O sol se pôs sobre Porto do Agouro. Clarões de luz âmbar escapavam pelos telhados triangulares, projetando sombras pontiagudas sobre a grama áspera do deserto que corria pelo meio da cidade. Agrupamentos de cactos estavam espalhados ao redor dos edifícios de madeira, e uma única fonte repousava no meio da praça, com a água borbulhando com magia para mantê-la permanentemente fresca. Os sinos da missão tocaram como faziam todas as noites ao pôr do sol e, ainda assim, Archie Dixon consultava seu relógio de bolso, repetidas vezes.
Dois guardas da Companhia Sterling estavam ao lado de uma carruagem próxima. Um deles mastigava preguiçosamente um pedaço de cana-de-açúcar preso entre os dentes. O outro mantinha os olhos fixos no Caminho do Agouro, vigiando o portal em busca de movimento.
Archie guardou o relógio no bolso do colete e soltou um suspiro exagerado. Não era a primeira vez que ele fora contratado pela Companhia Sterling para transportar mercadorias por Encruzilhada do Trovão, mas a maioria dos mensageiros acreditava que a pontualidade era de extrema importância — e Archie estava esperando junto à fonte há mais de uma hora.
Se fosse outro trabalho com outro empregador, ele talvez já tivesse partido. Mas a Companhia Sterling pagava bem. Eles também forneceram dois guardas armados para escoltá-lo pelo deserto, e ofereceram uma taxa adicional em troca do silêncio de Archie. Ele não podia fazer perguntas sobre quem estava encontrando ou o que estava transportando, mas dinheiro era dinheiro, e fofoca não punha comida na mesa.
Ainda assim, ele odiava quando as pessoas se atrasavam.
Archie estava pegando seu relógio novamente quando o Caminho do Agouro ondulou e ganhou vida, fazendo-o enrijecer no lugar. Tons de azul fluorescente estalaram como relâmpagos, e uma figura brilhante apareceu.
Um homem cruzou o limiar, com as feições escondidas por uma bandana preta. Não que isso importasse; Archie não reconhecia o homem, assim como não reconhecia o estilo de roupa que ele usava.
O estranho era de um plano inteiramente diferente.
O olhar do homem vagou pela praça mal pavimentada antes de pousar nos guardas da Sterling. Ele marchou pelo caminho largo em silêncio, parando a vários metros de distância. Em seu punho estendido estava um saco de juta.
Archie pegou a bolsa sem olhar duas vezes e apressou-se para dentro da carruagem.
Os guardas da Sterling subiram rapidamente para o assento elevado do condutor. Um deles jogou seu pedaço de cana na areia e agarrou as rédeas, onde dois cavalos castanhos viraram as orelhas para trás em antecipação. Archie mal bateu os nós dos dedos no teto quando a carruagem partiu, deixando o homem mascarado e o portal para trás.
Os cavalos os arrastaram pela paisagem empoeirada por quilômetros, com uma única lanterna pendurada na frente da carruagem para iluminar o caminho. Ela lutava contra a escuridão crescente até que era tudo o que Archie conseguia ver pela janela.
Ele apertou a bolsa contra o peito, tentando encontrar o horizonte onde as montanhas do deserto encontravam o céu estrelado. Ele esperava que o silêncio fosse um bom sinal, mas, no fundo, sabia que não. Seu empregador nunca teria fornecido dois guardas da Companhia Sterling a menos que o trabalho envolvesse riscos.
Ele antecipava bandidos — mas o que o encontrou no deserto foi muito pior.
Uma parede de fogo irrompeu em uma labareda veloz, criando um círculo impenetrável ao redor da carruagem. Os cavalos empinaram em alarme, e o veículo parou bruscamente, fazendo a cabeça de Archie bater contra a moldura da janela. Ele fez uma careta, com os olhos oscilando, e assistiu horrorizado enquanto os dois guardas saltavam para a areia e sacavam suas armas.
"O que é isso?" Archie perguntou apressadamente, com o estômago se enchendo de pavor.
"Esporas Infernais", murmurou um dos guardas.
O outro apertou o punho em torno de seu rifle de trovão em resposta.
Várias figuras apareceram através da parede de fogo, sem serem afetadas pelas chamas que sibilavam e estalavam ao redor delas. Eles dispararam suas armas contra os guardas sem aviso, enviando rajadas de energia espalhando-se pela areia. Quase uma dúzia de buracos apareceu na lateral da carruagem, e os guardas da Sterling caíram imediatamente.
Quando o único som restante no deserto era o estalar do fogo, os estranhos baixaram suas armas.
O grupo abriu-se ao meio, abrindo caminho para uma figura grande que avançava, com as garras esporeadas tilintando sob ele. A luz do fogo caía sobre a estrutura imponente do dragão, fazendo as escamas em seu corpo parecerem tremeluzir. Não havia como confundir o líder das Esporas Infernais. Não no deserto, onde seu nome carregava tanto medo.
Akul.

O dragão estalou suas estranhas mandíbulas, puxou a cauda para trás e a chicoteou contra a carruagem, partindo o que restava do veículo em dois.
Archie sentou-se em uma poça de sangue, ainda segurando a bolsa. Sua mortalidade estava se esvaindo a cada respiração vacilante, os olhos arregalados de pânico.
Akul mal parecia notá-lo.
O dragão arrancou o saco de juta das mãos moribundas de Archie e estufou o peito em triunfo. "Finalmente. A última chave é minha."
Com uma única garra, ele rasgou o saco. Alguns pedaços de carvão caíram em sua palma aberta, e ele sibilou, os olhos dourados brilhando de fúria.
Akul rosnou, esmagando o punho em torno do carvão até que o pó preto e fino escorresse por suas garras. Ele girou, a cauda chicoteando, e rugiu para o vasto deserto.
Dentro da carruagem destroçada, Archie Dixon observou as Esporas Infernais recuarem alguns passos enquanto Akul ateava fogo à areia ao seu redor. Archie sentiu as chamas se aproximarem, mas sua mente já estava se esvaindo. Ao dar seu último suspiro, ele teve o estranho e súbito impulso de consultar seu relógio de bolso.
Por mais que se importasse com a pontualidade, ele nunca esperou chegar tão cedo à própria morte.
Archie piscou pela última vez — e em algum lugar à distância, muito além das chamas do deserto, a verdadeira chave estava se distanciando do alcance de Akul.
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Annie Flash ajustou seu chapéu de abas largas e apertou os olhos para observar o terreno castigado pelo sol, sua testa franzindo-se em rugas profundas. Ela vinha seguindo a fumaça desde o amanhecer e finalmente conseguia ver a fonte carbonizada à distância a olho nu.
Abaixo dela, Fortuna soltou um resfolego impaciente.
Ela pressionou uma mão enluvada no pescoço do animal e inclinou-se sobre a sela. "Não se preocupe. Vou compensar você com todas as maçãs e grãos doces que puder comer assim que chegarmos em casa — mas aquelas ruínas ali provavelmente são como vamos pagar por isso."
Fortuna balançou seus chifres curvados em resposta, claramente desimpressionado. Annie abriu um sorriso. Não era algo que ela fizesse com frequência, mas havia algo em longas cavalgadas que a tornava mais disposta a baixar a guarda.
Annie tocou Mister com o calcanhar, e eles cavalgaram em direção à fumaça. Ela vira muitos incêndios de carruagens durante seus primeiros dias com os Passolivres. Ela sabia a diferença entre um acidente e uma emboscada — e aquilo certamente não fora um acidente.
Mas um olhar para o corte na carruagem disse a ela exatamente de quem era aquele trabalho, também.
Akul estivera ali.
Fazendo uma careta, Annie lançou seu olho dourado pela paisagem queimada, verificando se havia ilusões. Confiante de que estava sozinha, ela desmontou e moveu-se para os restos da carruagem. Ela chutou a grande pilha de cinzas, e vários ossos espalharam-se para o lado.
Ela tentou não se perguntar a quem pertenciam. A curiosidade nunca fizera nada além de torná-la um alvo maior.
Alcançando o que restava do assento, Annie deu um puxão e revelou um compartimento escondido. Uma caixa de segurança estava lá dentro, intacta. Com um canivete de seu cinto, ela forçou a tampa e encontrou vários maços de dinheiro.
Ataques como esses só pareciam acontecer por um de dois motivos: dinheiro ou vingança. Mas algo não parecia certo no fundo de seu estômago.
Embora soubesse que não devia se perguntar, ela o fez de qualquer maneira.
No que dizia respeito às Esporas Infernais, um incêndio de carruagem como ato de vingança era manso demais; Akul preferia fazer um espetáculo das coisas, muitas vezes em público. Mas eles deixaram o dinheiro para trás — o que significava que estavam atrás de outra coisa. Algo maior do que uma caixa de dinheiro que poderia alimentar uma família inteira por um mês.
O que ele está procurando? Os pensamentos de Annie martelavam. E quantas carruagens ele queimou para encontrar?
Uma pontada de pavor percorreu-a. Ela odiava que um monstro como Akul estivesse semeando o caos no plano, ferindo inocentes pelo caminho e ainda saindo vitorioso. Mas ela também decidira há muito tempo ficar o mais longe possível dele. Porque contanto que aqueles inocentes não fossem as pessoas que ela passara a chamar de família, ela não se importava. Não podia se importar.
Akul não era alguém com quem ela cruzaria o caminho novamente. Mas ela estava feliz em pegar o dinheiro que ele deixara para trás.

Annie pegou a caixa de segurança, guardou-a com segurança em um dos alforjes e afastou uma mecha brilhante da crina dos olhos de Fortuna.
"Acha que consegue nos levar de volta a Saddlebrush antes do meio-dia?" ela perguntou, observando Fortuna baixar a cabeça em resposta. Ela subiu de volta na sela e pegou as rédeas com uma mão. "Tudo bem, então. O jantar é por minha conta."
Annie fixou o olhar muito além do próximo vale, a íris esquerda brilhando com magia. Mesmo estando a quilômetros de distância, ela conseguia ver o contorno da pequena cidade nos ermos que chamava de lar. Saddlebrush estava longe de ser a cidade mais bonita de Encruzilhada do Trovão, mas Annie achava que ela tinha outros encantos — principalmente o quão longe estava do radar. Ela passara a apreciar o silêncio e o anonimato que vinham com isso.
Annie conduzuiu Fortuna até um bebedouro em frente ao armazém geral da cidade. Assim que voltou a ficar sobre os próprios pés, ela jogou o alforje sobre o ombro e subiu os degraus tortos e gastos pela poeira.
"Boa tarde, Sr. Towning", disse Annie, apertando a ponta do chapéu em respeito e deixando as portas de madeira se fecharem atrás dela.
Um homem com cabelos grisalhos levantou-se de trás do balcão, com as mãos apertadas em torno de um caixote de vegetais. "Não esperava ver você hoje! Tenho uma entrega indo para o seu rancho de manhã — a menos, é claro, que você esteja aqui para fazer mudanças." Com um grunhido, ele colocou o caixote em uma prateleira próxima, afastou-se e imediatamente pressionou uma mão nas costas. "As coisas não se movem da mesma forma quando você envelhece", disse ele, fazendo uma careta. "Mas suponho que seja melhor do que a alternativa."
Annie colocou a caixa de segurança no balcão empenado com um baque . "Não posso fazer muito por esses seus ossos velhos, mas isso aqui deve alegrar você."
Sr. Towning levantou a tampa e imediatamente iluminou-se. "Você é boa demais para mim."
Annie observou-o dividir o dinheiro em duas partes iguais. Ele colocou sua parte em um cofre atrás do balcão, e Annie guardou a dela em uma bolsa em seu quadril.
"Tem certeza de que ninguém virá procurar esse tipo de dinheiro?" perguntou ele, girando o mostrador do cofre.
A imagem da carruagem queimada passou pela mente de Annie, mas ela tinha uma regra quando se tratava de discutir onde e como encontrava seu saque.
"Ninguém vai desperdiçar boas horas caminhando pelos ermos para procurar uma caixa que nem perceberam que sumiu", apontou ela. "Além disso, eu e Fortuna não vimos uma alma naquele deserto. Quem quer que tenha deixado esse dinheiro já se foi há muito tempo."
Ele assentiu, com o rosto suavizando. "Não tenho certeza se nossa pequena cidade teria sobrevivido tanto tempo se não fosse por você. Somos muito gratos a você. Sempre fomos, sempre seremos."
"E eu aqui pensando que estava pagando para evitar que vocês me vendessem para quem pagasse mais." Annie ergueu uma sobrancelha. "Se sou a heroína da cidade, provavelmente deveríamos renegociar essa divisão de cinquenta por cento."
A risada do Sr. Towning ecoou pela pequena loja. "Bem, agora, você sabe o que dizem; se não está quebrado…"
Annie gesticulou através do balcão para a cesta de produtos ao longo da parede. "Que tal algumas daquelas maçãs, então? Prometi a Fortuna que pegaria grãos doces enquanto estivesse aqui também."
Ele pegou a maçã vermelha mais brilhante do monte e a jogou pelo balcão. Annie a agarrou no ar com as mãos em concha.
"Diga a Fortuna que é por conta da casa", disse ele. "Vou mandar entregar o resto amanhã de manhã."
Annie inclinou o chapéu e virou-se para a porta. "Sempre um prazer."
Ela cavalgou até a periferia de Saddlebrush e chegou ao seu pequeno rancho pouco antes do pôr do sol. Ela parou perto dos campos no caminho para a casa, onde Fortuna juntou-se aos outros animais para pastar. Às vezes, ele desaparecia junto com os últimos raios de sol — aqui em um momento, ido no próximo. Embora Annie nunca soubesse para onde ele ia ou que negócios ele fazia, ele sempre voltava. Havia um entendimento silencioso entre os dois.
Annie observou-o por um momento. Suas marcas eram como as de seus outros cavalos palominos, mas Fortuna não era uma criatura para a qual Annie tivesse um nome. Sua inteligência igualava a de qualquer humano que ela já conhecera — embora o senso de direção de Fortuna fosse outra coisa inteiramente. Eles eram bem adequados um ao outro dessa forma; Annie ajudava Fortuna a navegar pelo deserto, e Fortuna oferecia a ela uma confiabilidade que ela não tinha há algum tempo.
Annie afastou-se do portão, segurando firme a alça de sua bolsa, e caminhou de volta pela estrada de terra em direção à sua casa. Ela estivera tão fixada em Fortuna e nas memórias de seu passado que quase chegou à varanda antes de perceber que alguém estava parado ao pé da escada.
Sua mão moveu-se imediatamente para a faca guardada em seu quadril, os dedos tremendo. O homem à sua frente estava vestido como alguém da cidade, com um terno impecável e sob medida e botas excessivamente polidas. Seu cabelo loiro ondulado estava penteado para cima e para o lado, e havia uma presunção em sua testa de que Annie desgostou imediatamente.
"O que você está fazendo na minha propriedade?" ela exigiu, a voz afiada.
O estranho mostrou os dentes. "Você é a notória ex-fora da lei que atende pelo nome de Annie Flash?"
Ela estremeceu com a referência, preferindo não pensar em seus dias trabalhando com criminosos. Não depois do que aconteceu com seu sobrinho. "Quem está perguntando?"
O sorriso do homem persistiu. "Vim de todo o caminho da cidade para conhecê-la pessoalmente. Suponho que se possa dizer que sou um grande fã."
"Isso é apenas metade de uma resposta", disse ela friamente. Seu olho esquerdo brilhou com um toque de laranja, e ela viu o homem como ele realmente era sob a ilusão. Ela franziu as sobrancelhas. "Que negócios uma fada tem por aqui nos ermos?"
O sorriso do homem curvou-se com travessura, e ele mudou de forma de volta à sua forma natural — cabelos negros como tinta, orelhas pontudas e um rosto pálido que parecia estar polvilhado de prata. Ele fez uma reverência fingida. "Prazer em conhecê-la, Annie Flash. Meu nome é Oko — e sua habilidade de ver através de ilusões é exatamente por que eu estava procurando por você." Ele inclinou a cabeça como se estivesse admirando uma pintura. "Disseram-me que um anjo lhe deu esse olho. Um presente raro, de fato."
"Não foi a ilusão que denunciou você." Ela cruzou os braços. "É o fato de seus sapatos não terem um grão de terra, apesar de sua afirmação de viajar pelo deserto para me encontrar."
Oko riu. "Quando confrontado com uma escolha entre precisão e aparências, prefiro a última."
"Seja qual for o jogo que você está jogando, não me interessa. Estou aposentada. Agora saia da minha varanda." Ela começou a passar por ele, mas Oko fixou os olhos na bolsa dela, fazendo-a parar.
"Se dinheiro não lhe interessa, talvez vingança interesse", ofereceu ele, com a voz muito parecida com um ronronar perigoso. "Estive montando uma equipe para roubar algo importante de um fora da lei que você deve conhecer como Akul."
Annie ficou tensa, incapaz de esconder a reação visceral ao som do nome dele.
Oko pareceu satisfeito. "Ouvi um boato de que pode haver alguns negócios inacabados entre vocês dois."
"Ouviu errado", cuspiu Annie. Ela virou-se então — para os campos e o rancho e tudo o que construíra para si mesma desde o dia em que Akul quase matou seu sobrinho — e cerrou os punhos. "Não vou retroceder. Não preciso de vingança para encontrar paz."
Oko a estudou com o tipo de cálculo que sempre parecia seguir a ambição. Após um momento, ele enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno livreto de fósforos com o nome de um saloon impresso na lateral. "Aqui — caso mude de ideia."
Annie pegou-o apenas porque esperava que isso o fizesse ir embora mais rápido.
"Se foi tão fácil para mim encontrar você, imagine o quão fácil será se as Esporas Infernais decidirem vir procurar", disse Oko. "Você deve amar muito esta cidade para fazer tanto esforço para protegê-la."
Annie empertigou os ombros. "Isso é uma ameaça?"
Oko pressionou uma mão ao coração; um gesto de sinceridade. "Claro que não. Estou apenas apontando o óbvio." Quando ele baixou a mão, seu sorriso retornou. "Se mudar de ideia, venha me encontrar no saloon. Prometo que farei valer a pena."
Annie observou Oko desaparecer pelo caminho, o aperto fechando-se em torno do livreto de fósforos em sua palma.
Fora um erro ficar em um lugar por tanto tempo. Ela criara raízes sem nem querer.
Nada ficava enterrado no passado para sempre — e agora seus velhos fantasmas a haviam seguido até o único lugar que restava no mundo que ela realmente amava.
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Kellan levantou o último dos postes de metal para o poço do elevador e deu um passo para trás. Ele observou a máquina elevar o equipamento para o próximo nível da torre de retransmissão parcialmente construída.
Lanternas pontiagudas pendiam ao redor dele, seguindo por fios e cordas como uma cascata de luz estelar, brilhando em desafio ao céu que escurecia. Não fazia muito tempo que o sol desaparecera atrás do cânion, mas o ar ainda estava pesado de calor.
Kellan limpou o suor da testa com as costas da mão e olhou por cima do ombro para o que estava rapidamente se tornando sua nova vista favorita. O Caminho do Agouro estava encravado entre a enorme face rochosa, crepitando com energia azul. Era difícil acreditar que faziam apenas algumas semanas desde que ele cruzara o portal.

Mesmo à luz do dia, Porto do Agouro não se parecia em nada com Eldraine. Mas Kellan não olhava para a paisagem laranja e amarela e sentia saudades de casa. Ele sentia esperança .
"Ei — garoto novo!" uma voz bradou do fosso. Kellan olhou para baixo e viu uma das supervisoras acenando com a mão no ar. "Esses paletes não vão se mover sozinhos!"
Kellan desculpou-se, encabulado, e desceu apressadamente a escada para ajudar com a próxima carga de peças. Ele levantou uma após a outra, a mente voltando a divagar com pensamentos de viajar para outras cidades, quando um alto estouro o tirou de seu transe.
Na base da torre, um técnico puxava horrorizado uma peça de hardware desalinhada, tentando removê-la do enorme conector. Houve outro estouro , e um relâmpago irrompeu do metal. Faíscas voaram da unidade de controle, mas a maior parte da energia disparou para o alto, seguindo pela estrutura inacabada da torre de retransmissão até se espalhar pelo céu em pelo menos uma dúzia de direções diferentes.
No alto do andaime, uma das faíscas maiores atingiu uma lanterna, fazendo o vidro explodir. Um trabalhador próximo levantou as mãos para proteger o rosto, cambaleando para trás em direção à borda da plataforma. Ele oscilou, lutando para recuperar o equilíbrio, antes de soltar um grito agudo.
Do alto da torre, o homem caiu.
Alguns dos trabalhadores no fosso gritaram. Outros apontaram em choque.
Kellan não hesitou. Poeira dourada brotou de seus pés enquanto ele voava em direção ao homem e o envolvia com os braços no ar, colhendo-o do céu como um pedaço de fruta antes de baixá-lo suavemente ao chão.

O trabalhador balbuciou algumas palavras de gratidão, com os dentes batendo de medo, quando Ral apareceu. Seus olhos saltaram da torre para o homem e voltaram novamente.
Ral gesticulou em direção ao mercenário com irritação. "Acidentes como este podem atrasar nosso progresso em dias. É pedir demais esperar competência em um projeto como este?" Ele apertou a ponte do nariz, inspirando profundamente. "Esqueça. Como eu estava dizendo antes, gostaria de um relatório completo sobre a conversão elétrica antes da instalação…" Ele afastou-se sem outro olhar para o trabalhador caído.
Um grupo de técnicos apressou-se para a unidade de controle para consertar a falha antes que outra descarga de energia fosse liberada. Passando o braço em volta do homem, Kellan ajudou-o a encontrar um assento contra uma pilha de caixotes de metal para que ele pudesse recuperar o fôlego longe da confusão.
Kellan puxou um cantil de couro cheio de água de seu quadril. "Aqui — beba isso."
"Você tem o coração mole demais para trabalhar em um emprego como este", apontou o homem antes de dar um gole.
"Porque eu não deixei você cair?"
"Não — porque você ainda está parado aqui cuidando de mim quando sabe muito bem que o chefe vai descontar do seu salário por isso."
Kellan olhou através do fosso, onde a supervisora estava em uma conversa profunda com Ral. "Não aceitei este trabalho pelo dinheiro."
"Você é estranho. Mesmo para uma fada." O homem ergueu o queixo. "Por que você aceitou este trabalho?"
Kellan hesitou antes de sentar-se no caixote ao lado dele. "Meu último chefe, Ezrim — ele me disse que meu pai estava neste plano. Eu — estou tentando encontrá-lo."
O homem franziu a testa. "Seu pai está trabalhando na torre de retransmissão?"
Kellan passou a mão pelo cabelo espesso, rindo nervosamente. "Não. Mas Ral ofereceu me contratar, e ele conhece muita gente em Porto do Agouro. Era uma oportunidade boa demais para perder."
O trabalhador fez uma careta e virou o resto da água em um movimento apressado. Quando terminou, soltou um assobio entre os dentes. "Sabe, a maioria das pessoas vem para este lugar para escapar de algo. Talvez, se você ainda não encontrou seu pai, seja porque ele não quer ser encontrado."
"Não acho que ele esteja se escondendo de nada. Acho que ele está procurando por algo", admitiu Kellan.
"Bem, se for esse o caso, tenho certeza de que ele ficará feliz em ver um rosto familiar quando descobrir que você está aqui."
Kellan forçou um sorriso e assentiu, com as orelhas queimando enquanto guardava uma informação vital para si: seu pai não tinha ideia de como Kellan era, porque eles nunca haviam se conhecido .
O homem devolveu o cantil. "É melhor eu voltar lá para cima. O dia de trabalho está quase no fim. E não que eu não aprecie sua ajuda, mas se for o mesmo para você? Vou pelas escadas desta vez."
Kellan observou-o desaparecer na esquina e pensou na última vez que se despedira de um amigo. Isso trouxe um aperto familiar de volta ao seu peito. Ele tentou afastá-lo, decidindo que era melhor terminar de empilhar os postes de metal do que pensar em como era solitário estar em um novo plano sem uma única pessoa que conhecesse. Até seu pai era, tecnicamente, um estranho.
Apenas por mais um pouco , Kellan assegurou a si mesmo.
Ele levantou-se e virou-se para o poste que deixara momentos antes quando encontrou uma figura alta bloqueando seu caminho.
A supervisora acenou com a mão para a bagunça de equipamentos parcialmente empilhados. "Termine aqui. Seu novo turno começa de manhã."
Kellan franziu a testa. "Novo turno?"
"O Sr. Zarek acha que alguém com seu conjunto de habilidades deveria estar em sua equipe de segurança em vez de trabalhar aqui no calor. Ele vai visitar a sede da Companhia Sterling em alguns dias — e você vai com ele."
"Para Prosperidade?" Kellan perguntou, o coração batendo forte.
A supervisora franziu o cenho. "Isto não é uma excursão, garoto. Você vai cuidar do chefe."
Kellan assentiu rapidamente. "Eu entendo", disse ele, embora a esperança estivesse crescendo dentro de seu peito como um balão.
Ela virou-se bruscamente para o elevador. "É melhor se apressar. Quero esta bagunça limpa antes que a equipe da noite chegue."
A empolgação de Kellan era impossível de conter. Prosperidade era, de longe, a cidade mais rica de Encruzilhada do Trovão — e lugares com dinheiro costumavam ser um reduto de fofocas. As chances de pelo menos alguém na cidade ter informações sobre Oko certamente seriam altas. Especialmente se Ral estivesse disposto a ajudar a perguntar por aí.
Ral Zarek era uma pessoa importante em Porto do Agouro. Talvez fosse importante em Prosperidade também. Planeswalkers, na experiência de Kellan, tendiam a ser muito importantes em todos os lugares para onde iam.
Havia tantas perguntas que Kellan queria fazer ao pai — sobre sua herança feérica, seus poderes e se Oko alguma vez se sentira puxado em duas direções da maneira que ele se sentia. Havia tantos anos perdidos entre eles. Tantas memórias que deveriam ter compartilhado, mas não o fizeram. Kellan sabia que havia uma chance de seu pai não sentir o mesmo. Talvez ele o rejeitasse, ou se recusasse a vê-lo. Ele ouvira as histórias sobre Oko ser um trapaceiro notório e ter reputação de não ser confiável.
Mas Kellan nunca fora de acreditar em boatos, e preferia confiar no potencial de alguém a evitá-lo por seus erros passados. Além disso, ele era filho de Oko, e isso significava algo.
Tinha que significar.
Kellan estava pronto para conhecer seu pai.
E Ral Zarek ia ajudar a fazer isso acontecer.
















