não importava se Annie não conseguia entender a lógica de Oko; tudo o que ele precisava que ela fizesse era levar a equipe pelo cofre sem cair em nenhuma ilusão.

"Vamos logo acabar com isso", disse Annie, com a voz rouca. "Quanto antes esvaziarmos o cofre, mais cedo poderemos voltar pelo garoto."

Oko não sabia como desempenhar o papel de um pai coruja, mas era perfeitamente capaz de fingir gratidão. Ele inclinou levemente a cabeça e estendeu a mão em direção à porta. "Se você fizesse a gentileza …"

A íris esquerda de Annie brilhou em um laranja vívido enquanto ela se aproximava da entrada externa. As marcações na porta começaram a brilhar, criando uma exibição de espirais alongadas que pulsavam com vida. A porta se abriu ao meio, criando uma abertura na rocha.

Oko permaneceu perto de Annie enquanto ela guiava a equipe pelo corredor escuro. O chocalhar nervoso de Ossinho ecoava atrás deles, seguido pelo baque impaciente dos passos pesados de Rakdos. As asas do demônio roçavam nas paredes, fazendo poeira e detritos caírem no chão.

Quando chegaram a uma câmara ampla, Oko parou ao lado de uma plataforma enorme. Dezenas de lanternas ardentes iluminavam o teto curvo, lançando um reflexo distorcido no chão preto irregular. Dois pedestais idênticos ficavam em lados opostos da sala, cada um com sua própria alavanca. No fundo da câmara, havia uma escadaria que levava a uma porta cintilante.

Annie levantou a mão, impedindo Oko de continuar andando. Ela apontou de uma extremidade à outra da sala. "Há luz esticada por aqui, como cordas cruzadas. Acho que é algum tipo de armadilha."

"Um sistema de segurança", concordou Umezawa. Seu olhar seguiu a fenda pelo centro do teto. "As luzes provavelmente foram projetadas como um gatilho."

Oko arqueou uma sobrancelha. "Que tipo de gatilho?"

Breeches ajoelhou-se na borda da plataforma e passou um dedo azul ao longo da superfície parcialmente reflexiva. "Rocha vulcânica e cristal", disse ele com um silvo agudo, mais silencioso do que talvez nunca tivesse estado antes.

Geralf olhou para o teto com desdém. "Você está sugerindo que lava pode começar a jorrar do teto a qualquer momento? Porque, caso não tenha ficado claro, só consigo costurar a carne de volta se ainda houver carne para trabalhar."

Gisa deu uma risadinha ao lado dele, batendo palmas como se nunca estivesse tão animada. "Imagine os zumbis que eu poderia erguer se todos vocês morressem queimados!" Ela se virou para os outros. "Alguns de vocês seriam cadáveres tão encantadores e interessantes."

"Talvez nosso foco deva ser desligar o sistema de segurança", sugeriu Oko.

Umezawa gesticulou para os pedestais. "Acredito que estas alavancas façam parte de um sistema de trava dupla. Já vi algo semelhante em Kamigawa. Para desarmar a grade de luz, precisaremos de duas pessoas puxando estas alavancas simultaneamente."

"Um de nós precisa atravessar a plataforma sem acionar a armadilha", concluiu Oko.

"Eu poderia tentar, mas …" Annie balançou a cabeça. "As lacunas são pequenas. Não tenho certeza se é possível para um adulto crescido espremer-se por elas com segurança."

Ossinho deu um salto, tagarelando em sua língua que soava principalmente como cliques e rosnados.

"O BRAVO E JOVIAL ESQUELETO SE VOLUNTARIA!" traduziu Rakdos.

"Se me permite", interveio Umezawa, tirando um dispositivo metálico redondo do bolso. Ele o segurou na palma da mão, e a parte superior se desdobrou da tela antes de se dobrar novamente na forma de uma libélula de origami. Ela flutuou no ar, e Umezawa passou a tela para Annie, explicando rapidamente os controles. "Você pode guiar Ossinho pela grade com isto. Aonde o dispositivo for, ele pode seguir."

Annie fez algumas voltas de prática no ar antes de enviar a libélula para a borda da plataforma. O dispositivo de metal mergulhou para cima e depois para baixo, fazendo voltas de um lado para o outro como se estivesse se movendo por um estranho sistema de túneis. Ossinho seguiu logo atrás, imitando cada movimento com facilidade. Na última curva, a libélula baixou — depois disparou em um arco alto antes de descansar ao pé da escada.

A cabeça de Ossinho rolou de seu pescoço, caindo firmemente em suas mãos à espera. Ele correu pelo caminho baixo antes de lançar seu crânio sobre o último obstáculo. Com um chocalhar ansioso, ele deu um salto enorme sobre a luz invisível. No momento em que pousou, seu corpo sem cabeça rolou pelos degraus de pedra com um clunk oco.

Ossinho pegou seu crânio, apoiou-o nos ombros e girou o torso para ficar de frente para o resto da equipe.

Umezawa segurou a alavanca mais próxima, esperando até que Ossinho chegasse ao topo do pedestal oposto. "Pronto?"

Ossinho tagarelou em confirmação.

Umezawa respirou fundo. "Três … dois … um …"

Eles puxaram as alavancas em uníssono. O metal se deslocou do fundo das paredes, rangendo e girando como as engrenagens de um relógio antigo. As lanternas giraram acima deles, rotacionando no lugar até formarem duas linhas retas, iluminando um caminho ao longo do chão vítreo.

"A grade desapareceu", disse Annie. "Acho que é seguro atravessar."

Ninguém se moveu — até que Ossinho removeu seu úmero da cavidade do ombro e o lançou pela plataforma. Ele parou com um ruído seco.

Oko sorriu com sarcasmo. Ele pegou o braço desprendido e o devolveu a Ossinho. "Eu sabia que havia um motivo para eu gostar de você."

O esqueleto empurrou seu braço de volta ao lugar.

Quando o resto da equipe chegou ao pé da escada, Annie olhou para cima, estudando as cores cintilantes na superfície da porta. "Isto não é uma ilusão", disse ela.

"Não." A voz de Kaervek estava ofegante. "É uma salvaguarda." Ele passou por Umezawa, fazendo questão de encará-lo com desprezo. "Sua dependência de engenhocas excessivamente elaboradas demonstra fraqueza. Permita-me mostrar o que a verdadeira magia pode fazer."

Kaervek subiu as escadas, com as palmas das mãos estendidas à frente dele. Chamas alaranjadas teciam em torno de seus dedos, cutucando e testando o feitiço de proteção. As cores ondularam, recuando ante a intrusão da magia de Kaervek. Um som sibilante irrompeu da pedra, um sussurro desafinado tentando revidar, tentando proteger o que quer que estivesse escondido ali dentro.

Oko deu um passo atrás para lhe dar espaço, inclinando levemente o queixo para que sua voz passasse por cima do ombro. "Quando passarmos pela porta, acho que alguns de vocês deveriam ficar para trás com Rakdos. É apenas uma questão de tempo até que alguém perceba que pegamos a chave, e precisamos garantir que nossa saída não seja bloqueada."

"É um pouco tarde para isso", arrastou uma voz.

Oko girou, com os joelhos dobrados enquanto se preparava para retaliar. Akul estava do outro lado da plataforma. Um corte vermelho estendia-se do canto de seu olho até a parte mais baixa de seu nariz. A Companhia Sterling o havia atrasado, mas não conseguiu derrotá-lo.

Um resultado infeliz , pensou Oko secamente.

Esporas Infernais invadiram atrás do dragão, armas acesas para criar uma parede de chamas e trovão.

"Atraiam o fogo deles para longe de Kaervek", disse Oko à sua equipe, em voz baixa. "Precisamos de tempo para abrir a porta."

"É melhor se apressarem." Annie ergueu seu rifle de trovão. "Calculo que a Companhia Sterling não estará muito atrás."

Akul abriu as mandíbulas, acumulando trovão em seu âmago, mas não teve a chance de atacar antes que Rakdos colidisse contra seu flanco e o derrubasse no chão.

Akul lutou para recuperar a compostura enquanto Rakdos erguia os braços e berrava de rir, como se tivesse todo o tempo do mundo.

"FINALMENTE!" sua voz estrondou. "ESTA É A DIVERSÃO QUE ME PROMETERAM!"

Trovão irrompeu de ambos os lados da câmara, e o dragão e o demônio avançaram um contra o outro, rosnando no centro da sala enquanto todos os outros tentavam se manter longe da briga. A equipe de Oko disparou em várias direções, desviando o foco do inimigo para longe de Kaervek, enquanto Vraska e Oko o flanqueavam.

Malcolm voou em direção às lanternas com Breeches agarrado aos seus ombros. Enquanto circulavam pela sala, Breeches lançou vários pequenos explosivos na multidão de Esporas Infernais.

"NA MOSCA!" ele grasnou.

Ossinho saltou para evitar a explosão, os ossos se desprendendo para permitir que os estilhaços passassem por ele antes que seu corpo se recompusesse. Ele escalou as costas de um dos Esporas Infernais, pescando a pistola de trovão reserva presa no coldre. Com um dedo ossudo no gatilho, ele disparou um tiro certeiro no pé do Espora Infernal. O homem uivou, e Ossinho saltou para o chão com alegria.

Gisa conseguiu erguer um único zumbi Espora Infernal, gargalhando de deleite enquanto sua criação cambaleava pela multidão em busca de carne. Geralf retalhava seus oponentes com um par de facas afiadas como navalhas. Seus cortes eram cirúrgicos e estratégicos, mutilando partes do corpo difíceis de recuperar. Do outro lado da plataforma, Eriette encantou vários Esporas Infernais em um estupor inabalável, enquanto Umezawa atacava das sombras, eliminando Esporas Infernais desprevenidos com uma adaga retrátil.

Annie disparou outro tiro de seu rifle antes de usar a coronha da arma para golpear a mandíbula de um Espora Infernal. "Como está aquela porta?", ela latiu para Oko. "Poderíamos mesmo usar a cobertura!"

As mãos de Kaervek soltavam faíscas de magia. "Paciência é necessária. Nada de bom vem de forçar uma salvaguarda a se submeter antes de estar pronta."

Vraska tamborilou suas unhas compridas no ar, observando a batalha se desenrolar. "Há muitos deles", disse ela, baixo demais para que qualquer um, exceto Oko, ouvisse. "Abrir a porta não importará se levarmos o exército deles para dentro."

"O que você está sugerindo?", pressionou Oko.

Seus olhos amarelos brilharam. "Você e eu precisamos chegar à sala do tesouro do cofre. Não importa o custo."

Um clique alto soou do interior da porta de pedra, e o encantamento desapareceu. A escadaria estremeceu, e a porta começou a subir.

Kaervek deu um passo atrás, bem no momento em que um inimigo rosnando colidiu com ele de lado, derrubando-o no chão.

Oko olhou para a equipe. Eles estavam lutando para conter os Esporas Infernais, e sem reforço, ou um lugar para se esconder …

Eles precisavam de ajuda — mas Oko precisava que eles atrasassem Akul por mais um pouco.

Annie captou seu olhar, e sua testa franziu. Quando sua atenção voltou para os Esporas Infernais ao redor, Oko não esperou para se explicar. Ele se virou para a porta sem remorso, desaparecendo escada abaixo com Vraska logo atrás.

A escuridão preencheu o corredor úmido, e o ar frio fez a pele de Oko formigar. No nível mais baixo da sala, um brilho estranho ondulava de dentro de um portal. Lembrou Oko de um Caminho do Agouro. Sua luz estalava com magia volátil, e um entalhe de ferro parecia flutuar no centro como se estivesse preso em uma teia de energia. Feixes dourados escorriam de suas bordas, formando raios de sol. Tinha a forma exata do medalhão.

Oko retirou a chave, a centímetros de distância do mecanismo antigo. A luz cintilou em reconhecimento. "Hora de descobrir o que você está escondendo."

Uma gavinha dourada disparou em direção ao pulso de Oko, envolvendo sua mão como um laço. A força o puxou para trás, enviando a chave deslizando pelo chão.

Kellan estava no topo da escada. Um lampejo de magia ainda pulsava na ponta de seus dedos.

Oko piscou, incapaz de esconder sua surpresa, mas Vraska já estava avançando; no momento em que Kellan encontrasse o olhar dela, ela o transformaria em pedra.

"Espere—" Oko ergueu a mão instintivamente quando um relâmpago cruzou a sala com um crack , fazendo-o recuar. Ele balançou a cabeça, combatendo a névoa brilhante, e percebeu que Ral Zarek havia aparecido ao lado de Kellan.

Vraska retesou-se, não mais preocupada com a presença de Kellan. "Você não deveria ter vindo aqui", disse ela para Ral, com a voz cortante.

"Por que você está fazendo isso?", exigiu Ral. "Nós somos amigos , Vraska."

"Nós também já fomos inimigos", respondeu ela.

Eletricidade faiscou nas mãos de Ral. "Você ainda pode voltar para Ravnica. Não sei o que aconteceu com você, ou onde esteve todo este tempo — mas não precisa ser assim."

Vraska rosnou. "A única maneira de consertar o que fiz é conseguindo o que está dentro do cofre."

Oko estremeceu com as palavras dela. Consertar o que fiz. Elas ricochetearam em sua mente como peças de um quebra-cabeça que não se encaixavam muito bem. Ele sabia que Vraska aceitou este trabalho pela recompensa. Ele sabia que ela fora contratada por Ashiok, assim como ele. Mas o que ele não entendia era a fome em sua voz, como se ela não apenas quisesse o pagamento — ela precisasse dele.

Normalmente, o desespero nos outros era algo em que Oko se deleitava. Tornava as pessoas fáceis de manipular, e ainda mais fáceis de barganhar. Mas as pessoas que mantinham seu desespero em segredo?

Elas não eram maleáveis. Eram perigosas .

"Eu realmente significo tão pouco para você que você nem consegue olhar para mim?", exigiu Kellan, interrompendo seus pensamentos.

Oko desviou sua atenção de Vraska, sentindo o calor da raiva de Kellan. "Eu ia voltar por você. Você ainda ia receber sua parte do tesouro quando o trabalho terminasse."

"Eu não procurei por você através do Multiverso por tesouro ."

"Talvez não. Mas você sabia pelo que eu estava aqui, e foi um participante disposto até o momento em que foi pego", pontuou Oko. "Tratei você da mesma forma que qualquer membro da minha equipe."

"Eu não sou sua equipe; sou seu filho. Gostaria que você pudesse ter visto a diferença."

Oko baixou o queixo. Vraska e Ral ainda estavam discutindo — logo a briga deles passaria das palavras. Ele não tinha tempo a perder.

"Você pode me ajudar", disse Oko friamente, "ou pode sair do meu caminho."

Kellan cerrou a boca, e os músculos de sua mandíbula se retesaram.

Oko o observou por um momento, calculando as chances de Kellan realmente tornar-se inimigo de seu pai, quando se lembrou de que a chave havia caído de sua mão. Os olhos de Oko se moveram, procurando no chão.

Kellan notou.

Eles se moveram ao mesmo tempo, correndo pelo medalhão. Kellan disparou à frente, o corpo erguendo-se no ar enquanto poeira dourada escorria atrás dele. Ele voou rápido demais para Oko capturá-lo, deslizando por baixo dele e agarrando a chave.

Oko derrapou até parar bem quando Kellan saiu de seu alcance. O garoto parou no ar, com o punho fechado em torno do medalhão. Oko passou a língua pelos dentes, os olhos escurecendo. Flexionando os dedos, Oko invocou sua magia e lançou várias gavinhas de cores vibrantes pela sala. Elas cortaram o ar, serrilhadas com espinhos afiados, e se fecharam em torno do torso de Kellan. Oko apenas moveu um dedo, e as gavinhas bateram Kellan contra o chão com força bruta. Kellan soltou um grito agudo, e a chave escorregou de sua mão.

Oko pegou o medalhão. "Havia tanto que você poderia ter aprendido. Tanto que eu poderia ter lhe ensinado", disse ele, com a voz tornando-se um ronrom letal. "Nossa linhagem é mais poderosa do que você imagina."

Kellan levantou-se e cerrou os punhos. "A única coisa que você me ensinou foi a nunca mais confiar em você." Seus ombros tremiam de desafio. "Não vou deixar você abrir este cofre."

Faíscas voavam por perto. A conversa entre Vraska e Ral havia escalado.

Oko apertou o medalhão com força. "Há algo que você deve saber sobre mim", disse ele cuidadosamente, encarando o filho. Não havia ilusão de bondade. Nem meias-verdades para se disfarçar. Ele estava mostrando a Kellan uma parte sua que existia nas profundezas de seu âmago. "Eu não gosto de pessoas me dizendo o que fazer. "

Arte de: Andreas Zafiratos

Oko estava puxando a mão para trás para lançar outro conjunto de gavinhas em direção a Kellan quando um trovão de raspão atingiu seu ombro. Ele tropeçou para trás, segurando o braço enquanto sugava o ar entre os dentes.

Pela mira de seu rifle de trovão, Annie olhava para baixo em direção a Oko do topo da escada. Ela era a melhor atiradora de elite de Encruzilhada do Trovão, e errou de propósito. Oko não se deu ao trabalho de perguntar por quê.

"Você vai mesmo desistir do maior pagamento da sua vida por um garoto que mal conhece?", disse Oko, com a voz carregada de irritação.

"O Multiverso está cheio de pessoas que fazem coisas ruins por motivos egoístas", respondeu Annie com facilidade. "Mas as pessoas que fazem o bem e não esperam nada em troca? Calculo que valha a pena protegê-las."

Oko invocou sua magia, deixando o poder acumular-se em seus braços enquanto se preparava para atacar Annie com suas gavinhas, quando Kellan disparou em seu campo de visão, com os olhos brilhando em um verde estranho. Oko sentiu imediatamente — a calma relaxante que o envolveu, enrolando-se em sua mente como um cobertor. Ele balançou no lugar; Kellan estendeu a mão para o medalhão.

No momento em que seus dedos roçaram a chave, Kellan recuou de medo, agarrando as têmporas enquanto soltava um grito de gelar o sangue. O som estava distorcido na mente de Oko, como se ele estivesse assistindo a tudo em câmera lenta. Sombras se moveram pelo chão, envolvendo não apenas Kellan, mas Annie e Ral também. Eles gritaram em agonia, sobrecarregados pelos pesadelos que se infiltravam em suas cabeças.

A magia de Kellan vacilou, e Oko piscou com força, libertando-se da calma ilusória. Ele seguiu as sombras que varriam a sala, sabendo a quem pertenciam.

Ashiok estava com Vraska ao lado da porta trancada, fumaça escura ondulando a seus pés.

"Seu momento é impecável", disse Oko.

Vraska inclinou a cabeça em direção à porta com um bufo impaciente. "Vamos logo abrir a porta antes que tenhamos mais companhia inesperada."

Oko segurou a chave na fechadura central. O metal estremeceu antes de se encaixar no lugar. Os pinos se estenderam para dentro da porta brilhante, clicando e girando enquanto o centro rodava em um padrão errático.

Arte de: Leon Tukker

Cada peça da chave se soltou, movendo-se em direções opostas. A luz recuou como uma cortina; não havia mais nada para bloquear o caminho.

Com as costas da mão, Oko limpou o sangue do queixo e entrou no cofre do tesouro.

Uma névoa dourada surgiu à vista, estendendo-se em todas as direções. Não se via paredes nem teto — apenas uma extensão aparentemente infinita preenchida com caminhos de metal curvos que levavam ao centro da sala. Escadas pairavam umas sobre as outras, sobrepondo-se de uma forma que as fazia parecer estar constantemente mudando de lugar. No topo da plataforma mais interna estava uma estrutura semelhante a um casulo envolta em vidro. O metal se estendia ao redor da esfera brilhante, marcada com uma escrita antiga e cercada por fios de magia âmbar. Atrás dela, havia um mural de uma enorme criatura de chifres, elevando-se sobre a plataforma como um guardião.

Oko dirigiu-se ao casulo do tesouro, os olhos nunca deixando a gaiola de metal em constante mudança. Ele parou a vários metros de distância e apertou os olhos através da luz pulsante. Uma forma movia-se atrás do vidro, obscurecida demais por uma névoa turva para ser distinguida adequadamente.

Oko franziu a testa. Era algo vivo .

Ashiok flutuou por ele, os pés mal tocando o chão. "Finalmente", refletiram, movendo-se para o casulo. Pressionaram suas unhas afiadas contra o vidro, com mais ternura do que Oko jamais vira. "Eu encontrei você."

A criatura roçou contra a barreira como se estivesse tentando alcançar os dedos estendidos de Ashiok. Naquele momento, uma ilusão se dissipou. Uma que Ashiok estivera usando por algum tempo.

A escuridão evaporou e, sob o manto com capuz de Ashiok, estava Jace Beleren.

As narinas de Oko dilataram-se. O trapaceiro não gostou de ser trapaceado por sua vez. "Há quanto tempo você está se escondendo atrás da sua magia?" "Ele ainda está se escondendo." Annie tropeçou pela porta, focada apenas em Jace. Seu olho brilhava com um laranja vibrante enquanto ela via além da ilusão sob a qual ele ainda estava cuidadosamente escondido. "Suas cicatrizes... Aqueles conectores ... O que aconteceu com você?"

Os olhos azuis penetrantes de Jace se encheram de ressentimento. "Você está procurando por segredos que não lhe cabe encontrar." Ele ergueu uma mão e gesticulou para Annie. Quando ela atingiu o chão, já estava dormindo.

Jace voltou-se para o tanque turvo e pressionou ambas as mãos contra o vidro. O casulo se estilhaçou, e partículas de poeira brilharam no lugar antes de desaparecerem completamente. Uma pequena criatura repousava sobre o que restava do altar. Seu corpo era coberto por uma pelagem laranja, e um único tufo de cabelo creme ficava no topo de sua cabeça, preso entre dois chifres escuros. Uma cauda longa se enrolava em suas pernas, oca na ponta. Por dentro, uma orbe azul cintilou para a vida. Seu nariz se moveu, sentindo o ar livre, e um par de grandes olhos verdes se abriram como se a criatura estivesse dormindo por muito tempo.

Jace pegou a criança em seus braços, aninhando-a contra o peito. A criança mal teve tempo de processar o que estava acontecendo quando Jace pressionou um dedo contra sua testa, enviando-a de volta ao sono.

"Descanse agora", disse Jace. "Haverá tempo para nos conhecermos."

"O que está acontecendo?" Oko exigiu. "Você disse que havia poder no cofre. Mas isso — isso é uma criança. Um bebê ."

"Ele é muito mais do que isso", respondeu Jace, com os olhos brilhando enquanto acenava para alguém atrás de Oko.

Oko virou-se, mas Vraska já estava esperando.

"Seus serviços não são mais necessários", disse ela. Seus olhos brilharam com magia dourada, e Oko sentiu a rigidez se espalhar por seus pés imediatamente. Quando ele olhou para baixo, suas pernas já haviam se transformado em pedra. Oko lutou contra a pontada da traição enquanto o feitiço de petrificação subia por ele. Se não agisse agora, sua vontade seria dominada pela magia de Vraska, e seria tarde demais. Por um momento, ele se perguntou se Kellan teria o mesmo destino.

Quando a pedra atingiu o pescoço de Oko, ele afastou o pensamento e transplanou para fora da Junção do Trovão.

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Kellan se mexeu, os dedos raspando o chão de pedra. Ral estava dormindo por perto, mas Kellan não conseguia ver Annie em lugar nenhum.

Ela deve ter ido atrás de Oko sozinha, percebeu Kellan.

Ele se levantou e tropeçou para a câmara final. Um brilho tênue irradiava de um altar quebrado, e ele encontrou Vraska em pé ao lado de um homem que Kellan não reconheceu. Em seus braços estava uma criança adormecida.

Annie estava deitada no chão, imóvel.

Kellan disparou em direção a ela, poeira feérica brilhando atrás dele. Quando chegou ao seu lado, Vraska, o homem e a criança haviam desaparecido sem deixar rastros.

O chão estremeceu, e rachaduras apareceram na porta do cofre. Fragmentos de rocha caíram do arco, despencando no chão como pedras de granizo.

Kellan verificou freneticamente a respiração de Annie. Ela estava viva, mas havia uma ferida em sua têmpora onde ela caíra, e sangue escorria por sua bochecha. Ele passou um braço em volta dela e puxou o peso dela para si. Ela se moveu levemente, gemendo enquanto Kellan a ajudava a se levantar.

"Temos que ir", ele insistiu.

Annie esforçou-se contra Kellan, alcançando seu rifle de trovão que ainda estava caído no chão. Ele o pegou com sua mão livre, e eles se arrastaram para a porta, quase colidindo com Ral.

"O teto está desabando", disse Kellan rapidamente.

Ral olhou para o altar semi-destruído em confusão. "Mas — o tesouro —"

"Não importa mais. O que quer que estivesse dentro deste cofre se foi."

Ral cerrou a mandíbula, solene.

Eles correram de volta pelo cofre, ziguezagueando pela bagunça de rochas cadentes. Quando chegaram à primeira câmara, a maioria dos Hellspurs já havia fugido. Akul estava estirado no chão, de olhos fechados em derrota. Prendendo seu corpo inerte ao chão estava um vitorioso Rakdos.

"Todos precisam sair desta rocha!" gritou Kellan em aviso. "Algo no cofre foi ativado, e este lugar está desmoronando!"

Rakdos olhou para cima, piscando para a lava derretida que começava a jorrar pelas rachaduras no teto. O resto da equipe trocou olhares cautelosos, sem saber se a presença de Ral era uma preocupação.

Eriette emergiu do local de batalha lotado, limpando o sangue de sua testa. "Onde estão Oko e Vraska?"

"Eles já partiram", disse Kellan rapidamente. "Não há tempo para explicar — precisamos nos mexer ."

A equipe fugiu de volta pelo corredor enquanto o som do cofre sendo despedaçado rugia atrás deles. No momento em que alcançaram o ar livre, Malcolm e Breeches partiram noite adentro, voando em direção ao amplo horizonte do deserto. O resto da tripulação de Oko empilhou-se nas costas de Rakdos, onde Nanico se acomodou confortavelmente entre seus chifres.

Rakdos bufou. "EU JUREI UMA VEZ NUNCA MAIS SER MONTADO. QUE SE SAIBA QUE ESTA É A ÚLTIMA E DERRADEIRA VEZ!" Com um último rosnado, ele decolou sobre a borda da rocha flutuante.

"Vá em frente", disse Kellan para Ral. "Eu mesmo posso levar a Annie voando."

"Fique o mais longe possível de Tarnation. Eu irei te encontrar quando for seguro." Um estalo de relâmpago disparou para baixo, ziguezagueando no cânion, e Ral se fora.

Annie fez uma careta. "Quando se trata de viajar, prefiro quatro pernas no chão."

"Você não gosta de voar?"

"Eu montei em um pássaro uma vez que quase quebrou meu pescoço. Então, não."

Kellan recuou diante da lava borbulhando do chão. "Acredite em mim — voar é muito melhor do que cair."

Ela deu um aceno curto, mas antes que alcançasse Kellan, Akul irrompeu da entrada do cofre, com as garras bem abertas. Ele agarrou a cintura de Annie e a puxou para si, trovões faiscando em suas escamas. Ela gritou em alarme, chutando as garras de Akul, mas isso apenas o fez apertar mais forte. Kellan ouviu um estalo e temeu que fosse osso.

O pânico se instalou, e Kellan lutou para se concentrar. Ele ergueu as mãos, pronto para invocar um par de espadas de energia, quando se lembrou do que seu pai dissera — sobre a linhagem deles e o poder que fluía através deles. Kellan sabia que nunca seria seu pai. Ele não queria ser. Mas as habilidades que vinham de seu lado feérico não eram algo a temer — elas eram parte dele. Kellan havia vacilado da última vez que lutou contra Akul porque não estava pronto para aceitar sua magia e sua herança. Não completamente.

Ele não cometeria esse erro novamente.

Kellan baixou as mãos e respirou fundo, estabilizando sua magia enquanto ela pulsava através dele. Você consegue fazer isso.

Kellan enviou um fiapo de energia dourada em direção a Akul como uma isca, lenta e estratégica. No momento em que seus olhares se cruzaram, Kellan saltou para a mente de Akul sem aviso. Ele penetrou profundamente no cerne do dragão, além da raiva e da sede de sangue que ondulavam ao seu redor. Quando a magia de Kellan se agarrou à alma de Akul, ele segurou firme e amorteceu cada grama de luta até que o dragão não passasse de um fantoche. Não era apenas hipnose — era controle .

"Solte-a", ordenou Kellan.

As garras de Akul relaxaram, e Annie caiu de volta no chão. Atrás do dragão, a montanha rochosa se despedaçou, peça por peça. Pedras pontiagudas despencaram no chão, e lava irrompeu de cada fenda, jorrando como uma ferida aberta na cidade de Tarnation abaixo.

Os olhos de Kellan não deixaram Akul. Ele não podia deixá-lo ir livre; se o fizesse, os Hellspurs nunca parariam de vir atrás de Kellan, de Annie e da cidade que ela queria tão desesperadamente proteger. Tinha que acabar agora.

Kellan enviou outra onda de magia para a mente de Akul. "Volte para dentro do cofre — e não saia."

Apesar do brilho sutil em seus olhos que sugeria que uma parte dele entendia o que estava acontecendo, Akul obedeceu. Ele marchou de volta para a entrada do cofre em colapso, a cauda arrastando-se lentamente atrás dele. Kellan viu a silhueta do dragão desaparecer enquanto as rochas que caíam selavam a abertura.

Quando o chão se partiu e a montanha flutuante começou a soltar os últimos escombros, Kellan agarrou Annie e fugiu pelo céu. A última coisa que viu do cofre foi uma orbe dourada gigante que toda aquela rocha havia ocultado.

Em um momento estava lá — e então fios de magia se teceram ao redor da esfera, pulsando em cada costura, e o cofre disparou em direção às nuvens e desapareceu de vista.

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Oko apareceu das Eternidades Cegas dentro do Saloon Wildcard. Não havia sinal da magia de Vraska; ele havia se livrado de cada último pedaço de pedra graças à sua habilidade de mudar de forma.

Ele tivera sorte — mas preferia ter sido esperto.

Vraska e Ashiok o haviam enganado. Ou Vraska e Jace , ao que parecia. Eles usaram ele e sua tripulação por seus talentos e fugiram sem pagar o que lhes era devido. E a criança...

Oko cerrou os lábios e alisou as rugas acima da testa. Não fazia sentido se preocupar com nada disso agora. Ele preferia lamber suas feridas e procurar por melhores oportunidades. A vingança podia esperar.

Passando a mão por seus cabelos escuros, Oko admirou seu reflexo no espelho atrás do balcão antes de se dirigir para a sala dos fundos.

Rakdos andava de um lado para o outro do lado de fora da janela. Nanico fazia o seu melhor para atrair Geralf e Gisa para uma brincadeira de perseguição, mas nenhum dos necromantes parecia interessado em morder a isca, ocupados demais afogando sua decepção em uma garrafa semivazia. Eriette estava sentada ao piano, batendo em uma tecla ocasional por tédio, enquanto Umezawa e Kaervek estavam empoleirados em extremidades opostas da varanda, encarando-se um ao outro das sombras.

Oko exibiu um sorriso brilhante. "Não se preocupem, meus amigos — estou vivo e bem!"

A voz de Eriette soou cortante de impaciência. "Presumo que nenhum de nós será pago?"

Gisa enterrou a cabeça nas mãos. "Os Hellspurs não tiveram graça nenhuma. A maioria fugiu antes que eu pudesse terminar qualquer um dos meus necrófagos!"

"A missão inteira foi um desastre", interveio Umezawa. "Fomos armados para falhar desde o início."

"Não me inclua em sua humilhação coletiva", cuspiu Kaervek. "Eu fiz a minha parte e rompi as proteções mágicas. A incapacidade de nosso suposto líder de gerenciar este grupo de malfeitores é o verdadeiro fracasso."

Oko deu um peteleco em sua unha com desdém. "Vraska e Ashiok sempre planejaram nos trair. Eles me traíram, assim como traíram todos vocês." Ele olhou em volta, contando a tripulação que ainda restava. "Onde estão Breeches e Malcolm?"

"A lealdade deles sempre foi para com a górgona", apontou Eriette. "Quando ela não voltou, eles partiram."

Oko tentou não demonstrar seu desapontamento. Os gritos de Breeches às vezes o irritavam, mas Malcolm era um batedor ideal. Oko pensou que ele poderia ser uma adição útil para uma equipe mais permanente.

Geralf bateu um dedo contra seu copo vazio. "Umezawa está certo — isso foi um desastre do começo ao fim."

"QUE TEMPO DIVERTIDO!" bradou Rakdos através da janela aberta próxima. "EU NÃO ME DIVERTIA TANTO HÁ DÉCADAS!"

Nanico ergueu os braços, os ossos chacoalhando enquanto ele comemorava.

Umezawa cruzou os braços sobre o peito. "Não há nada engraçado em ser enganado e ficar sem pagamento." Ele fixou o olhar em Oko. "Eu gostaria de saber o que você planeja fazer a respeito."

Gisa ergueu as sobrancelhas, sorrindo com antecipação.

"Nada", admitiu Oko simplesmente. Ele foi imediatamente recebido por uma coleção de olhares carrancudos. "Pelo menos não por enquanto. Não temos pistas de para onde Ashiok e Vraska foram — e não tenho o hábito de desperdiçar tempo e recursos quando há muitos outros tesouros a serem encontrados no Multiverso."

Kaervek desdenhou. "Você pretende deixá-los ir?"

"Eles aparecerão eventualmente." Os olhos de Oko escureceram. "Quando esse dia chegar, eles se arrependerão de terem nos cruzado. Mas até lá..." Ele deu de ombros. "Podemos descontar nossas frustrações uns nos outros, ou podemos concordar em nos reunir quando uma oportunidade melhor surgir. Por vingança ou por um lucro maior."

Rakdos rugiu com entusiasmo. Os outros trocaram olhares.

Oko colocou as mãos nas costas. "Podemos concordar em manter contato?"

"Você sabe onde me encontrar", observou Umezawa. "Mas vou triplicar minha taxa na próxima vez." Ele inclinou a cabeça levemente antes de desaparecer de volta nas sombras.

Kaervek acenou com a mão no ar e dirigiu-se para a porta. "Você me deve por este fracasso miserável, Oko. Darei a você tempo para procurar pelos traidores. Saiba apenas que, um dia, pretendo cobrar o que me foi prometido."

Gisa suspirou do outro lado da mesa, enrolando uma mecha de cabelo no dedo. "Acho que pode contar comigo e com meu irmão. A menos que eu o tenha matado antes disso, é claro." Seu sorriso se alargou em seu rosto. "Mas não se preocupe — eu sempre posso trazer o cadáver dele para as reuniões da equipe!"

Geralf revirou os olhos. "Se tiverem a escolha entre um médico treinado e uma domadora de cadáveres idiota, escolherão a mim todas as vezes."

Gisa mostrou a língua. Os dois saíram da sala, discutindo em voz baixa.

Nanico chacoalhou e subiu correndo pelo rosto de Rakdos.

"O ESQUELETO TAMBÉM RETORNARÁ PARA MAIS DIVERSÃO!" rugiu Rakdos pela janela antes de se voltar para o deserto. Suas asas se abriram, bloqueando a luz do sol da janela, e ele decolou com Nanico agarrado alegremente aos seus chifres. "UMA ÚLTIMA VEZ, ESQUELETO! UMA ÚLTIMA E DERRADEIRA VEZ!" E ele se fora.

Apenas Eriette permaneceu, ainda batendo em uma única tecla no piano. O silêncio se estendeu entre ela e Oko até que finalmente ela perguntou: "Gostaria de saber o que aconteceu com seu filho depois que você desapareceu?"

Oko encostou-se no pilar próximo, com as mãos nos bolsos. "Se ele for parecido comigo, presumo que ele tenha escapado."

Eriette assentiu. "Annie também." Ela inclinou a cabeça. "Você pretende incluí-los neste espetáculo de circo uma segunda vez?"

"Não. De agora em diante, os negócios deles são deles", disse Oko, e ele falava sério.

Conhecer Kellan não fizera parte do plano. Nem traí-lo. Mas ambas as coisas aconteceram, e Oko não tinha intenção de se sentir culpado por isso. Kellan estava seguro — ele superaria o que aconteceu entre eles, eventualmente. Talvez seus caminhos pudessem até se cruzar novamente algum dia.

Oko nunca tivera muito de um pai. Ele gostaria de ter sido um melhor para um filho seu. Se as circunstâncias tivessem sido diferentes...

Ele endireitou os ombros e espantou o pensamento. No momento, havia coisas maiores no Multiverso para se concentrar.

Oko alcançou a garrafa semivazia que Geralf deixara para trás e encheu dois copos quase até a borda. Ele passou um para Eriette e ergueu o seu.

"Até a próxima", disse ele.

Eriette ergueu o copo. "Aguardo ansiosamente o reencontro."

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Fazia mais de duas semanas que Maag Taranau caíra do céu, causando estragos na superfície de Tarnation. Um único hematoma era a única ferida visível que restara em Kellan do assalto fracassado, mas a dor que ele carregava no coração era muito mais difícil de se livrar.

Kellan tentava não pensar em Oko, mas se pegava procurando por seu pai no rosto de cada estranho. Talvez fosse bobagem pensar que seu pai pudesse estar observando-o através de uma ilusão, mas também era reconfortante. Kellan preferia a versão imaginada de seu pai, e não estava pronto para deixá-lo partir ainda.

Havia muitas tarefas no rancho de Annie para manter Kellan ocupado. Isso o lembrava de seus dias na cidade repleta de ovelhas de Orrinshire, quando o tempo passava um pouco mais devagar. Ele gostava do trabalho, da rotina e do fato de não ter pressa para correr para outro plano. Ele nunca sentira realmente que pertencia a lugar algum; se não podia consertar isso conhecendo seu pai, talvez pudesse consertar ajudando seus amigos.

Kellan ergueu o último fardo de feno na pilha e fechou as portas do celeiro, virando-se para observar os animais pastando no campo próximo. Ouviu-se um estalo de relâmpago, fazendo alguns dos cavalos empinarem em alarme.

Ral Zarek apareceu no portão. Quando avistou Kellan, ergueu uma mão em saudação.

Kellan tirou as luvas de trabalho e as enfiou no bolso de trás antes de caminhar em direção a Ral. "Não me diga que você já rastreou Vraska?"

"Não", admitiu Ral, sombrio. "Não houve sinal dela — ou de Jace — desde que partiram." Ele suspirou, com a expressão suavizando. "Mas há muito trabalho a ser feito em Ravnica. Eu realmente poderia usar alguém em quem confio."

"Você está me oferecendo outro emprego?"

Ral riu. "O que posso dizer? Sou um glutão por punição."

Kellan olhou de volta para o rancho. O buraco onde Annie desenterrara seu rifle de trovão ainda era visível. Ela não estava pronta para enterrá-lo novamente. Não até ter certeza de que a cidade estava segura.

Kellan ficara por ali pelo mesmo motivo. Ele achou que era o mínimo que podia fazer para retribuí-la. Mas com Akul fora e Tarnation em ruínas, Kellan estava começando a pensar que eles poderiam realmente ficar bem.

Ainda assim — ele não estava pronto para deixar a Junção do Trovão ainda.

"Acho que já vaguei o suficiente por um tempo", admitiu Kellan. "Além disso, estou esperando alguém."

Ral sorriu maliciosamente. "Parece que há uma história aí. E pelo jeito que você está corando, acho que é uma boa."

Kellan conteve um riso nervoso. "Não sei do que você está falando."

Ral olhou por cima do ombro de Kellan em direção à casa. "É torta de batata-doce que estou cheirando?" Ele respirou fundo pelo nariz. "Quais são as chances de Annie me oferecer um pouco se eu for lá dar um oi?"

"Você pode tentar", disse Kellan. "Mas não se surpreenda se ela colocar você para cortar mourões de cerca em troca."

Ral arregaçou as mangas. "Por torta? Eu me tornaria uma máquina de construir cercas para ela."

Kellan o viu desaparecer dentro da casa. Ele pensou em se juntar a eles quando viu um cavaleiro solitário em um cavalo descendo o caminho. Ele apertou os olhos sob a luz do sol, colocando a mão sobre os olhos para ver melhor.

Era uma mulher carregando uma sombrinha. Com orelhas pontudas e longos cabelos pretos que caíam em uma trança no ombro, ela estava vestida com camadas grossas apesar do sol escaldante da tarde. Pendurada em seu ombro estava uma bolsa pesada — vários pedaços de pergaminho enrolados apareciam atrás, e tinteiros balançavam em tiras de couro nas laterais.

Kellan encontrou-a no meio do caminho, sorrindo. "Finalmente encontrou o caminho para sair daquela ruína Gruul, não foi?"

"Recebi seu convite na torre de retransmissão", disse Amalia, estendendo a mão para que Kellan pudesse ajudá-la a descer. Ela exibiu um sorriso, o rosto pálido voltado para ele. "Sabe, é muito caro enviar mensagens assim. Você sentiu tanto a minha falta?"

As bochechas de Kellan escureceram, e ele passou a mão na nuca. "Eu — estou feliz que você esteja aqui."

"Vim todo o caminho de Ravnica e você nem planeja me dar um abraço?", ela brincou, girando sua sombrinha para que as sombras dançassem ao seu redor.

Kellan abriu a boca, envergonhado, quando Amalia jogou um braço em volta do pescoço dele e o apertou.

"Senti sua falta, Kellan", disse ela contra a bochecha dele. "E não vejo a hora de começarmos a mapear este lugar juntos."

Epílogo 1: Traga o Fim, Parte 1

Um Ano Antes. A Árvore da Invasão.

Tudo o que resta no fim da jornada é catástrofe; Jace tem as mãos no sílex, Phyrexia terá sucesso em sua invasão, e tudo o que resta é tentar desesperadamente explicar aos seus amigos por que a aniquilação é o único caminho para a paz.

Eles estão tentando convencê-lo do contrário, mas só conseguem ver o que parece certo e não o que é real. Eles não estão ouvindo. O coração de Jace dói pelos bilhões e bilhões que sobreviverão para sofrer e testemunhar sua própria aniquilação, e ele gostaria que a única pessoa cuja bússola moral fosse firme como pedra estivesse aqui para defender seu argumento; o Multiverso não pode persistir se Phyrexia sobreviver. Devemos deixá-lo recomeçar.

Mesmo se vencermos, milhares de planos morrem. Se perdermos, a existência é abandonada. Devemos aos planos e às gerações que se seguem presenteá-los com um Multiverso não poluído por Phyrexia.

Eles devem agir. Jace sabe que ele é uma bomba. Ele é dezesseis toneladas de pirita; ele é um campo de facas viradas para cima; ele é um martelo cercado por teias de aranha, e neste momento, ele mantém sua mão trêmula a dez centímetros da borda do sílex. Os cabos que retorcem em seu braço, os apêndices são dele, mas eles recuam do artefato. O que resta dele fica fascinado com o reflexo; nem mesmo a phierese pode exterminar o instinto de autopreservação. O que não é ideal. Ele precisa morrer prontamente para que Elesh Norn não possa detoná-lo.

A transformação está quase completa; apenas uma quantidade exaustiva de autocontrole a manteve sob controle. A cada hora que passa, outro cabo serpenteia para fora de seus braços e cutuca a mente de seus amigos — e a cada vez, ele gasta esforço para forçá-lo a sair e silenciá-lo. O aparecimento do primeiro já era alarmante, mas o que o tornou perturbador foi o fato de que, se ele fechasse os olhos, ainda conseguia ver através deles. Ele olha, agora, para seus amigos, observando cada um de seus rostos se tornar uma máscara de raiva, decepção, mágoa. Jace pode sentir o gosto do sentimento de traição deles.

Ele sabe o quão perigoso será quando — não se — Phyrexia vencer. Afinal, eles já transformaram uma das pessoas mais poderosas que ele já conheceu. Mesmo com suas habilidades, que chance ele tem? Mesmo agora, Jace sente seu dom se espalhando descontroladamente, sente o rastejar do óleo tão quente e acolhedor quanto uma fonte termal. Ele sente a atração, sente o cheiro de enxofre-aviso de sua morte. A Vraska que ele conhece está morta, e ele estará morto, e tudo será um, então é lógico recomeçar o Multiverso de novo; sacrificar os poucos pelo bem do infinito, certo Gideon?

Meus amigos não entenderão, reconhece Jace. O sentimento deles de terem sido enganados não durará muito, pelo menos. O sílex levará apenas momentos para entrar em vigor. Com um último olhar para seus aliados, seus amigos, Kaya e Kaito, ele pensa por um momento em dar-lhes alívio; ordenando que fechassem os olhos e dormissem até a morte, mas lembrando que ele não é mais aquele garoto. Sua última gentileza em todos os seus últimos suspiros permitirá a eles sua agência.

Ele também sabe o nome da última pessoa a usar o sílex. Ele sabe que tipo de homem ele era. Liliana uma vez murmurou um velho ditado dominariano para ele em um momento de raiva, sibilando um nome que ele não conhecia com o veneno de uma maldição: "Mantenha suas pálpebras abertas, ou você verá com os olhos de Urza."

Jace sabia que era um insulto, mas nunca entendeu o contexto. Agora, com as mãos no sílex, seus dedos literalmente na borda do Armagedom, aquela linha entre o que é bom e o que é correto parece imaginária. Urza não era um homem justo e, bem, nem ele é. Mas o que é correto às vezes é apenas, no momento, bom. Talvez apenas alguém como eles pudesse fazer algo assim.

Enquanto estivermos todos aqui, não podemos evitar tornar tudo pior.

Jace agarra o sílex e, ao fazê-lo, rende-se.

"Limpe a terra. Traga o fim." ele murmura. "Sinto muito."

Ele se corta e, no sílex, despeja toda a miséria que consegue sentir; os amigos e planos perdidos para Phyrexia. Apenas a verdadeira obliteração pode purificar.

O corpo de Jace sofre espasmos, seus olhos estão acesos, e qualquer controle que ele tivesse sobre a matéria e o self é cortado. Ele entra em pânico, tenta agarrar o controle, alcançando as rédeas de seu próprio corpo, mas o completamento é final — Jace, o Phyrexiano, está aqui e não tem espaço para trivialidades de carne.

Uma parede desaba, e sua mente consciente se fecha para o mundo desperto, sufocando-o na escuridão familiar.

É como cair, essa desconexão. Ele se pergunta vagamente se o sílex funcionou enquanto cede, parte para dentro e para baixo, nadando através do acolhimento quente da phierese e recuando; não para a morte, não para uma nuvem brilhante com Gideon e Kallist esperando por ele, mas para o vasto interior de sua mente.

Seu corpo permanece, mas Jace se foi.

Enquanto cai pelo interior de sua mente, ele está se selando, desconectando-se da superfície. Ele não sabe dizer se queria recuar ou se a versão Phyrexiana de si mesmo o obrigou.

Estranho; é assim que o completamento se parece? É familiar. Parece esquecimento.

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Jace acorda para algo como a consciência em uma planície vazia de sua mente, sem costura de horizonte ao longe, apenas pedra de alabastro contínua com um poço simples em seu centro. Ele esteve aqui tantas vezes antes.

O poço da própria mente de Jace é familiar e inquietante; se ele coloca a palma da mão na estrutura, ela é tão quente quanto seu sangue. Ele se aproxima, infeliz (isso de novo não), e joga as pernas sobre a borda, deixando-se cair ainda mais.

Para dentro.

Para baixo.

Ele colide com segurança com a superfície de um mar quente. Ele nada até a superfície, cospe sal e pisca sob a luz do sol. A maré o empurra suavemente em direção ao raso. A água brilha turquesa e acolhedora; ao redor de seus pés, ele vê o brilho dos peixes, e sob os dedos dos pés, sente areia grossa e coral pulverizado. Há uma brisa suave que carrega um albatroz solitário lá no alto que não diz nada, mas cuja presença sinaliza que Jace só poderia estar em um lugar.

Um fac-símile da Ilha Inútil ergue-se como um farol verde suave logo atrás dele. A visão poderia ser motivo de alarme, mas para alívio de Jace, ele não parece ter amnésia desta vez. Ele sabe que está em sua mente. (Como — uma bolha? Uma seção de sua consciência mantida a salvo da phierese? Parece correto; ele já mexeu com monstros o suficiente.) E ele sabe que esta versão de si mesmo está intocada. Jace olha para baixo. Ele não tem cabos ou ferimentos; parece inteiro. Ele olha para o oceano calmo e límpido; parece que ele fez, no fundo de si mesmo, um reduto para sua mente — uma pequena peça intacta, escondida do óleo cintilante.

Mas qualquer momento que ele tenha para contemplar sua existência é interrompido por um imenso puxão.

Uma corrente de retorno, puxando-o violentamente de volta pelo caminho por onde veio.

A Ilha Inútil torna-se pequena abaixo dele, o mar amplo e distante. Ele grita de surpresa e raiva enquanto é puxado para cima. Espere, não, era bom lá —

Para fora de qualquer paraíso liminar para onde ele havia recuado em sua mente.

Longe.

Para o céu.

Para um buraco lá no alto, uma caverna escura redonda que só pode ser a base do poço.

Jace ainda é puxado para cima, batendo nas paredes do poço, fechando os olhos com força enquanto é sacudido através do gelo e do óleo, e de repente está... acordado.

No mundo físico.

De volta ao seu corpo. Seus pés pisam em matéria real, sua pele estremece de pânico. Respirando ar real, piscando seus próprios (dois) olhos enquanto ainda percebe a periferia através dos malditos cabos em seus braços.

Ele está na Árvore da Invasão? O que aconteceu? Quanto tempo passou?

Seu corpo não é seu; agora está completo. Há ação e gritos, seus aliados gritando por perto — Jace conclui que apenas momentos se passaram desde que ele ativou o sílex. Ele está acordado, e não deveria estar. Pânico — tudo está prestes a acabar, então por que não acabou?

Jace olha para baixo e vê uma espada atravessada em seu peito, o Halo dentro dela vazando da ferida que acabara de esculpir.

Oh.

Alarmado, uma dor lancinante florescendo por todo o seu corpo, ele segue o instinto e coloca uma ilusão ao seu redor. Se ele não está morto, a melhor opção é se fingir de morto. Seu duplo ilusório retira facilmente a espada enquanto o verdadeiro Jace, dolorosamente consciente de suas próprias faculdades, cai no chão com a espada ainda no esterno. Ele vomita bile negra. Cuspindo, tremendo, seu coração bate com óleo. Ele se agacha, mãos no punho, e com coragem pragmática retira a espada, invisível e angustiado, fazendo tudo o que pode para ficar quieto (embora os sons que emergem ele abafe com uma onda psíquica). A espada cai no chão, e ele cai prostrado ao lado dela, tremendo, gaguejando, o Halo na lâmina prendendo sua psique ao controle sobre seu corpo Phyrexiano. Ele observa, sem ser visto.

Jace envia a ilusão para o lado de Elesh Norn e fica grato por, apesar de seu domínio, ela ainda ser uma amadora psíquica. A Mãe das Máquinas fala poeticamente: "Eles são Um. Você, também, pode ser Um. Apenas ceda, e tudo acabará rapidamente."

Ele interpreta a ilusão como silenciosa, controlada, arrogante mas submissa, uma ferramenta conveniente para os esquemas de outra pessoa, e Elesh Norn não percebe nada. É assim que você me vê, não é, sua criança telepática? A ilusão sorri com alegria arrogante enquanto o verdadeiro Jace vomita mais uma vez. O óleo sangra por seus dentes cerrados. Ela é um alvo arrogante e fácil. Se ele não estivesse atravessado, daria um derrame em Norn.

Tyvar diz não. Kaito passa com uma casualidade que Jace cobiça. Kaya mais ou menos cospe no convite. "Inimigos serão", conclui Elesh Norn.

Ele consegue sentir o tempo se esgotando e o Halo fluindo. Jace não sabe se será curado ou se este antídoto apenas permitirá que ele tenha consciência de sua partida. Ele está fraco demais para lutar; o fim ainda está aqui. Mas há esperança na ferida em seu peito — Jace não pode mais salvar o Multiverso, mas pode salvar ela.

Vraska ficaria bem com isso se fosse Norn, ele justifica enquanto, sem ser convidado, vasculha rapidamente a mente de Elesh Norn. A experiência é desagradável, como lavar as mãos no limo viscoso do fluido espinhal. Mas é a missão de Norn que o detém.

Vá para casa, ordena a Mãe das Máquinas, vá para casa.

Leva um momento para Jace processar o comando. Ela não é psíquica, nem é metade da pesquisadora que Bolas foi; os desejos de Norn são simples e diretos. Mas Jace ainda ouve os sussurros de como seu eu Phyrexiano traduziria o desejo — volte para Vryn. Conserte o que você quebrou. Esta é a sua expiação.

(Pois Jace se lembra, agora, do que ele deve expiar por.)

(Mesmo depois de recuperar suas memórias, Jace selou Vryn atrás de uma parede. Com olhos adultos, ficou muito mais claro o que Alhammarret o fez fazer, que influência seus crimes tiveram. Quanto da guerra eles inflamaram, como a esfinge se deliciava em apagar a mente de Jace para que o menino pudesse produzir mais um fósforo.)

O esforço de ler a mente de Elesh Norn quebra sua concentração — Jace sente a maré de antes começar a puxá-lo de volta, seguro e longe, e sente sua consciência começar a recuar para dentro do poço. Ele se agarra mentalmente, gagueja e sente seu corpo começar a transplanar para o local que Norn lhe designou.

Ele não pode ir para lá.

Ele deve ir para lá.

O fôlego de Jace se aperta e condensa enquanto ele rasteja invisivelmente pelas Eternidades Cegas, afastando a ilusão que deixou para trás, e enquanto seu corpo se eleva e sua mente recua. Ele sente os sentidos de seu corpo distante e se agarra ao terror da nostalgia: o cheiro de petricor, de ozônio carregado, chuva em matagais, o tamborilar da névoa na imensa curva de um anel de mago.

Ele consegue gritar "Não!" enquanto a phierese retoma seu controle e arranca o pino de Halo. Seu corpo sai do éter das Eternidades Cegas e pisa no solo úmido de um plano que ele não via há anos. A corrente de retorno arranca a mente de Jace mais uma vez, longe da consciência e para o amplo oceano interno de sua psique.

A phierese o empurra ainda mais longe, e ele perde o controle, caindo de volta nos recessos de sua mente e para longe de seu corpo — Jace colide com as águas mentais do mar raso com um mergulho.

Ele se levanta, arquejando, cuspindo sal e batendo na superfície da água com raiva. Ele caminha até a praia, praguejando, e emerge tomado pela fúria. Ele não sabe o que pode fazer; o Halo permitiu que ele retornasse à consciência uma vez, mas foi uma solução temporária. Aqui dentro, ele só pode controlar sua mente, não o corpo além.

Jace agacha-se na areia, desesperado para pensar em uma solução. Como um prisioneiro escapa de uma cela sem porta?

Você coloca fogo nela, sua mente sugere prestativamente.

Uma lembrança distante queima na superfície, e ele a ouve ali ao seu lado na praia. "O cérebro é a sede do corpo, e o corpo cura ou definha sob a liderança do cérebro."

É uma memória antiga, complicada, distante e ecoada através de décadas e camadas de esquecimento, mas sua sabedoria fornece a resposta. Ele precisa se deixar doente, precisa forçar seu corpo a lutar contra o que sua mente não consegue.

Jace levanta-se, planta os pés na areia macia como farinha da praia. Ele contrai o abdômen, expira e sente seus olhos se acenderem enquanto estende as mãos para o horizonte em um comando telepático.

O ÓLEO EM SUAS VEIAS É UM VÍRUS.

Nada acontece imediatamente, mas ele vê na borda do horizonte que o céu começa a escurecer e a se dobrar, turbulento e cor de pervinca.

VOCÊ ESTÁ COM FEBRE. VOCÊ ESTÁ MORTALMENTE DOENTE.

Relâmpagos estalam pelo céu, e Jace se sente puxado para frente, os dedos dos pés raspando a areia enquanto é levantado e puxado. Ele insiste, focando a totalidade de sua vontade em sua tarefa. Se ele quer sobreviver, deve forçar seu corpo a combater o vírus da phierese. Ele o incita a deixá-lo entrar novamente —

VOCÊ ESTÁ RESPIRANDO E VOCÊ ESTÁ VIVO.

VOCÊ ESTÁ COMBATENDO UMA INFECÇÃO E VENCENDO.

Jace pisca, um lampejo de consciência para o que quer que seu corpo esteja fazendo do lado de fora —

— seus ouvidos não estão exatamente zumbindo, mas chiando com estática —

— seu corpo está sob um céu turbulento, apertado em uma multidão, seus ouvidos estão zumbindo e ele está pressionado contra uma longa linha de seus compatriotas Phyrexianos. Ele vê centenas e centenas de pessoas por todos os lados, seus próprios cabos olhando e escaneando e focando um pulso de dano psíquico para fora, seu corpo sente o tamborilar da chuva e ouve um zumbido estranho, algum batimento cardíaco planetário estranho, e reconhece com profunda e apaixonada culpa que é o som dos anéis de mago. Ele não o ouvia desde criança. Mas é quando olha para cima que percebe o contexto de seu entorno; Phyrexianos ao seu lado marcham para frente, um caminho de corpos limpo para eles, e ele é quem o limpou.

Abaixo dele no campo de Vryn estão pessoas, cada uma tendo espasmos, arquejando, seus membros batendo no chão, um mal súbito multiplicado. Vinte soldados sofrem convulsões à sua frente, suas mentes cantando para a de Jace em uma cacofonia estática. O volume mental é demais, alto demais, e leva um momento para Jace perceber que o zumbido, a estática, o feitiço que iniciou as convulsões veio, veio dele.

Ele cancela o feitiço e respira instavelmente através de sua náusea. Seu coração se quebra e suas mãos tremem. Assombrado, Jace vê sua verdade no sofrimento à sua frente. Este é quem ele realmente é, um poder imparável sem amarras de vergonha, este é quem ele sempre poderia ter sido.

A maré puxa mais uma vez, sua consciência deriva, a versão Phyrexiana de si mesmo sobe à superfície enquanto Jace é puxado de volta e, para parar a mudança, Jace comanda seu corpo com toda a força que pode:

VOCÊ ESTÁ DORMINDO. VOCÊ ESTÁ DORMINDO. VOCÊ ESTÁ DORMINDO.

E de repente.

Ele está.

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Quando Jace retorna à consciência, ele chega com uma colisão, arquejando de volta à vigília, seu corpo e mente unidos novamente, deitado de costas em uma ravina. Há outros corpos, a maioria Phyrexianos, por todos os lados. A chuva penetrou em sua pele. Seu peito queima pelo Halo residual, seu braço está enrugado com cortes abertos dos tubos que ele arrancou, mas principalmente o que Jace sente é febre. Vertigem quente e alucinações nebulosas brincam em sua visão, seus músculos tremem com calafrios e o suor de sua testa se mistura com a chuva. Ele empurrou seu poder para novos limites e está tão orgulhoso, fraco e poderoso ao mesmo tempo.

Mas então ele se lembra das fileiras de vítimas morrendo no chão. Como aquilo foi culpa dele. Como foi fácil atacar, demolir, assassinar. Foi fácil porque você já matou soldados de Vryn antes. Alhammarret ficaria orgulhoso. A voz que ele ouve é a sua própria, a desilusão da doença, e Jace estremece ao ouvir seu julgamento: você esqueceu quem você é? O que quer que nele não estivesse queimando de febre caiu no chão. Jace tinha colocado a ilusão de um salvador tão bem, convencido seus amigos de que poderia carregar o sílex, que eles poderiam salvar o Multiverso, uma fantasia agradável que contrastava fortemente com a quantidade de soldados que ele foi capaz de atacar com facilidade, causando danos e morte. Sim. Ele havia esquecido.

A febre vem como uma onda distinta e nova, e Jace expira sua própria voz febril em sua mente. Ele está morrendo de frio, úmido de suor e, na desilusão da encefalite autoinduzida, levanta-se, incerto de para onde ir a seguir. Ele sente seu corpo revidar, o óleo chamando-o novamente, mas desta vez não — Jace enterra os calcanhares na terra encharcada de óleo e transmite para sua própria mente uma afirmação: EU ESTOU NO CONTROLE.

Ele pisca, respira. Ele está no controle. Ele está. E enquanto Jace se deleita em sua agência recuperada, ele agarra um dos cabos em seu braço e o arranca. Ele grita, sangue misturado com óleo jorra da ferida, e ele consegue sentir sua pele nua quente de febre.

A atração do óleo está enfraquecendo, mas seu coração e pulmões também estão; a ferida no peito de Jace agora vaza sangue em vez de óleo. Ele está morrendo. Ainda assim, vários dos corpos continuam tendo convulsões; Jace os acalma em um sono sem sonhos. Eles descansam no solo macio da terra encharcada pela chuva, membros enfiados na artemísia próxima, cabeças amortecidas por manchas de ervas daninhas de raízes longas. Jace lembra-se vagamente dos nomes de cada planta que vê, lembra-se de ter aprendido há muito tempo quais eram curas para o quê. Um anel de mago zumbe longe lá no alto, e é o único som ao vento, os Phyrexianos recuaram há muito tempo. Ele é o único vivo e acordado no campo de batalha e a sensação o assombra, faz com que ele pense em realização, o ronronar baixo de aprovação de uma esfinge.

Outra memória agarra seu coração pulsante para trazê-lo de volta ao presente.

Vraska.

Contra a razão, a febre, a ferida, o óleo em suas veias ainda o encorajando a recuar para o mar interno novamente e fechar seus olhos despertos para sempre, Jace grita de dor e começa a transplanar.

Ele precisa chegar a Ravnica. Se ele pode se salvar, talvez possa salvar Vraska também.

Jace chega em casa, e sua casa está manchada de sangue.

Ravnica está em guerra, novamente, legiões de seus compatriotas agarrando seus rostos e invadindo as ruas. Anjos Boros fervilham nos céus acima como vespas, feras Gruul enfurecidas rompem barricadas e atropelam os Phyrexianos em seu caminho; é a Guerra da Centelha tudo de novo, mas em vez de um deus-faraó no leme de Ravnica, Jace sabe que é sua amada que eles manipularão para a vitória.

Ele se esquiva de um batalhão de mantenedores da paz Azorius, entra em um beco fora da vista de uma onda de lacaios Orzhov armados com espinhos dourados polidos. Jace encontra uma porta silenciosa, fecha os olhos enquanto segura a ferida em seu peito e alcança. Sua mente desliza por pontes e passarelas, passa pelo barulho e sensação da batalha, desvia habilmente da consciência dos moribundos e tateia em busca da mente que ele ama mais do que qualquer outra. Leva apenas um momento, — mas o que ele encontra é um fac-símile; é ela, mas é tênue. Um pedaço.

Jace coloca a mão no buraco perto do coração e corre.

A guerra continua, os Phyrexianos estão sendo empurrados de volta, um barulho de invasores em pânico transmite para sua mente a preocupação de que o líder esteja morto, que os Ravnicanos tenham um dispositivo que pode eletrocutar o óleo, que eles devem fugir —

É ruído. Tudo o que Jace consegue se importar é com o tilintar de cristal silencioso da mente de Vraska, zumbindo e desmaiando à distância. Ele escala escombros, procura por uma casa vazia e invade para subir suas escadas. Seu sangue deixa um rastro enquanto ele corre, ele se eleva até os telhados, invoca um draco voador para voar baixo o suficiente para que ele possa agarrar. Mal funciona. A coisa protesta enquanto o carrega, mas cumpre o trabalho o suficiente — Jace vê Vraska estendida no telhado abaixo.

Ele não consegue evitar o som que faz.

O corpo dela é uma confusão de cromo quebrado e queimado. As partes que não são pele tornaram-se azuladas e queimadas, como metal escaldado de dentro para fora. Suas unhas agora são garras, seus tentáculos um emaranhado de fios, cada parte reconhecível tão distorcida quanto a dele. Vraska está imóvel, mas Jace sabe que ela ainda está viva.

Ele se ajoelha, embalando-a, usando o que resta de sua vontade para levantá-la até seu colo em pânico. "Pode abrir os olhos para mim?" Ele diz, suave e carregado. Seu alarme treme em suas mãos — elas estão sangrentas e salpicadas com seu próprio óleo, mas ele acaricia a bochecha dela de qualquer maneira. "Pode respirar?"

Ela não responde, então Jace entra. Bem na borda da mente dela, caso seja mais fácil para ela, e ele ouve em resposta um escárnio familiar.

Não se lisonjeie, Beleren. Você não me tira literalmente o fôlego.

Ele solta um suspiro áspero de alívio e a abraça apertado. É um milagre que ela ainda esteja presente — como ela persistiu através da phierese sem os dons de um telepata?

"Do que você consegue se lembrar?"

Ela explica.

Enquanto ela fala, Jace entende que ela não está ciente do lado de fora, que está falando com ele de dentro do mesmo tipo de bolha, muito parecida com a que ele usou para se manter seguro.

Ele fica com ela por um tempo.

Ele segue seu convite para dentro da plenitude de sua mente, maravilha-se com sua autopreservação e engenhosidade inconsciente — como aconteceu que ela se escondeu no recesso secreto que ele fez para ela há tanto tempo. Vraska salvou-se, porque é claro que salvou. Eles se aproximam, lembram-se um do outro e, enquanto Jace abraça sua amada, ele quer segurar este momento pela eternidade, negar tudo o mais exceto a curva de seus tentáculos e os pés de galinha em seus olhos.

Vraska vale dez mil planos.

Está decidido. Não haverá festa de despedida para nenhum deles. Jace coloca-a de volta nos escombros. Ele passa uma perna por cima e encosta sua testa na dela — um canhão apontado para uma casa de vidro — segurando o rosto dela nas mãos. Se ele conseguiu (quase) reverter sua própria phierese, então certamente poderia fazer o mesmo com ela; essa era sua hipótese, pelo menos. Será a telepatia mais difícil que ele já fez, e Vraska não tem ideia do que está por vir. Talvez seja melhor assim.

Ele avisa: "Prepare-se. Esta parte dói."

Ela responde por trás de uma porta metafórica, divertida, mal consciente, afortunada e ingênua: "Você sempre me terá."

Jace beija sua testa e sabe que para ordená-la a se consertar ela precisa estar totalmente acordada. Ele se lembra de sua promessa de muito tempo atrás, seu plano para sabotar Nicol Bolas, a trava que ainda segura o resto dela. Só há uma maneira de fazer isso, e vai testar seus limites. Ele se prepara com uma respiração profunda —

"Eu também te amo, capitã."

E então, com o fôlego firme de um mestre, ele fecha os olhos e realiza cinco milagres de uma vez.

Primeiro, e mais imediato, assim que ele diz o título dela em voz alta, a porta da psique de Vraska que a mantinha segura lá dentro, protegida da phierese, escancara-se, sua personalidade lançada à superfície da consciência e, em sua conexão compartilhada, brilha com uma luz branca brilhante. Ele a contém, a luz de seu amor emaranhada e protegida e, com agilidade mental, Jace a pega antes que o resto de sua mente completa possa infectar e assumir o controle. No mundo desperto, os olhos de Vraska se abrem subitamente. Ela arqueja, seus músculos começam a convulsionar.

Enquanto isso, no reino do interior, ele ergue uma barricada, uma parede longa e sólida entre a mente dela e o veneno que alterou seu corpo. A parede é feita de tudo o que ele ama nela; escamas e quitina, xícaras de chá de outros planos e vestidos lindos deste aqui, tábuas de navios à vela e a pedra que só ela consegue gerar; é um monumento à força e vontade de Vraska e, atrás dela, ele reúne e isola o miasma da sujeira Phyrexiana.

Simultaneamente, outra parte dele transmite a mensagem para ajudá-la a salvar a própria vida, o mesmo comando hipotalâmico que reverbera em sua própria mente:

VOCÊ ESTÁ COMBATENDO UMA INFECÇÃO. VOCÊ ESTÁ COM FEBRE. VOCÊ ESTÁ RESPIRANDO E VIVA. O ÓLEO EM SUAS VEIAS É UM VÍRUS.

E uma quarta parte de Jace levanta o corpo de Vraska com todas as suas forças, seus músculos finalmente cedendo de exaustão, o buraco em seu peito bombeando sangue livre de óleo mais uma vez e, com a determinação de um homem moribundo, puxa-a para as Eternidades Cegas. Ele nem sabe para onde ir, mas percebe, enquanto pisam naquele eterno limiar, que apesar de seus esforços, apesar da telepatia mais complexa que já fez, ambos estão fracos demais para continuar. Sem ajuda, eles morrerão.

E finalmente, a quinta parte da mente de Jace lembra que ele conhece uma curandeira, e a conhece por toda a sua vida.

Carregando sua amada, ele retorna ao plano que acabara de deixar.

Arte de: Fajareka Setiawan

As Eternidades Cegas para Jace sempre apareceram como uma mente aparece: camadas infinitamente intrincadas de vidro, curvando-se e sobrepondo-se, tanto matemáticas quanto emocionais ao mesmo tempo. A mente não é um lugar lógico; cada um de nós contém uma loucura de impulso biológico e resposta treinada pela natureza. O éter do lugar entre os lugares sempre pareceu a Jace da mesma forma, como um lugar caótico e belo, tão ilógico quanto frágil.

Vraska está em seus braços, e ele sente que ela abre os olhos enquanto atravessam o éter. Primeiro ela olha para cima e para trás dele, talvez vendo a versão dele das Eternidades Cegas pela primeira vez, mas então seus olhos encontram brevemente os dele.

A agonia de seu estado físico faz Jace hesitar. Ele tropeça em um cabo que se solta de suas costas, grita enquanto ele arranca um pouco de pele junto. Sangue pinga e tamborila no éter abaixo enquanto ele continua avançando para o único lugar onde estarão seguros. O único lugar para onde ele sempre poderia recuar, o lugar em que pensou primeiro quando Norn lhe disse para ir para casa.

Das Eternidades Cegas, Jace atravessa uma porta que se abre com o cheiro de violetas.

Ele tropeça para frente mais uma vez, o cabo se soltando e o sangue espirrando atrás deles, e tanto ele quanto Vraska desabam sobre um tapete tecido à mão em outro plano.

O tapete é velho, uma coisa índigo tecida à mão, com círculos elaborados e cavalos simples e, enquanto Jace rola de costas, sente-se péssimo por sangrar por todo ele. O quarto em que aterrissaram é menor do que ele se lembrava; madeira em painéis caiada de branco, um teto baixo com vigas expostas e uma estante feita em casa que ocupa toda a extensão da parede, em frente à qual há uma longa janela horizontal que treme com a chuva. Há bagunça por toda parte e um par de óculos em cima de uma pilha de livros perto de seu rosto.

Vraska está corada de verde, respirando, mas tossindo. Jace chia ao lado dela com sua própria febre. Ele tenta mover a mão para segurar a dela e, ao fazê-lo, um pedaço de metal descasca dos dedos dela. Ela parece péssima, e ele também, cabos caindo e feridas se abrindo, mas ela está viva, então ela é linda.

Ele sorri, e isso exige o último esforço de Jace.

"Impossível", diz uma voz que ele não ouve há décadas.

Ele olha para cima e vê uma mulher madura com cabelos castanhos grisalhos e seus mesmos olhos de água límpida. Ela é baixa, magra, ágil como uma corredora, com um rosto tão afiado quanto o de uma marta. A mulher para, sua expressão é ilegível, e ela deixa cair um texto de curandeira sobre a mesa. Ranna Beleren, sempre no controle, esconde seu alarme diante dos monstros sangrentos que caíram em sua sala de estar.

Ranna aproxima-se timidamente, seus dedos direitos pinçados em um aglomerado pontiagudo de luz azul — um feitiço de bisturi empunhado como uma defesa improvisada — mas ela para quando os olhos de Jace encontram os dela.

"Jace?" ela sussurra o nome dele como se fosse uma maldição.

Ele está cansado demais para falar, então Jace fala diretamente à mente da mulher exatamente quando a febre e a exaustão o dominam.

Por favor, ajude-nos, Mãe. Sinto muito.

Epílogo 2: Traga o Fim, Parte 2

Em Vryn

Jace pisca o suor e o óleo de seus olhos e estremece de febre. O pequeno quarto cheira a partes iguais de assustador e nostálgico, como se ele fosse um fantasma vindo fazer uma visita muito depois de sua partida. A luz de uma lâmpada próxima brilha e revela; faz os poucos cabos que lhe restam recuarem. Ele se sente envergonhado por seu retorno ao lar ser em tal estado não natural. Jace se maravilha enquanto sua mãe entra em ação; ela se envolve sem pausa ou questionamento.

Ranna Beleren se ajoelha, sua mão na bochecha de seu filho e sua outra mão pressionando um embrulho de seu casaco contra a ferida em seu peito. Jace jaz ao lado de Vraska no chão de sua mãe, ambos sangrando e quebrados. Ele solta um fôlego ofegante e sente as mãos dela em sua testa que está pegajosa de febre. De imediato, ele é adulto e criança, lembrando-se de quão pequeno era a última vez que sua mãe curandeira cuidou de sua febre. Jace percebe que está escorregando, sentindo a dissonância cognitiva de sua mãe através do toque de sua mão. Ele recua timidamente.

Por um momento, ele se preocupa com o que sua mãe fará em resposta a Vraska — uma górgona phyrexiana ensanguentada e dilacerada acabou de aterrissar em sua sala de estar. Leva um momento para Jace lembrar-se de sua grande sorte; sua mãe não teria ideia do que é uma górgona. Não há nenhuma em Vryn. Na melhor das hipóteses, sua amada parece um monstro serpente, e na pior, ela parece um monstro serpente phyrexiano. Se não estivesse morrendo, ele riria.

"Salve-o primeiro," Vraska range, e Jace a vê inclinar a cabeça para fazer um contato visual firme e confiante com sua mãe. "Meu nome é Vraska. Seu filho é mais precioso do que minha vida. Por favor, ajude-o." É claro, ela se lembra da mãe dele. Jace às vezes esquece que ela viu tudo.

As sobrancelhas de Ranna estão baixas, sua expressão focada e preocupada. Seus olhos piscam para os de Jace (ele vê os seus próprios nos dela, o azul deles um lago claro e sem limites) e ouve em sua mente uma pergunta transmitida.

Ela é sua esposa?

É uma pergunta tão enorme que Jace tosse com o peso dela. Sua esposa . Ele nunca ousara pensar nela em um recipiente tão pequeno. Mas quando ele a imagina vestindo as cores de sua família, aventurando-se através dos planos com os brincos de sua avó em uma corrente sensata em volta do pescoço, braceletes nupciais vrynianos em ambas as suas mãos enrugadas e artríticas… por um momento Jace se perde na esperança. Sua boca é uma linha rígida enquanto ele a responde por sua vez.

Ela é meu mundo, mãe.

Ranna leva um momento e assente. "Não há necessidade de mártires, ambos estão sendo consertados. Agora Vraska, preciso que você conte regressivamente de dez para mim, você pode fazer isso?"

A dor é esmagadora agora. Ela se apodera dos músculos de Jace e o puxa para baixo. Seu peito está em chamas; suas feridas abertas gritam com o ar frio. Vraska conta fracamente em voz alta ao lado dele —

"Dez … nove …"

Enquanto Jace antecipa o oito, ele vê Ranna conjurar uma proteção nas pontas de seus dedos, um brilho ciano claro que cintila na luz baixa. Ela ergue as mãos, e tanto o filho quanto a amada se erguem com elas. Jace quer agradecê-la, mas em vez disso sente-se derivar para a inconsciência enquanto Ranna sussurra para ambos uma canção de sedação, pela primeira vez em décadas cantando para seu filho dormir.

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Ele acorda em uma névoa turva de incenso e fumaça. A perícia de sua mãe está cuidadosamente disposta ao redor dos nexos de seu corpo: um crânio de cavalo aos seus pés, pedras de rio em cada ferida aberta dos cabos, um sino virado para cima sobre as bandagens de seu peito. Jace não é curandeiro, mas mesmo ele consegue sentir o fluxo de energia de cada objeto para cada ponto.

E com um virar de cabeça cansado e angustiado, ele entende onde está. Ranna movera ambos para uma sala de cura que ele reconhece como seu antigo quarto de infância. Há a mancha no teto para a qual ele olhava todas as noites; lá, no alto da prateleira, está uma ferradura do primeiro Pewter. O quarto parece muito menor agora como um adulto. Ranna está ajoelhada sobre Vraska, uma luz brilhante brilhando sobre a pele de sua amada enquanto sua mãe se ajoelha, suas mãos resplandecentes.

"Eu não consigo baixar a febre dela", diz ela.

Oh. Fui eu , Jace transmite para ela em resposta.

"Você se tornou um curandeiro também nos últimos treze anos?", diz ela com pontaria ácida.

Foi o melhor que consegui pensar. Eu ordenei aos nossos corpos que gerassem febre para queimar a phyresis.

Ranna assente. "Seu comando elevou as defesas de ambos os seus corpos para fazer o que me levaria dois dias de tratamento." Há um "bom trabalho" ali em algum lugar; Jace consegue sentir o cheiro. Sua mãe endureceu enquanto ele estava fora. Ela levanta a cabeça, olhando diretamente para Jace.

"Alhammarret falhou em proteger você?"

Ele não entende. Proteger-me?

"Do que quer que o tenha matado. Todos pensamos…" Ranna faz uma pausa. Ela parece muito mais velha agora. "Todos pensamos que você tinha morrido com ele. Foi o que ambos os exércitos relataram. Então, o que o matou?"

Não há expiação que possa suavizar as linhas no rosto de sua mãe. Vryn passou treze anos pensando que ele estava morto quando a verdade era muito mais sem sentido. Que inferno ele a fez passar?

O peito de Jace dói. Seu lábio treme.

Ranna cerra os olhos. "Mostre-me o que aconteceu."

O pedido dela faz o coração de Jace doer, não por causa da ferida que Elspeth deixou em seu peito, mas porque ela ainda o conhece. Depois de todo esse tempo, sua mãe conhece seu filho e seus dons.

Então, ele o faz, tudo de uma vez. Tudo o que aconteceu na noite em que ele caminhou entre os planos pela primeira vez, um vislumbre amplo dos últimos treze anos. Ranna arqueja e cai de volta em seu assento. O que ele mostra a ela é um resumo acelerado: Alhammarret, traição, esquecer, esquecer, esquecer vergonha, lembrar amor, amor, mãe, este é o meu amor, salve-nos, nós não pedimos por isso.

Ranna engole em seco audivelmente. "Ele mentiu para você, e você esqueceu… tudo? Até nós?"

Jace não tem forças para assentir. Sua mãe pisca, visivelmente pensando, olhos dardejando como se estivesse lendo algo no ar, e Jace percebe que faz a mesma coisa quando processa novas informações — a familiaridade dói.

Mas é a próxima pergunta de Ranna que o pega desprevenido. Ela pressiona com força seu pano enrolado contra a ferida em seu peito e lhe pergunta, firme e mortal: "Você o matou?"

Ele não consegue responder, não consegue se mover, mas a expressão de Jace escurece da mesma forma.

Ranna assente para ele. "Bom ."

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Jace acorda, seus braços enfaixados, seu peito brilhando com uma compressa que cheira a flores, porém adstringente. A dor é abafada, ampla e difícil de identificar; deve haver um feitiço mascarando-a. Ele respira ofegante e pisca; a febre ainda está aqui, mas a pequena pilha de metal e cabos no canto diz que seu corpo ainda está combatendo a phyresis.

Vraska está dormindo na mesa ao lado dele. Jace sente algo por perto, uma energia frenética e viva, como o sol do meio do verão, e nota uma longa pena laranja repousando sobre a testa dela. Ele consegue ver as bordas tremularem, um cacho plasmídico que continua pelas bordas da pena como uma vela longa acesa. Ele a observa queimar sem se consumir enquanto Ranna entra com uma tintura em uma mão e uma tigela de sopa na outra.

"O que isso faz?", ele coaxa, notando a rêmige.

"É uma pena de fênix. Você consegue senti-la? Estava em você antes, enquanto você estava inconsciente." Ranna sorri. "É uma alternativa para substituição de órgãos que desenvolvi. Renovação total de tecido vivo, cauteriza os órgãos afetados, acelera a necrose e então transforma esse tecido morto em um substituto vivo. Aposto que você pensou que era o único prodígio da família."

"Não soube que tinha uma família por treze anos."

"Bem. Você tem." Ranna faz uma pausa, considerando. "E você se saiu bem. Vraska é linda", diz Ranna, observando-a com um sorriso. "Ela é bondosa?"

Jace sorri. "Ela é bondosa para aqueles que merecem bondade."

"Então ela é sábia também." Ranna coloca tanto a sopa quanto o remédio ao seu lado. "Neste ritmo, poderei acordá-la amanhã. Continue fazendo sua parte, garoto. Está ajudando."

Jace não havia interrompido seus comandos mentais para ambos. Você tem um vírus. Queime, lute. Elimine o vírus. Os comandos rodam em um loop no fundo de sua mente. Isso o cansa, mas ele tenta não pensar nisso.

"Sinto muito por não ter vindo antes", ele diz baixinho. "Eu estava envergonhado por ter esquecido vocês."

Ranna assente, sua boca apertada. "Eu me envergonho de quem me tornei depois que você morreu — partiu."

Jace fica feliz por um momento que seus pais apenas presumiram que ele estava morto. Ele nota a garrafa de bebida vazia na mesa atrás dela.

Ela retira outra placa de metal da pele de Vraska e rapidamente coloca uma mão no local para banhá-lo em luz. "Acho que isso significa que estamos quites."

Ela tranca seus sentimentos tão facilmente, Jace pensa, mas talvez ele sempre soubesse disso. "Onde está o papai?", ele pergunta.

Ela dá de ombros levemente. É um gesto pequeno e vazio. Ele entende.

"Nós nos separamos. Ele foi para a fronteira como engenheiro de anéis de magos. Eu me juntei ao exército como médica de campo. Curar os vivos parecia mais útil do que desenvolver teoria de cura sozinha. Tem sido um Armagedom após o outro por aqui. Todos os tipos de milícias assumindo o controle, depois sendo mortas, então outra assumindo…" ela faz uma pausa, balança a cabeça, exala um fôlego ainda mais trêmulo. "Jace… esta guerra chegou para você cedo demais. Eu nunca deveria ter deixado você chegar perto daquela esfinge."

Ela pega a mão dele. Eles compartilham um olhar carregado. "Mas mesmo se você não se tornasse o aprendiz dele, a guerra teria vindo buscar você também. As guerras sempre vêm."

Ele sabe. Ele sabe. Ele sabe.

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Ele já está bem o suficiente para caminhar até a cama que sua mãe montou na sala de estar. Pode ter passado dois dias ou dois meses. Ele não sabe dizer ao certo. Na maior parte do tempo, ele dorme — um esquecimento profundo e restaurador. O melhor que ele já dormiu em sua vida. Ele pisca de volta à vigília após seu segundo cochilo naquele dia, lembrando automaticamente ao seu corpo para desligar o clarão de alerta de dor de seus ferimentos ainda em cicatrização. A voz de Vraska de seu assento à mesa de jantar o faz despertar.

"— não entendo como eles souberam que era ele."

Sua mãe faz um ruído neutro. "O general o reconheceu, ele era… influente, quando era mais jovem. Não podemos deixá-lo sair na rua, ou se sair, ele precisa se disfarçar. Há um mandado para sua execução."

Elas estão falando sobre ele. O que ele fez. Jace decide permanecer quieto e ouvir.

"… não fomos nós, Ranna." Vraska está firme, mas ele ouve sua raiva diante da injustiça. "Nós não estávamos no controle. Como supõe-se que sejamos responsabilizados por ações que não escolhemos?"

"Vocês não são. Acho que vocês apenas começam de novo." Sua mãe faz uma pausa. Há o som de água sendo despejada, de um único estalo de açúcar em uma xícara. Vraska murmura um agradecimento.

"Como você conheceu o Jace, Vraska?"

Por favor, não diga a resposta real , ele deseja.

"Em uma ilha."

Ele suspira de alívio.

"Ele era bonito, engraçado. Curioso ao extremo."

Jace sente-se corar.

"Ele sempre foi curioso", diz Ranna. "Uma vez ele quis saber o que eu fazia no hospital, então me seguiu em segredo. Eu só descobri quando ele esbarrou em mim no meio de uma cirurgia com o meu almoço nas mãos."

Vraska abre um sorriso de alegria, mostrando todos os dentes. "Que salafrário ."

Jace não consegue vê-las claramente deste ângulo, mas vê o cansaço em ambas as silhuetas, como suas sombras se estendem largas e sólidas pela parede na luz da lâmpada. Mesmo nos intervalos silenciosos da conversa, essas duas mulheres dominam a totalidade do espaço.

"Ele sempre teve boas intenções. Não percebemos até muito mais tarde, mas ele estava usando sua magia muito antes do que suspeitávamos. Uma vez, quando ele era jovem, ficou tão chateado porque o cavalo de carroça do nosso prédio estava doente que criou uma ilusão de uma cópia do cavalo e tentou colocar arreios nele. É claro que não tínhamos ideia de que Jace fora quem o fizera. Isso foi antes de sabermos que ele era um telepata, quanto mais um ilusionista. Nós o encontramos com o cavalo e presumimos que ele tivesse encontrado algum feitiço de espionagem. Pobre Jace, ele ficou tão bravo quando a sela continuava caindo através das costas dele."

"Ele criou uma ilusão totalmente coerente quando criança ?"

Ranna balança a cabeça, um sorriso nos lábios. "Ah, sim, o cavalo do quarteirão era o Pewter. Jace ficou tão chateado quando ele morreu. Manteve aquele duplo por perto por semanas. Acho que ele amava a cópia do Pewter mais do que amava o cavalo real."

Vraska fica em silêncio. "Ranna, obrigada por tudo isso."

"Como está hoje?" Sua mãe sempre perguntava isso como uma forma de questionar os pacientes sobre seu nível de dor. Jace lembra-se dela perguntando isso todos os dias quando ele voltava da escola.

Vraska torna-se pequena. "… Eu me lembro de muita coisa. Não era eu, mas eu… matei, feri tantas pessoas. Não tenho certeza de como voltar a ser mestre de guilda novamente."

Ranna pega a mão dela. "Vou te dizer o que eu nunca pude dizer ao meu filho", Jace ouve, sem ser visto no outro quarto, "A sua antiga versão está morta. Você nunca mais poderá ser aquela pessoa."

A respiração de Jace trava em seu peito.

"Você é a mãe do seu filho", Vraska diz suavemente. "Obrigada, Ranna."

Vraska parece confortada por isso; Jace não está nem um pouco. Sua antiga versão está morta, sua mãe tem razão. O Pacto das Guildas Vivo, o tomador de juramentos, o pirata, a arma de guerra da esfinge. Aquela pessoa morreu quando Phyrexia roubou seu corpo para matar seus compatriotas.

Ele é outra pessoa.

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Eles estão à beira do estranho, um amplo triângulo azulado que parece, soa e cheira de forma tão familiar que seus corações batem no mesmo ritmo que seu pulso. É novo e familiar ao mesmo tempo, e a estranheza de ver uma manifestação física do que antes era privado e individual parece decadente, perversa. Jace sente Vraska ficar rígida e desconfortável à medida que se aproximam. Eles ouviram sobre o portal através de Ranna, que chegou em casa animada para falar sobre o kor muito gentil que conheceu no hospital, e agora estão diante dele, um Caminho do Agouro. Jace criou uma ilusão de rostos diferentes para eles para evitar suspeitas (e seu mandado).

Vraska olha para o Caminho do Agouro com desdém enquanto inspeciona as bordas. "Eles não deveriam existir."

Jace esperava, em parte, encontrar otimismo no portal, uma forma de conectar ainda mais o Multiverso, mas agora, diante dele, tudo o que ele consegue ver é consequência. "Tudo o que fizemos como as Sentinelas só conseguimos porque as ameaças estavam contidas. Veja o que Bolas e Tezzeret fizeram com apenas um portal. Agora isso…?"

"Nesta escala, haverá conquistadores coletando planos, cretinos espalhando violência por todo o Multiverso, e nenhuma forma de impedi-los. Nenhuma maneira de encurralar e conter. Nenhuma maneira de punir." Vraska olha para ele. "Jace. Temos que fazer alguma coisa."

Jace entende, mas sua exaustão pesa demais. As feridas estão recentes demais. "Por que nós?"

Ela parece exasperada, mas tudo o que Jace pode fazer é pegar a mão dela, apertá-la para lembrá-la do que é real, aqui, agora.

"Saímos vivos, Vraska. Isso é o suficiente para mim. Quero pensar no que virá a seguir para nós."

Eles se entreolham."Ótimo, outra criança esquisita."

Eles nunca mais falaram sobre o cofre Fomori.

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Dois Anos Atrás em Ravnica

Mas anos depois, em um momento de curiosidade, Jace lembrou-se do que não deveria ser esquecido e encontrou a resposta que procurava nos meses após a Guerra da Centelha durante um chá com uma querida amiga.

"Eu já ouvi falar desse cofre, sim. Existem outros como ele, em planos por todo o Multiverso. Relíquias de um antigo império há muito perdido para a história. Perdido para a maioria , pelo menos", disse Tamiyo, pousando sua xícara e tirando um pergaminho de sua bolsa. "Você gostaria de ouvir a história?"

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Todos os três de sua conspiração, Ranna, Vraska e Jace, estão na sala de estar. Eles estão curados e cheios de propósito, decididos sobre seu destino.

Jace beija sua mãe em despedida, e ele consegue sentir o cheiro de álcool em seu hálito.

"Uma vez por semana", diz Ranna, apertando a mão de seu filho.

"Uma vez por semana", ele afirma, apertando de volta, uma grande tristeza em seus olhos.

Vraska abraça Ranna, "Estou tão feliz por ter conhecido você. Você nos deu uma segunda chance. Obrigada."

Ela cutuca Jace. "Vou lhes dar um momento", diz ela e caminha para a cozinha, fora do alcance dos ouvidos.

"Mãe. Obrigado. Você nos salvou."

"Você me salvou", ela responde com mais um aperto de mão. "E você me abandonou … não sei se posso te perdoar por isso. Mas sei que não foi sua culpa."

"Então quem é o culpado? Por eu esquecer, pelo papai ir embora, pela guerra …"

Ranna dá de ombros. Ela parece tão cansada. "Ninguém. Não há culpa ou razão. Sinto muito, garoto. O mundo se inclina para a miséria."

He hugs her again. "Desta vez não. Vamos consertar tudo, Mãe."

"Se alguém pode fazer isso, é você, meu milagre." Ela beija sua testa.

Vraska retorna, e eles dão as mãos, preparados para caminhar entre planos pela primeira vez em meses.

"Pronta?"

"Pronta."

Jace dá um passo à frente no esquecimento, e Vraska dá um passo no tapete.

Seus olhos estão arregalados. Jace sente isso como algo semelhante aos seus ouvidos estalando, como se a pressão tivesse subido e algum vácuo tivesse ficado no ar onde Vraska estava. Ele dá um passo de volta para Vryn, procurando o ombro de Vraska. Ela cambaleia para frente, a mão no coração, na garganta, na cabeça, tateando e sentindo algo que não está lá. Ela vacila, estremece de dor, e justo quando Jace se inclina para ajudar, ela solta um soluço ofegante.

"Não consigo sentir. Não consigo mais sentir."

"Sentir o quê?"

"Não consigo caminhar entre planos! Você consegue?"

Instantaneamente ele permite que seu corpo mude, ficando metade dentro e metade fora das Eternidades Cegas, seus pés e pernas vibrando com seu próprio brilho cerúleo. Vraska fecha os olhos, se concentra e suspira. "Sumia."

Ela desaba em uma cadeira próxima, e Jace se aproxima, envolvendo-a em um abraço.

A respiração de Vraska está rápida demais, seus braços tremendo de medo. De repente, ela pressiona sua testa contra a dele. "Encontre-a ", ela ordena.

Jace entende inatamente o que ela quer dizer. He opens his mind to hers and dives in.

Ele procura, vasculha cada parte em cada porta que ela deixa aberta, mas nada. Aquela coisa , a centelha dela, o que quer que seja que lhe permita o dom que compartilham, não está aqui.

Quando ele emerge, são suas lágrimas que sinalizam para Vraska que ela realmente se foi.

Ela chora abertamente, e é a primeira vez que Jace a ouve chorar. Ele pensa em suas coleções, todas as maravilhas que ela ama de suas viagens, e todos os lugares onde deveriam ir juntos.

"Não sei quem sou sem ela", ela sussurra em seus braços.

A velha você está morta.

Jamais poderemos ser aquelas pessoas novamente.

Jace chora com ela pela falta de sentido de tudo isso e jura dar um sentido próprio para eles.

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Ranna refaz a cama deles. Vraska desfaz sua mala. A calamidade que eles conspiram assume uma nova urgência.

Ela transforma sua dor em propósito com uma alquimia furiosa, assume a parede perto da estante de livros e planeja como se sua vida dependesse disso.

E Jace, carregado de intenção, começa a trabalhar.

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Doze Meses Atrás em Eldraine

Jace gosta de Eldraine; as regras que governam este plano são alegres e caóticas à primeira vista, mas cristalizam-se em um sentido perfeito quando você aprende como olhar para ele. Ele admira a lógica dentro de sua fantasia.

Ele veio a esta prisão para encontrar uma prisioneira — deixar os guardas inconscientes é fácil o suficiente, tão fácil que ele nem precisa estar invisível para fazê-lo. A armadura dos guardas tilinta uma contra a outra enquanto eles desabam em um sonho compartilhado. Passando por cima de um corpo, Jace corre as pontas dos dedos pelas paredes de pedra. Ele caminha pela longa fileira de portas seladas e lança uma ilusão para tomar emprestado um rosto, suas feições borrando e desaparecendo, deixando a face mais assustadora e útil que ele conhece.

Tem que ser alguém em quem ninguém mais possa confiar , Vraska tinha dito. Alguém sobre quem ninguém faria perguntas.

Jace conheceu Ashiok uma vez. Uma vez foi o suficiente.

Ele retarda seu passo e manipula a ilusão; um deslizar cadenciado, cotovelos erguidos, mãos delicadas apesar das garras, queixo inclinado para cima. Jace se lembra de algo que Judith dos Rakdos disse uma vez em confiança: uma grande performance nunca é um fac-símile; deve ser sempre construída a partir de uma verdade. Quanto mais ele usa ilusões, mais convincente ele se torna; Jace encontrou tantas verdades neste último ano. Neste momento, ele evoca uma memória sensorial poderosa e virulenta à tona; a sensação viscosa de sangue e de olhos arregalados de saber que você é aterrorizante. Ele já sentiu isso antes — a sensação de outros terem medo dele. Jace odiava isso então, mas agora, talvez, haja poder em ser monstruoso.

É um papel com o qual ele precisará estar confortável — esta não será a última vez que ele usará este rosto. Bem, metade de um rosto.

Dentro da cela no final da fileira de portas está Eriette, a bruxa perversa.

Jace como Ashiok sorri sem olhos e curva os dedos em torno das barras de sua cela.

Eriette sorri de volta. "Bem, meu querido, o que o demorou tanto?"

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Seis Meses Atrás em Ixalan

Vraska odeia estar aqui sem ele. Ela não ficará muito tempo. Ixalan agora , ela havia planejado. Vamos dar aos nossos amigos algo para fazer , sugeriu Jace em seguida. Ele seguiu vários estranhos através de vários Caminhos de Agouros para encontrar aquele que ela pudesse pegar com segurança — Vraska estava ficando melhor em não se irritar por precisar de ajuda.

Ela sabia que este plano levaria em seguida à Junção do Trovão, o que era algo pelo qual ansiar — finalmente, ela trabalharia ao lado de seu parceiro de crime mascarado por ilusões. Quando Jace sugeriu seu disfarce para a tarefa, ela o provocou dizendo que era um rosto divertido demais para deixar passar, e com certeza, após noites ensaiando na sala de estar e assustando a mãe dele quase até a morte, todos concordaram que ele fizera a escolha certa. Acontece que ele é um bom ator. Felizmente, ela também é.

A cidade flutuante de High and Dry está exatamente como ela se lembra, movimentada, rangendo com as ondas. É um lugar ao qual ela se sente feliz em retornar. Ela se sente mais como ela mesma aqui. Leva menos de uma hora de busca por suas passarelas de escadas rangentes e caçando em suas docas para encontrar quem ela está procurando. Ela está aliviada; se eles não estivessem aqui, então estariam no Beligerante no meio do mar.

Breeches é fácil de ouvir, e Malcolm é fácil de avistar.

"COGUMELO GIGANTE", o goblin grita. "COGUMELO GIGANTE. OPINIÕES DEMAIS."

"Senciente", o sirenio corrige pacientemente. "Ele era senciente —"

Vraska sorri e aparece. "Olá, rapazes. Parece que vocês precisam de um emprego."

A resposta deles é entusiástica, transbordando de lágrimas de alegria, um grito igual tanto do sirenio quanto do goblin.

"CAPITÃ!"

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Mês Passado em Ravnica

Jace espreita a cidade subterrânea Golgari. Ele tem seguido seu alvo há algum tempo.

Proft e Etrata estão negociando com Izoni.

Como podemos manifestá-lo? Vraska disse. Há um detetive em casa que pode projetar sua impressão psíquica na realidade , Jace lembrou. Seu amor acenou com a cabeça, prendendo uma nota na parede. Precisamos discernir como as habilidades dele se diferenciam das suas , disse ela. Entre na cabeça dele.

Jace agora observa a conversa deles das sombras. Parado apenas o suficiente na luz para ser pego, ele espera como uma isca. Por fim, o detetive olha para cima, com os olhos estreitados, e Jace sai em disparada. Ele sente o alarme de Proft, como ele inicia a perseguição atrás dele — Proft é ágil, mais rápido do que Jace esperava, mas correndo exatamente como planejado. O manto de Jace flutua atrás dele. Ele prepara um cano de chumbo e vira uma esquina no momento em que sente o alcance desesperado do detetive.

Jace se vira, golpeia com o cano o melhor que pode e sente o contato satisfatório ao derrubar Proft no chão.

Vraska ficaria tão orgulhosa de sua violência. Jace sorri. Ele se ajoelha, estendendo a mano, seus olhos se iluminam e o elo mental é estabelecido.

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Atualmente na Junção do Trovão

O calor do deserto é fino e pungente. Faz Jace se desfazer de seu manto como um dízimo para a rocha e a areia. Ele o deixa dobrado e esquecido no bloco de arenito sobre o qual descansa sob a sombra rala de um pinheiro piñon perfumado. Não há som no local de encontro que decidiram, ou pelo menos não há pessoas — o ruído de um carneiro selvagem na face da rocha lá no alto ressoa em sua atenção, mas apenas momentos depois tudo o que ele consegue ouvir é o coração batendo de sua antecipação. Ela está vindo.

Uma pedra rola ao longe, e Jace vê Vraska enquanto ela carrega seu prêmio pela rocha e cascalho de uma encosta sombreada.

Ele está vivo, impossivelmente. Eles suspeitavam que ele estaria em um estado de animação suspensa, mas não esperavam que ele fosse tão jovem. Vraska o carrega agora, fofinho como uma criança pequena, e o menino (o texto de Tamiyo dizia que era um menino) parece feliz demais em observar o mundo ao seu redor. Ele se segura nela desesperadamente, e Jace se pergunta se ele não consegue se lembrar de seus próprios pais.

Arte de: Gaboleps

"Olá de novo ", diz Vraska com alegria cúmplice. "Obrigado por tirar a máscara de borracha."

"Ha, ha", diz Jace, sorrindo apesar da risada falsa. Eles se abraçam apertado. "O quê, não quer me beijar sem olhos?"

"É a falta de nariz, sinto que estou beijando o interior do seu rosto. Assim é melhor."

"Justo. É este …"

"Ele teve um grande dia", diz Vraska suavemente, balançando o tesouro Fomori em seu quadril. Ela o coloca no chão, e Jace se vê instintivamente ajoelhando-se e estendendo a mão.

"Olá", diz ele. A criança se anima com atenção — ela o entende, bom. "Meu nome é Jace. Qual o seu nome?"

A criança chilreia um pouco, e Jace tem certeza de que isso é o mais próximo de uma linguagem falada que eles conseguirão por enquanto. "Eu sou um telepata, isso significa que posso ler mentes. Posso ler sua mente para que eu possa dizer seu nome corretamente?"

Uncertain at first, but then with happy compliance, the child nestles its head under Jace's hand.

Os olhos de Jace se iluminam e ele arqueja.

"O que foi?" Vraska se ajoelha, preocupada, enquanto a criança estremece levemente em resposta. Jace balança a cabeça em sinal de segurança.

"Está tudo bem! Me desculpe. Eu não quis assustar vocês dois."

Uma lágrima escorre por sua bochecha. O temor o domina. "O nome dele é Loot."

Vraska bufa. "Os pais dele se chamavam Saque e Pilhagem?"

"Vraska."

"Desculpe, Loot." Ela lhe dá tapinhas apologéticos, mas a ofensa parece ter passado por cima de sua adorável cabeça. "Você ainda está aí dentro", diz ela, referindo-se à luz azul nos olhos de Jace e seu olhar distante.

"Sabíamos que ele seria um mapa, mas … deuses, eu não percebi que seria assim."

"Você consegue vê-lo?"

"É … É o Multiverso inteiro. Consigo ver cada plano como um ponto de luz, e dentro de cada ponto, mais por sua vez onde eles se conectam com outros lugares … São Caminhos de Agouros. Vraska, é em tempo real. Consigo ver planos nascendo da Árvore do Mundo, planos se dissolvendo em buracos negros de éter. É o modo de ir de cada ponto a cada ponto. Vraska … você pode usar isso para viajar pelo Multiverso novamente."

Ele pode senti-la tensionar. "Ele mapeia o ponto final de cada Caminho de Agouros?"

"Cada um deles." Ele aperta a mão dela com a sua livre. Ele estremece.

"Como é?" Vraska pergunta.

Um sorriso suave e delicado surge em seu rosto. Ele solta uma risada e não se incomoda em esconder sua veneração. Quando ele responde, seu olhar quase parece atravessá-la. "É como olhar para a eternidade."

Jace termina e limpa os olhos. Ele mantém sua atenção focada em Loot.

"Você foi muito bem. Obrigado, Loot." Ele faz contato visual próximo, e Loot se aproxima. "Loot, precisamos que você saiba que Vraska e eu o protegeremos com todas as nossas forças. Vamos mantê-lo seguro", promete Jace. Ele olha para sua amada e vê Vraska acenar, calorosa e sincera. Loot chilreia com novo afeto.

Jace então lança um olhar para Vraska. "E imagino que você poderia usar um pouco de sossego."

"Principalmente um banho", ela sorri com um beijo.

Então, um banho eles buscam.

Eles o encontram em uma cidade próxima de quatro cavalos em uma estalagem que não faz perguntas.

No silêncio do quarto na estalagem, Jace segura Loot, sonolento e contente em seu colo. Ele carinhosamente corre os polegares pela testa da criança. A criança gentilmente deu o convite, e Jace se certificou de que ela estivesse confortável em troca. Olhar através de sua mente foi avassalador. Onde o interior habitual era cristalino e delicado, o de Loot era vasto, sólido como aço e, tanto quanto Jace podia dizer, infinito. Jace fecha os olhos agora, percorrendo o mapa na mente da criança e testando Vraska sobre suas viagens.

"Que tal um plano com um lugar chamado Qarsi? Você já esteve lá?"

Vraska traz seu café. "Já estive! É um palácio e o assentamento ao redor. Estandarte roxo na cozinha." Ela sorri e, em um tom alegre de meia-melodia, acrescenta para Loot: "Ele sabe como chegar a Tarkir."

"Como é Tarkir?" Jace pergunta.

Vraska senta-se na cama ao lado deles e gentilmente encosta o focinho de Loot no seu para o deleite dele. Ela brinca com sua voz enquanto fala, esfregando seus pés cansados, mas direcionando a resposta a Loot com calor e entonação amigável para crianças. "Tarkir é linda, imensa. Há montanhas muito grandes, selvas espessas, estepes liiiiiiiiivres e abertas, e muitos povos diferentes. Mas se você conhece Tarkir, então significa que você sabe como nos reabastecer com o chá bom ."

"Eles têm café bom?"

She grins and purrs with dangerous promise, "Eles têm café que é gelado ."

"Espera, sério?"

"Tomei em Qarsi. Eles usam um feitiço para resfriá-lo e depois colocam creme doce por cima."

Jace narrows his eyes. "Onde?"

Uma breve troca mental, duas canecas de vidro pegas no bar, uma caminhada entre planos solo e vinte minutos depois, Jace retorna do éter com duas canecas cheias de café doce e gelado e seis pacotes de comida fresca. Vraska e Loot comemoram sua chegada, e Jace distribui a refeição.

Pela primeira vez em décadas, Jace se lembra da sorte de ter uma família. O cheiro de curry de peixe, porco refogado, arroz pegajoso e macarrão fermentado sobe para se misturar com o tabaco, o uísque e o piñon do salão abaixo. Jace sorri e beija sua amada enquanto a criança na sala ri, não mais sozinha. Este momento é um presságio. É um agouro.

Amanhã os três passarão por um portal que não deveria existir para um plano que não os verá chegando, que é exatamente o que Jace quer. Eles arrumarão suas malas para a jornada, sacudirão a poeira de um plano e içarão Loot em seus quadris. Jace and Vraska will pull down their sleeves over the scars from their phyresis, kissing their way up the healed wounds on their arms. O tecido da cicatriz é o pacto deles. É o reconhecimento compartilhado de que não apenas coisas ruins acontecem, mas também acontecem sem causa. Este Multiverso é um redemoinho sem fim. Não há esperança de eliminar a crueldade e a injustiça da existência. Mas nessas cicatrizes, nesse pacto, sua estranha pequena família carrega consigo a esperança que escolheram.

Jace caminhará para frente no Caminho de Agouros, otimista e resoluto. Ele segurará firme a mão de sua amada e de seu pupilo e caminhará pelas Eternidades Cegas de um Multiverso miserável e dirá a si mesmo com resolução e fogo de fênix:

O nosso será melhor.